POR OSWALDO VIVIANI*

Três meses depois da rebelião em duas unidades do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, que deixou um saldo de 18 presidiários mortos – três deles decapitados –, as cenas de barbárie se repetiram, dessa vez na carceragem da Delegacia Regional de Pinheiro (a 343 km de São Luís), com saldo de seis mortos. Quatro tiveram as cabeças cortadas, entre eles o lavrador José Agostinho Bispo Pereira, 54 anos, preso em junho do ano passado, e condenado a 63 anos por ter abusado sexualmente de suas duas filhas. Ele teve, no total, oito filhos-netos com elas.

Os rebelados reivindicavam uma solução para o problema de superlotação da carceragem – que abrigava, até ontem, 97 detentos em cinco celas, quando sua capacidade é para menos de 40.

O motim dos 97 presos da delegacia começou às 22h30 de segunda-feira (7) e só terminou no início da tarde de ontem (8), depois que os presos rebelados obtiveram de uma comissão de negociação a garantia de que não sofreriam nenhum tipo de retaliação e que presos de outras comarcas seriam transferidos.

O acordo foi cumprido, e pouco tempo depois do fim da rebelião, catorze presos foram transferidos da Delegacia Regional de Pinheiro para delegacias de suas cidades de origem. Outros 36 detentos também serão transferidos, assim que as vagas forem liberadas.

Chuços (armas brancas artesanais, feitas com pedaços de ferro retirados da laje da cadeia), vergalhões de ferro e punhais foram entregues pelos presos à polícia após o fim da rebelião.

De início, foi divulgada a informação – baseada no que disseram os rebelados e a polícia – de que pelo menos quatro dos seis detentos assassinados eram acusados de pedofilia ou estupro.

No entanto, hoje (9) a reportagem do JP conversou com a delegada Laura Amélia Barbosa e ela esclareceu que apenas José Agostinho Pereira respondia por um desses crimes – no caso, pedofilia.

A identificação dos seis mortos e os crimes pelos quais respondiam são os seguintes: José Agostinho Bispo Pereira, 54 anos (pedofilia e cárcere privado); Paulo Sérgio Cunha Pavão, 40 (tráfico e porte ilegal de arma); Alecxandro de Jesus Costa Pereira, o “Sandrinho”, 28 (roubo); José Ivaldo Brito, 40 (Lei Maria da Penha, agressão à mulher); Jorge Luís de Sousa Moraes, 19 (assalto); e Raimundo Nonato Soares Mendes, o “Pampo”, 28 (roubo e tentativa de furto).

José Agostinho, Paulo Sérgio, Alecxandro e José Ivaldo foram decapitados.

Cabeças cortadas, olho retirado – A delegada regional Laura Barbosa afirmou que logo no início da rebelião os presos mostraram três cabeças cortadas, que foram penduradas nas grades de uma cela. O primeiro a ser decapitado foi José Agostinho Bispo Pereira. Um olho humano foi retirado de um dos presos mortos e jogado pela grade para que a delegada e outros negociadores que estavam no local vissem.

O caso de José Agostinho teve repercussão nacional e internacional. O lavrador já havia sido condenado a 63 anos de prisão em dezembro do ano passado. Aguardava abrir vaga no Complexo de Pedrinhas (São Luís) para ser transferido.

Agostinho Bispo foi decapitado durante a rebelião

A delegada Laura Amélia afirmou que já havia comunicado o problema da superlotação na carceragem da Delegacia Regional de Pinheiro ao secretário de Segurança Pública Aluísio Mendes.

Outros presos que respondem pelos crimes de pedofilia e estupro foram feitos de reféns pelos rebelados. Alguns deles foram amarrados nas grades das celas e espancados.

O Jornal Pequeno apurou que o líder da rebelião foi o preso identificado como José Ramiro Moreira Araújo, 18 anos, acusado de ter cometido vários assaltos em Pinheiro – principalmente no povoado Maranhão Novo e no bairro Pacas.

Fizeram parte da comissão que negociou com os rebelados um juiz, dois promotores de Justiça, um pastor e um padre.

O secretário adjunto de Inteligência da SSP, Laércio Costa; o comandante geral da PM, coronel Franklin Pacheco, e o superintendente de Polícia Civil do Interior, Jair Paiva, acompanharam as negociações.

Mais de 100 homens das polícias Civil e Militar cercaram a delegacia. O Grupo Tático Aéreo (GTA) e o GOE (Grupo de Operações Especiais) também participaram do cerco.

Em junho do ano passado, os presos de Pinheiro já haviam se rebelado pelo mesmo motivo – superlotação –, num motim que terminou sem mortos. (Colaborou Gabriela Saraiva)