Fãs, colegas e amigos prestaram as últimas homenagens no velórioFãs, colegas e amigos prestaram as últimas homenagens no velório

Emoção e homenagens marcaram o último adeus ao ator e diretor José Wilker, morto aos 69 anos de enfarto, enquanto dormia, na manhã de sábado, 5, no Rio. O velório começou às 23h30 do próprio sábado, varou a madrugada e foi até a tarde deste domingo, 6, atraindo fãs, parentes e amigos para o Teatro Ipanema, importante polo da vanguarda teatral carioca dos anos 1960 e 1970.

Por volta das 15h, o corpo de Wilker seguiu, sob os últimos aplausos do público, para o Memorial do Carmo, onde foi cremado em cerimônia reservada à família e amigos.
“Ele deixa um buraco muito grande. O Wilker saiu de cena muito cedo”, disse a atriz Betty Faria, chorosa, pouco antes de entrar no teatro, na manhã de sábado.

Segundo ela, Wilker foi o ator com quem mais contracenou em sua carreira. A atriz disse que teve muitos trabalhos marcantes com Wilker, mas destacou o filme “Bye Bye, Brasil” como o mais importante.

O diretor do filme, Cacá Diegues, passou pelo velório na manhã de sábado, mas não falou à imprensa. De madrugada, houve movimentação pelo menos até 2h.

Passaram por lá atores como Tony Ramos, Andrea Beltrão, Marieta Severo e Paulo Betti. Também prestaram homenagem o autor de novelas Gilberto Braga e o teatrólogo Aderbal Freire Filho.

Quando o dia amanheceu, o movimento foi crescendo na calçada em frente ao teatro, na Rua Prudente de Moraes, paralela à Avenida Vieira Souto, via da Praia de Ipanema. A aglomeração de fãs e curiosos, sempre de celulares e câmeras digitais em punho para fotografar atores famosos, atrapalhou o trânsito até o início da tarde, no domingo de sol radiante no Rio.

O Teatro Ipanema não foi escolhido à toa pela família. Espaço tradicional da contracultura no Rio, o palco marcou Wilker. Lá, o ator consolidou o início da carreira no Rio, aonde chegou aos 19 anos, exatamente há 50 anos, justamente na época do Golpe Militar de 1964 e após iniciar carreira em Recife.

No Teatro Ipanema, Wilker participou de “A ópera dos três vinténs”, de Bertold Brecht, e “O Rei da Vela”, do Grupo Opinião, espetáculos de vanguarda encenados em 1971. “Este teatro tem a ver com a história do próprio Wilker”, disse a atriz Beth Goulart, que, ao chegar ao velório, lembrou de seu pai, o ator Paulo Goulart, falecido mês passado. “A Mariana me mandou um e-mail, de amor e afeto (quando Paulo faleceu). Eu tinha que estar aqui neste momento”, disse a atriz, referindo-se a uma das filhas de Wilker. Mariana é filha do ator com a atriz Renée de Vielmond. Wilker deixa também Isabel, filha com a atriz Mônica Torres.

No sábado, a família preferiu não falar à imprensa. Isabel escreveu no Facebook, após postar uma foto com o pai: “Só tenho amor, muito amor, e agora saudades, sempre. Obrigada a todos pelo carinho”. Wilker morreu no apartamento de sua namorada, a jornalista Claudia Montenegro.

Homenagem

O palco do Teatro Ipanema foi todo decorado com quadros com fotos de Wilker em cena, em várias peças diferentes. Os quadros, que ficam na casa do ator e diretor, no Jardim Botânico, também na zona sul do Rio, foram cercados por orquídeas e pelas coroas de flores em sua homenagem. Além disso, uma bandeira do Flamengo, time para o qual Wilker torcia, foi colocada no chão do palco. Os amigos lamentaram a perda.

Emocionado, o ator Milton Gonçalves lembrou os mais de 50 anos de amizade. Os dois se conheceram num festival de teatro em Recife, quando Wilker ainda era adolescente, lembrou Gonçalves. “Ele era verdadeiro, sem papas na língua. E um homem extremamente culto”, disse, na saída do velório.

O ator Stênio Garcia contou ter encontrado Wilker há cerca de 20 dias e disse que ele “estava ótimo”. “Ele vai ficar presente na minha vida para sempre”, disse Garcia.
A notícia da morte de Wilker surpreendeu os amigos, uma vez que o ator tinha boa saúde. Os atores Felipe Camargo, Maitê Proença, Marcelo Serrado e Vera Holtz, entre outros, também passaram pelo velório no sábado.

Os fãs também prestaram suas homenagens. Ana Maria Regis, de 66 anos, levou um cartaz ao velório. Numa folha simples, escreveu à mão: “Adeus, Vadinho”, numa referência ao personagem de Wilker no filme Dona Flor e seus Dois Maridos. “Adeus, Vadinho. Adeus a todos os personagens”, disse Ana Maria, ao deixar o velório.

Segundo a fã, ela viu o filme baseado na obra de Jorge Amado duas vezes. “Quero rever tudo”, completou. ]

Do lado de fora do teatro, a professora universitária Angeli Rose também recorreu a um cartaz. “José Wilker, hoje eu vou lhe usar: para lembrar uma cidadania digna”, escreveu, numa referência ao bordão do Coronel Jesuíno, personagem de Wilker na refilmagem da novela “Gabriela”, levado ao ar pela TV Globo em 2012. “O Wilker fazia a gente pensar além”, disse a fã a jornalistas, explicando a contribuição do ator à “cidadania digna”. “Era alguém que pensava a arte de forma contextualizada”, completou.

Além da ator, Wilker também dirigiu programas de sucesso na televisão, como o humorístico “Sai de Baixo” (1996) e as novelas “Louco Amor” (1983) de Gilberto Braga e “Transas e Caretas” (1984), de Lauro César Muniz. Amante do cinema, com mais de quatro mil filmes guardados em casa, Wilker se arriscou como crítico de cinema, assinando uma coluna semana sobre o assunto no “Jornal do Brasil” e comentando em programas em TV a cabo.