Othelino Filho/Othelino Neto

A grande maioria dos tecnocratas (principalmente os que compõem

a área governamental) costuma usar expressões próprias do meio profissional,

às vezes até com apuros acadêmicos, nas suas interlocuções e também em

espaços públicos. Imaginamos que seja em decorrência de uma, de outra, ou das

três razões que se seguem: 1º), o ambiente em que passa grande parte do tempo

no exercício de suas atividades recomendaria a utilização de uma linguagem

técnica; 2º), seria uma maneira própria dos cientistas do ramo exprimir-se

até mesmo em função do grau de excelência dos seus conhecimentos e, 3º),

mais de que desenvoltura, faltariam empenho e vontade política de traduzir o

que se convencionou chamar de "economez" em algo acessível aos

leigos, ou seja, à maior parcela da sociedade.

Condenar-se a inércia administrativa, a falta de articulação

política, a corrupção desenfreada e, por outro lado, simultaneamente, se

elogiar a política econômica, no seu aspecto "macro", nessa

fase de graves turbulências por que atravessa o país, trata-se de uma

estratégia de abrangência mais ampla. Atende a expectativas múltiplas que

vão dos governistas de formação híbrida aos segmentos identificados com o

neoliberalismo que fincou os seus tentáculos no Brasil principalmente a partir

do final dos anos 80. Ampliou-se de modo ostensivo nas administrações de FHC e

se consolidou, ao que parece de forma definitiva e surpreendentemente ortodoxa,

no governo Lula.

Segmentos oposicionistas, cumprindo com autenticidade as suas

atribuições contempladas pelo Estado Democrático de Direito, vêm despejando

um bombardeio verbal expressivo e constante sobre a administração petista.

Essa carga de críticas veementes, reforçada pelo conjunto de indícios e

provas apurados pelas CPMIs em funcionamento no Congresso Nacional, com apoio

inestimável da imprensa, da Polícia Federal e do Ministério Público, está

demonstrando que o PT não tinha realmente um projeto político para o Brasil.

Pelo menos na acepção mais abrangente do termo.

Os acontecimentos observados até aqui permitem concluir que de

fato só existia uma tentativa de se sustentar um projeto de poder por tempo

indeterminado, a qualquer custo. Talvez a miopia que em muitos casos acomete os

poderosos de plantão tenha obnubilado-lhes a visão diante dos desatinos

cometidos contra o país. Historicamente costuma-se dizer que o Brasil é sempre

(até quando?) maior do que a crise. Porém, considerando os desdobramentos do

imbróglio, talvez não seja mais viável desenodoar-se o PT para que

reconquiste a credibilidade. Entre petistas respeitáveis, já se admite até um

ocaso melancólico para um partido que nasceu sob o signo da ética política,

da mais cristalina fonte de legitimidade para firmar-se com a bandeira dos

compromissos inarredáveis em defesa das liberdades e garantias públicas e

individuais. Na luta pelo conjunto de direitos do cidadão, da sociedade, da

nação politicamente organizada.

Não foi difícil perceber-se que havia alguma coisa obscura nas

relações entre emissários do PT e do PSDB, no processo de transição, ao

qual se integraram representantes do FMI, às caladas da noite, no crepúsculo

de 2002. O governo Lula endossava todos os contratos já firmados, garantindo

que seguiria à risca a cartilha do Fundo Monetário Internacional, em absoluta

sintonia com a concepção ideológica do sistema transnacional que representa.

Estaria morto e sepultado qualquer projeto nacional justificando

a história de um partido que passou mais de duas décadas denunciando a

exploração do povo brasileiro pelo imperialismo norte-americano, através do

capitalismo selvagem mascarado com o manto de um neoliberalismo não menos

egoísta e concentrador de renda. Que, indignado, chegava a vociferar

protestando contra a submissão do Brasil aos interesses dos banqueiros e

especuladores multinacionais, enquanto cresciam, em proporções geométricas,

exclusão, pobreza e miséria na maior nação do continente sul-americano.

O governo Lula avança no terceiro ano de mandato. Agora,

fala-se de um projeto de governo que seria da inspiração e lavra do deputado

Delfim Neto, o mesmo que, ministro em três pastas na ditadura militar, defendia

a tese segundo a qual "o bolo teria que crescer para depois ser

dividido".O"bolo cresceu" e foi consumidoapenas por

uns poucos, durante o malfadado "milagre econômico", que

subordinou o Brasil a um dos períodos de maior endividamento da sua história.

O lampejo de criatividade do momento é conhecido pela alcunha

de "déficit zero". Implicaria "flexibilizar"

a Lei de Diretrizes Orçamentárias, ou como estariam preferindo denominar:

"desconstitucionalizar", em outras palavras, acabar com os

dispositivos da Constituição Federal que determinam os percentuais vinculados

obrigatoriamente ao Orçamento da União a serem aplicados na área social,

sobretudo naeducação, saúde e seguridade.

Qual seria o objetivo?Hoje, o superávit primário (a

soma das riquezas produzidas, menos o pagamento dos serviços da dívida), a

despeito de ser considerado razoável, não é suficiente para saldar os

débitos com os banqueiros. Muito menos para investir em setores onde se

realçam as demandas mais urgentes da população:carências naoferta

de trabalho e moradia;educação, saúde, segurança, lazer,

infra-estrutura (estradas, portos, produção de energia, saneamento ambiental

etc.)Com o"déficit zero"pagar-se-iam religiosamente

"os credores".Ossetores responsáveis pela produção e

pela riqueza nacionaisque continuem se danando!A legião dos

excluídos, desatendida nas mínimas necessidades, fragilizada,que

permaneça submetida à sanha do crime organizado. Curve-se à violência nas

suas diversas facetas e se incorpore ao estado paralelo da marginalidade. Haja

destino cruel!

* Correspondência recebida:

Ao ler o artigo intitulado "A Frente de Libertação do

Maranhão exige: Idealismo, Organização e Maturidade", me veio a certeza

de que o fim da Oligarquia Sarney realmente está chegando. Graças ao empenho

de pessoas como vocês e de um jornal de fato imparcial e descompromissado com

os oligarcas. Cumpre-me parabenizar a vocês e a toda equipe do Jornal Pequeno,

pela CORAGEM, qualidade esta que ainda falta a muita gente neste Estado.

Continuem sempre assim, na certeza de que seus leitores concordam com esse

compromisso sério de que "a liberdade e a justiça são pilares dos

Direitos Fundamentais da Pessoa Humana", representando, portanto "o

verdadeiro grito de liberdade diante das mais covardes e brutais práticas

levadas a efeitos contra milhões de pessoas humildes, oprimidas e

desamparadas". Um grande abraço, Iran Alves da Silva.

E-mail: ([email protected]).