POR AURELIO CARVALHO

Saiba o que é e como lidar com a situação que já atingiu 170 mil crianças brasileiras
Quando criança, Henrique (nome fictício), era afetuoso e brincalhão. Aos seis meses, sentava-se e engatinhava; aos 10, começou a andar e aos 13 meses já podia contar. Um dia, aos 18 meses, sua mãe o encontrou sentado na cozinha brincando com as panelas de forma estereotipada (repetindo sempre os mesmos movimentos) e de tal forma concentrado, que não respondeu às solicitações da mãe. Desse dia em diante, a mãe se recorda que foi como se ele tivesse se transformado. Parou de relacionar-se com os outros. Freqüentemente, corre ziguezagueando em volta de casa. Tornou-se fixado por lâmpadas elétricas, corre em volta da casa apagando e acendendo as luzes e se alguém tenta interrompê-lo, ele torna-se agitado, batendo e mordendo quem estiver pela frente.

O exemplo acima mostra características da deficiência chamada Autismo, ainda desconhecida por muitos, mas que se define como um distúrbio do desenvolvimento, que compromete a comunicação, interação social e imaginação. Estima-se que em cada 1.000 pessoas nascidas, uma tenha Autismo. Segundo dados do último recenseamento, existe hoje, cerca de 170.000 portadores de Autismo no Brasil. No Maranhão, segundo o membro da Associação de Amigos do Autista do Maranhão (AMA-MA), Carlos César, o número de portadores da síndrome vem aumentado a cada ano. “Hoje, na AMA, estamos com 160 pais de autistas. Mas sabemos que esse número é muito maior. O problema é que os pais não aceitam que têm um filho nestas condições e não procuram ajuda”, disse o representante da AMA.

Preconceito – Carlos César é pai de uma criança autista, de quatro anos e nove meses de idade, e veio de São Paulo para São Luís, em busca de qualidade de vida para seu filho. Hoje, ele luta contra o preconceito e tenta divulgar, ao máximo, a importância de se procurar ajuda, logo que se percebe um comportamento diferente na criança.

Em São Luís, algumas escolas como João Mohana (Vinhais), Sagrado Coração de Jesus (Cohatrac), Colégio Batista, Colégio Helena Antipoffi, Dom Gabriel e Colégio Pitágoras, trabalham com portadores de autismo. Em termos de clínicas, apenas a Clínica de Terapia Ocupacional Drª Suzanne Passold, localizada na rua dos Papagaios, Q-16, Casa 9, Renascença II, próxima à quadra de tênis da Lagoa da Jansen, possui atendimento aos autistas. “No momento estamos com oito pacientes, que apresentam grande melhora em seu quadro clínico. A procura ainda é pequena porque os pais não querem admitir o autismo dentro de casa e vão deixando o tempo passar. Isso faz com que as crianças, principalmente, acabem se tornando cada vez mais agressivas e com grau de desenvolvimento intelectual lento”, alertou Suzanne Passold, terapeuta ocupacional, psicomotricista e psicopedagoga.

Para tentar mudar esse quadro, a AMA-MA, realizará amanhã, 27, uma Caminhada de Conscientização, na avenida Litorânea. O evento terá início às 15h30 e a concentração será na praça de alimentação da litorânea. A Caminhada mobilizará familiares de crianças e adolescentes autistas, além dos profissionais de saúde.

ENTENDA O AUTISMO

O que é?
É uma alteração cerebral que afeta a capacidade da pessoa se comunicar, estabelecer relacionamentos e responder apropriadamente ao ambiente. Algumas crianças, apesar de autistas, apresentam inteligência e fala intactas; outras apresentam também retardo mental, mutismo ou importantes retardos no desenvolvimento da linguagem. Alguns parecem fechados e distantes; outros, presos a comportamentos restritos e rígidos aos padrões de comportamento.

Características comuns
Não estabelece contado com os olhos, parece surdo.

Pode começar a desenvolver a linguagem, mas repentinamente isso é completamente interrompido sem retorno.

Age como se não tomasse conhecimento do que acontece com os outros.

Ataca e fere outras pessoas, mesmo que não exista motivos para isso.

É inacessível perante as tentativas de comunicação das outras pessoas.

Ao invés de explorar o ambiente e as novidades, restringe-se e fixa-se em poucas coisas.

Apresenta certos gestos imotivados como balançar as mãos ou balançar-se

Cheira ou lambe os brinquedos.

Mostra-se insensível aos ferimentos, podendo inclusive ferir-se intencionalmente.

Manifestações sociais
Toda manifestação de afeto é ignorada, os abraços são simplesmente permitidos, mas não correspondidos. Não há manifestações de desagrado quando os pais saem ou alegria quando voltam para casa. As crianças com autismo levam mais tempo para aprenderem o que os outros sentem ou pensam, como, por exemplo, saber que a outra pessoa está satisfeita porque deu um sorriso ou pela sua expressão ou gesticulação. Além da dificuldade de interação social, comportamentos agressivos são comuns especialmente quando estão em ambientes estranhos ou quando se sentem frustradas.

Razões para esperança
Quando os pais de uma criança autista descobrem, muitas vezes cultivam durante algum tempo ainda a esperança de que ele irá recuperar-se completamente. Algumas famílias negam o problema e mudam de profissional até encontrar alguém que lhes diga um outro diagnóstico. Como seres humanos, a dor sentida pode ser superada, nunca apagada, mas a vida deve manter seu curso. Hoje mais do que antigamente há recursos para tornar as crianças autistas o mais independente possível. A intervenção precoce, a educação especial, o suporte familiar e em alguns casos medicações ajudam cada vez mais no aprimoramento da educação de crianças autistas. A educação especial pode expandir suas capacidades de aprendizado, comunicação e relacionamento com os outros enquanto diminui a freqüência das crises de agitação. Enquanto não há perspectiva de cura podemos desde já melhorar o que temos, o desenvolvimento da qualidade de vida das crianças autistas.

Diagnóstico
Não há testes laboratoriais ou de imagem que possam diagnosticar o autismo. Assim o diagnóstico deve feito clinicamente, pela entrevista e histórico do paciente, sempre sendo diferenciado de surdez, problemas neurológicos e retardo mental. Uma vez feito o diagnóstico, a criança deve ser encaminhada para um profissional especializado em autismo, este se encarregará de confirmar ou negar o diagnóstico.

Tratamento
Não há medicações que tratem o autismo, mas muitas vezes elas são usadas para combater efeitos específicos como agressividade ou os comportamentos repetitivos por exemplo. Para o autismo não há propriamente um tratamento, o que há é um treinamento para o desenvolvimento de uma vida tão independente quanto possível.