‘OPERAÇÃO CASTELO DE AREIA’
Ana Karin Quental se elegeu prefeita de Cruzeiro (SP); Astrogildo, agregado do clã Sarney, é acusado de cometer irregularidades em várias obras no Maranhão e foi investigado na ‘Operação Boi Barrica’ 

Ex-mulher e amiga de Astrogildo Quental, diretor financeiro e de Relações com Investidores da Eletrobrás, a prefeita do município paulista de Cruzeiro, Ana Karin Dias de Almeida Andrade Fraguglia Quental (PR-SP), ocupa o topo do ranking dos políticos que mais receberam recursos da Cavo, braço ambiental da empreiteira Camargo Corrêa, em 2008. Ela recebeu R$ 100 mil – o que, para termos de comparação, significa cinco vezes mais que o ofertado ao prefeito Luiz Marinho (PT-SP), de São Bernardo do Campo (SP).

A informação foi divulgada ontem, na coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo. Astrogildo, agregado do clã Sarney, já foi denunciado por irregularidades em várias obras públicas no Maranhão. No ano passado, foi apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal como um dos "cabeças" de uma organização criminosa (ORCRIM) chefiada pelo superintendente do Sistema Mirante, Fernando Sarney.

Astrogildo e Ana Karin: bom relacionamento com empreiteiras

Segundo a PF e o MPF – que no dia 25 do mês passado deflagrou a "Operação Castelo de Areia", prendendo 10 pessoas -, a empreiteira Camargo Corrêa é suspeita de remessa ilegal de dólares para o exterior, superfaturamento em obra pública, doação ilegal para partidos e lavagem de dinheiro. A empresa nega as acusações. Transcrições de escutas telefônicas feitas com autorização da Justiça apontam que a empreiteira fez doações ilegais ("por fora") a vários partidos políticos.

Ana Karin Quental afirmou à coluna da Folha que Astrogildo Quental em nada a ajudou. "Ele sempre foi contra a minha candidatura", disse. Segundo Ana Karin, a parceria Camargo Corrêa/Cavo foi responsável pelas obras da Nova Dutra, rodovia que passa por Cruzeiro. Por isso, ela enviou à empresa seu plano de governo, recebendo os R$ 100 mil.

Currículo do "Astro" – Amigo de longas datas da família Sarney, Astrogildo Quental – ou "Astro", como, segundo a Polícia Federal, ele é tratado por integrantes da ORCRIM chefiada por Fernando Sarney – é dono de um extenso prontuário nos órgãos de controle e fiscalização das obras públicas, tanto no Maranhão como em outras partes do país.

Seu début nas falcatruas sob a batuta do clã aconteceu no projeto de despoluição e recuperação ambiental e sanitária da Lagoa da Jansen, em São Luís. Como secretário de Infra-Estrutura – primeiramente no governo Edison Lobão (1991-1994) e depois no de Roseana Sarney (1995-2002) -, Astrogildo Quental, em vez de fazer da lagoa um dos mais belos cartões-postais de São Luís, foi acusado de usar as obras como um imenso escoadouro de dinheiro público. Mais de R$ 120 milhões do erário fluíram pelo ralo do projeto e a Jansen segue poluída até hoje.

A Corregedoria Geral do Estado e o Ministério Público Estadual denunciaram, na Justiça Federal, Astrogildo e o secretário que o sucedeu, Ricardo Perez (também amigo da família Sarney), além da Caema (Companhia de Águas e Esgotos do Maranhão), da Proplan Engenharia (de Flávio Barbosa Lima e Gianfranco Perasso, amigos de Fernando Sarney desde 1978, também investigados na "Operação Boi Barrica") e da Coesa Engenharia Ltda. (de César Mata Pires, Carlos Juarez, Nicolau Martins e Carlos Politano Laranjeira). Esta última levou a maior parte do "butim" amealhado no projeto de obras e serviços na Lagoa da Jansen.

Salangô – Como todas as representações judiciais contra o clã Sarney, o processo não andou, dando chance para que Astrogildo perpetrasse um novo assalto aos cofres públicos, nos mesmos moldes do executado na lagoa. No início dos anos 2000, ele e a mesma Coesa Engenharia do "caso Lagoa da Jansen" foram denunciados pela Procuradoria Geral do Estado na Justiça Federal, por fraudes no projeto Salangô. Idealizado pelo governo Edison Lobão (1991-1994), como um projeto de irrigação de arroz e hortifruticultura, para beneficiar 845 famílias do município de São Mateus, o projeto foi divulgado, posteriormente, como uma das grandes obras do governo Roseana Sarney (1995-2002). Mas acabou sendo alvo de inúmeras apreciações do Tribunal de Contas da União (TCU), que nele constatou uma série de irregularidades, entre elas o superfaturamento da obra de irrigação em R$ 14 milhões, decorrentes da utilização de índices de reajustamento não previstos no contrato inicial.

Assim como no "esquema da lagoa", a Justiça também fez vista grossa às irregularidades no Salangô. Impune, a "turma dos esquemas" do governo Roseana Sarney – Astrogildo Quental, Silas Rondeau, Ulisses Assad, Flávio Lima, Gianfranco Perasso, Romildo Frota (da EIT), capitaneados por Fernando Sarney, segundo a Polícia Federal e o Ministério Público – se transferiu para Brasília, estendendo seus tentáculos a obras de peso, como a ferrovia Norte-Sul.

Os crimes contra o sistema financeiro, as fraudes em licitações, a lavagem de dinheiro, o tráfico de influência, entre outros ilícitos descobertos pelos órgãos investigativos em 2008, certamente prosseguem.