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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Síndico em vez de estadista

Sarney quer virar a página das denúncias sobre irregularidades internas

Um mês e meio depois de sua eleição para a Presidência do Senado, José Sarney (PMDB-AP) anda desencantado com o cargo. Passa o tempo às voltas com denúncias de irregularidades no pagamento de horas extras, na ocupação de imóveis funcionais e outros temas administrativos. Coisas que, para ele, são assuntos menores. As iniciativas que ele preza, como a comissão especial para discutir a crise econômica, ganharam pouco destaque na mídia. “O Sarney reclama que foi eleito para um papel de estadista e tem uma vida de síndico”, conta um de seus mais próximos aliados.

Sarney teve de se acostumar até a um ritual que detesta. Ser parado para entrevistas nos corredores da Casa. Ao assumir, o parlamentar, que consagrou a expressão “liturgia do cargo” quando ocupou a Presidência da República, disse que daria menos entrevistas do que seu antecessor, o verborrágico Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN). Sarney prefere falar em condições mais organizadas, de preferência sentado em seu gabinete. Mas foi em pé, cercado por microfones, que fez um desabafo público: “O Senado está sendo boi de piranha”. Foi uma referência à avalanche de denúncias dos últimos dias.
 
Para o experiente senador, não foi nada fácil demitir o amigo Agaciel Maia da Diretoria-Geral. Os dois têm uma relação de décadas. Foi Sarney quem o levou ao comando da administração do Senado. Alvo de acusações nos últimos meses, Agaciel chegou a ser tema da campanha para a Presidência do Senado. O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), disse que não votaria em Sarney por saber que ele não mexeria no então diretor-geral. Agaciel acabou caindo depois da acusação de que escondera a posse de uma casa avaliada em R$ 5 milhões.
 
Petistas
A princípio, Sarney queria mantê-lo. Pediu uma investigação do Tribunal de Contas da União (TCU) e anunciou que Agaciel aguardaria no cargo pelo resultado. Desistiu após assistir à edição do Jornal Nacional, da TV Globo. O destaque dado ao caso o convenceu de que era melhor abafar a crise. Mas Agaciel saiu e as denúncias continuaram. Na semana passada, começou com a revelação de que o Senado pagou R$ 6 milhões em horas extras a funcionários em janeiro, em pleno recesso. É prática antiga e generalizada. O gabinete do próprio Sarney autorizou o pagamento suplementar. Pressionado, o senador condenou a prática e mandou seus assessores devolverem o dinheiro.
 
Logo depois, o Correio revelou que um dos diretores do Senado, João Zoghbi, emprestava para os filhos um apartamento funcional enquanto morava numa mansão no Lago Sul. No dia seguinte, ele desocupou o apartamento. Na sexta-feira, entregou o cargo. “O Sarney está enfrentando bem as crises”, diz um aliado. “O problema é que ele não se elegeu para resolver crises.” Reservadamente, Sarney se queixa de perseguição da imprensa contra ele, sua família e o Senado. Os suspeitos de municiar os ataques estão no PT. Os aliados do peemedebista acusam o senador Tião Viana (AC) de estar por trás dos vazamentos de informações. Ex-vice-presidente do Senado, Viana concorreu à Presidência, mas foi derrotado por Sarney. (Gustavo Krieger, do Correio Braziliense)
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