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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Mesmo com ações repressivas, usuários continuam consumindo drogas na ‘Cracolândia’ do João Paulo

A equipe de reportagem do Jornal Pequeno percorreu o local e verificou pessoas com cachimbos em plena luz do dia. Segundo a polícia, houve uma diminuição de dependentes químicos naquele trecho.

Foto: G.Ferreira

Apesar de uma operação recente ocorrida na área que ficou conhecida como a “Cracolândia Maranhense”, usuários continuam consumindo drogas na Avenida Projetada no bairro do João Paulo, em São Luís, ao lado da feira. A equipe de reportagem do Jornal Pequeno percorreu o local e verificou pessoas com cachimbos em plena luz do dia. Segundo a polícia, houve uma diminuição de dependentes químicos naquele trecho.

De longe, é possível observar um grupo de homens e mulheres concentrado por trás de alguns caixotes amontados na calçada da avenida. Já perto, nota-se que aquelas pessoas estão, na verdade, compartilhando, escondidas, cachimbos para o consumo de crack. Do outro lado, um rapaz de 26 anos, que se identificou como José Augusto Lima Pacheco, observava curioso a reportagem apurando a situação da “Cracolândia” após uma operação policial que aconteceu há cerca de 45 dias no local.

Ele descarregava caixotes de banana de um caminhão para um comércio localizado às margens da Avenida Projetada. Sorridente, José Augusto disse, enquanto trabalhava, que é usuário de crack, assim como sua esposa, sendo que ambos, quando não há “bicos” na Feira do João Paulo, também ficam na “Cracolândia” com os demais.

O homem contou que é dependente químico desde criança, iniciando o consumo aos sete anos na Maioba, município de Paço do Lumiar, onde nasceu. Aos 12 anos, se mudou e parou no João Paulo. “Rafael”, como é conhecido na região, frisou que acompanhou o surgimento da “Cracolândia”, que, segundo relembrou, se localizava por trás da Unidade Escolar Estado de São Paulo (Uesp), na Avenida São Marçal. Naquele período, os usuários, em pouco número, também se reuniam no trecho e consumiam drogas ao ar livre. De forma espontânea, disse José, o grupo, há sete anos, se deslocou para a Projetada, mas com o intuito de ganhar uma renda ajudando os feirantes e comerciantes. O dinheiro obtido, porém, era utilizado em boa parte para comprar entorpecentes.

Por R$ 2, salientou o rapaz, é possível adquirir uma trouxinha de crack em “bocas de fumo” do Barreto ou do Coroado. Na feira, descarregando caixotes de mercadorias, “Rafael” recebe entre R$ 5 a R$ 10 por “carrada”. Ele falou que nunca foi retirado para tratamento no João Paulo, mas isto já aconteceu na cidade de Timon há dois anos, permanecendo em uma clínica de reabilitação por pouco mais de 12 meses. Perto do local onde José estava trabalhando, uma comerciante, conhecida como “Dona Raimunda”, expressou que os usuários não “mexem com ninguém”. De acordo com ela, os
dependentes químicos até vigiam caminhões que chegam para a retirada de mercadorias em troca de um dinheiro. Feirantes ouvidos pelo JP também confirmaram que os usuários de drogas não cometem assaltos na localidade.

“TRIBUNAL DO CRIME”

Sobre a ausência de assaltos na região, “Rafael” explicou que isso vem acontecendo porque uma ordem emitida pela facção Bonde dos 40 foi divulgada na área da “Cracolândia” e nas imediações para que os roubos fossem imediatamente extintos lá sob pena de punições brandas ou severas, que incluem desde disparos de arma de fogo na palma da mão e na perna à execução com tiro na cabeça.

Com medo, disse José, aqueles usuários que ainda praticavam roubos e furtos na feira abandonaram a prática criminosa.

AÇÕES DA POLÍCIA CIVIL

Ouvido pela reportagem, o delegado Joviano Furtado, titular do 1º Distrito Policial(DP), enfatizou que houve uma diminuição na quantidade de usuários na “Cracolândia” do João Paulo, sobretudo em decorrência das operações pontuais realizadas por sua equipe de captura com o apoio de outros órgãos, como o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD) e a Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social (Semcas).

Furtado, que acompanha aquela situação desde a primeira operação no local, há seis anos, citou que há quase dois meses houve uma intervenção dessas equipes na Projetada, com a retirada de aproximadamente 36 usuários para serem submetidos a tratamento adequado com profissionais, como assistentes sociais e psicólogos, que buscam a reinserção social dessas pessoas e livres da dependência. Os consumidores de crack podem ser levados para o Caps-AD, no Monte Castelo, ou para a Unidade de Tratamento Transitório, na Cohab-Anil, e Fazenda Esperança, na cidade de Coroatá.

Dentro desses tratamentos, os dependentes químicos também recebem cursos de capacitação, como de bijuteria, preparação de pão e pizza, e o de artesanato, como Furtado comentou. Dessa forma, é oferecida ao internado uma opção de trabalho quando ele sair da unidade terapêutica, para que não seja devolvido ao convívio social como um marginalizado e sobreviva de maneira digna, desenvolvendo habilidades que irão motivá-lo cada vez mais na construção de uma vida sem a necessidade das drogas.

O delegado Joviano anunciou que outra operação já está sendo preparada para acontecer na área da “Cracolândia” do João Paulo, e que a ação deve acontecer no fim deste mês ou no início de novembro.