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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Vida longa ao brócolis

Especialistas do mundo todo o reverenciam como um superalimento, sobretudo por sua ação anticâncer. E defendem que o vegetal deve ser incorporado na rotina

Pela primeira vez desde a edição de estreia, em 2007, a Broccoli Consumption Conference deixou a Europa. O maior encontro internacional dedicado à hortaliça foi sediado neste ano em Atibaia, no interior de São Paulo. A missão dos organizadores foi reunir profissionais das áreas de pesquisa, cultivo, nutrição e gastronomia a fim de debater e propagar os benefícios e o potencial de mercado do brócolis.

O Brasil, aliás, não foi escolhido por acaso: é o maior produtor do alimento na América Latina. “Mas o consumo entre os brasileiros está aquém do ideal”, avalia Marcello Takagui, presidente da Sakata Seed Sudamerica, multinacional de sementes de origem japonesa que promoveu o evento.

Uma pena, já que falamos de um vegetal peso-pesado em matéria de nutrientes. “Para melhorar esse cenário, é preciso investir em uma estratégia semelhante à adotada na Espanha”, conta o engenheiro agrônomo Raphael de Castro e Melo, pesquisador da Embrapa Hortaliças, em Brasília.

De fato, os espanhóis viraram um case de sucesso no apetite por brócolis. Só no ano passado consumiram 66 mil toneladas, um aumento de 20% em relação a 2015. “Isso é resultado de ações em supermercados e eventos esportivos, publicidade e parcerias com meios de comunicação e influenciadores digitais”, comemora Javier Bernabéu, secretário-geral da Associação para a Promoção do Consumo de Brócolis, em Valência, na Espanha.

Mas a campanha para que a hortaliça caia mais no gosto da nossa população não tem só justificativas comerciais. Falamos, como indicam estudiosos, de um superalimento. A pedido da Sakata, o biomédico Henrique Silveira, do Hospital do Câncer de Barretos, no interior paulista, apresentou uma revisão de cerca de 50 trabalhos científicos com o vegetal – todos analisavam, em experimentos com células e cobaias em laboratório, o poder do brócolis frente a diversos tipos de câncer, entre eles os de mama e pulmão.

“São robustas as evidências de que a ação antioxidante do sulfarofano e de outras substâncias encontradas no alimento inibe mecanismos envolvidos no surgimento de tumores”, relata Silveira. Embora ainda estejam em curso estudos com humanos, há pistas de que de três a cinco porções semanais de brócolis ajudam a reduzir o risco de células cancerosas aparecerem e se multiplicarem.

Os antioxidantes do brócolis, é bom que se diga, também labutam em outras frentes. “Temos visto resultados promissores no combate ao acúmulo de gordura no fígado, quadro que gera inflamação e está associado a cirrose, câncer e diabetes“, declara outra palestrante do evento, a bioquímica Elizabeth Jeffery, professora da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.

Em outras experiências, realizadas com roedores, ela e sua equipe notaram que o controle da inflamação reforça, ainda, a prevenção de doenças cardíacas, artrite e até demência. Esse efeito se torna mais nobre se lembrarmos que o excesso de peso propicia um perigoso estado inflamatório. “Tendo em vista que as taxas de obesidade continuam crescendo, o brócolis ganhará cada vez mais importância à mesa”, acredita a cientista americana.

Uma das substâncias mais especiais do brócolis atende pelo estranho nome de sulforafano. Ele responde por parte do potencial anticâncer e por outras façanhas recém-demonstradas em pesquisa.

Na Universidade de Lund, na Suécia, 97 voluntários obesos tomaram diariamente, durante três meses, um suco à base de sulforafano. Resultado? O nível de açúcar no sangue em jejum caía significativamente, algo digno de nota na proteção contra o diabetes. No entanto, para chegar à dose da bebida com comida de verdade, teríamos que ingerir o equivalente a 4 quilos de brócolis! “Mas já estamos trabalhando para que esse produto se torne acessível, principalmente para quem está acima do peso ou já tem pré-diabetes”, adianta o médico sueco Anders Rosengren.

A riqueza do brócolis rende outras promessas, como suplementos nutricionais – novamente, a ideia é concentrar alguns compostos da hortaliça. Na Universidade Emory, nos Estados Unidos, cientistas observaram que o vegetal gera indoles, moléculas normalmente fabricadas por bactérias no intestino e que estão relacionadas a ganhos na imunidade, na disposição e no trânsito intestinal.

“É um mecanismo que ainda precisa ser totalmente compreendido e, acima de tudo, não deve ser visto como carta branca para excessos sob risco de causar um efeito tóxico”, pondera o patologista Daniel Kalman, que assina o achado.

Em se tratando de ponderação, cabe esclarecer uma história que vira e mexe aparece por aí: a de que as crucíferas, a família do brócolis e que ainda inclui couve-flor, espinafre e companhia, podem interferir negativamente com a captação de iodo pela tireoide, destrambelhando a produção dos hormônios que ditam o ritmo do corpo. Faltam evidências a favor da acusação.

“Dentro de uma alimentação saudável e diversificada, a saúde só tem a ganhar com a ingestão regular de brócolis e outros vegetais”, tranquiliza Leonardo Murad, presidente do Conselho Regional de Nutricionistas 4ª Região/RJ-ES.

  • O mercado brasileiro de brócolis movimenta R$ 1,2 bi, com uma produção estimada de 290 toneladas por ano
  • A América do Sul é responsável por 10% da produção mundial, sendo o Brasil a maior potência entre esses países
  • De 2011 a 2015, o consumo individual anual de brócolis por aqui cresceu 240 g. Na Espanha, o aumento foi de 1,3 kg
  • Cada brasileiro consome 1,04 kg de brócolis por ano. A título de comparação, os italianos comem, em média, 7,24 kg