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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Ex-presidente do Banco Central diz que o aumento de impostos será inevitável sem a reforma da Previdência

O economista diz que sem a reforma, não se consegue cumprir o limite de crescimento dos gastos públicos, que está na emenda constitucional, nem colocar a dívida pública em uma trajetória sustentável no médio e longo prazo, deixando o risco fiscal em aberto.

Foto: Reprodução

A decepção com a reforma da Previdência é inegável: “foi frustrante não ter sido aprovada ano passado”. Mas, ainda assim, o balanço de 2017 é positivo: na política monetária, “um sucesso absoluto”. Redução da inflação, ancoragem das expectativas para os próximos dois anos, queda de juros, que vai, de fato, ser traduzida em crescimento econômico. Do lado fiscal, “ainda temos uma gestão difícil, mas, pelo menos recobrou-se a transparência”, diz Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central em duas oportunidades (de 1992 a 1993 e de 1995 a 1997) e sócio-diretor da Tendências Consultoria. Com a taxa Selic na casa dos 7% ao ano, ele acredita que o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) deve se materializar no ano que vem, entre 2,3% e 3%, mesmo prevendo forte volatilidade com a votação da Previdência em fevereiro e a eleição presidencial, que vai começar a ganhar forma a partir de maio e junho.

“Há uma tendência bastante positiva para o crescimento ano que vem, que pode ser amplificado ou moderado, a depender do que vai acontecer na esfera eleitoral”. Mas, ainda assim, ele diz que não está otimista. “Diria que estou realista. Já estive mais otimista. Achei que poderíamos aprovar a reforma da Previdência ano passado. Agora, estou um pouco mais pessimista. Acho que estamos acumulando problemas para 2019, mas vamos ver como a coisa anda na questão das reformas nos próximos meses”, disse o economista

Sem a reforma, não se consegue cumprir o limite de crescimento dos gastos públicos, que está na emenda constitucional, nem colocar a dívida pública em uma trajetória sustentável no médio e longo prazo, deixando o risco fiscal em aberto. “Nesse cenário, as incertezas sobre 2019 se acumulariam, seriam exponenciadas porque você não teria somente a incerteza em relação à eleição, mas também em relação às medidas duras que o novo governo poderia adotar logo de pronto para resolver o problema fiscal”. Nesse quadro, um aumento de impostos pode ser inevitável. “Então, a aprovação da Previdência traria um pouco mais de tranquilidade”.

Para o ex-presidente do Banco Central, o ano que vem continua sendo de muita cautela. “Tem muita coisa em jogo”, apontando ainda que a eleição de 2018 será uma das mais importantes que o Brasil já teve no período pós-ditadura. “Tem um risco populista que não se via há muito tempo, o que é muito ruim”. “A questão nem é tanto a extrema esquerda ou direita, mas um governo populista. Os populistas acabam se encontrando. Um populista como o Bolsonaro está muito mais próximo de Lula do que ambos pensam. Estão muito próximos de pensamento econômico”.

Confira abaixo os trechos da entrevista:

O balanço de 2017

Tivemos uma política econômica bastante acertada, responsável, e uma boa condução tanto na área monetária quanto fiscal. Na política monetária, um sucesso absoluto. Redução da inflação, ancoragem das expectativas para 2018 e 2019, queda dos juros e estímulo monetário que vai, de fato, produzir efeitos de crescimento, que serão amplificados em 2018. Tivemos uma boa gestão macroeconômicas e algumas mudanças microeconômicas tbm bastante relevantes, que trouxeram uma melhora do ambiente de negócios e também a recuperação das empresas estatais, notadamente da Petrobras. Acho que é algo relevante, principalmente quando se trata da maior empresa do País.

Na área fiscal, evidentemente, dadas as dificuldades de ajuste em função da rigidez das despesas públicas e da queda da arrecadação, que foi produzida pela crise e desonerações, ainda temos uma gestão difícil, mas, pelo menos, recobrou-se a transparência. Deixou de piorar, mas é claro que os problemas não estão resolvidos.

Acho que o balanço do ano é bom, tanto que os indicadores apresentam crescimento. Um avanço talvez ainda aquém do que se é desejado, mas acho que ainda é bem possível que fechemos 2017 com o PIB crescendo em torno de 1%.

A economia deve crescer este ano, mas…

Para este ano, temos alguns aspectos positivos e outros de dúvidas e incertezas.

Do lado das dúvidas e incertezas: a questão política é a principal, porque com as eleições os agentes econômicos começam a antecipar quais poderiam ser as consequências de um candidato assim e assado. Evidentemente, se houver a materialização do risco de um candidato político se eleger, isso vai ter um impacto imediato sobre as expectativas e,  provavelmente, vai afetar a disposição de investimentos das empresas. Certamente vai provocar volatilidade no câmbio e juros. As incertezas eleitorais podem se materializar do lado negativo e podem, de fato, prejudicar muito o desempenho da economia em 2018.

Uma outra incerteza que está um pouco relacionada com a anterior, também na esfera política, diz respeito ao andamento da reforma da Previdência. Foi frustrante não ter sido aprovada ano passado. O governo está tentando fazê-la passar em fevereiro, mas a janela política é muito estreita este ano em função da eleição. Eu acho que essa vai ser a primeira grande prova da economia no ano que vem. Tem também a questão do julgamento do Lula em janeiro, que afeta o cenário eleitoral, mas, na esfera econômica, acho que a grande questão é a Previdência, porque o fracasso dela atrapalha ainda mais o cenário e isso, ligado à questão da volatilidade eleitoral, pode piorar bastante.

Está muito claro que, sem a reforma, não se consegue cumprir o limite do crescimento dos gastos, que está na emenda constitucional e nem se consegue colocar a dívida pública em uma trajetória sustentável no médio e longo prazo. Então, o risco fiscal vai ficar em aberto e alguma coisa teria que acontecer em 2019. As incertezas sobre 2019 se acumulariam, seriam exponenciadas porque você não teria somente a incerteza em relação à eleição em si, mas também incertezas em relação às medidas duras que o novo governo deveria adotar logo de pronto para resolver o problema fiscal. Então, a aprovação da Previdência traria um pouco mais de tranquilidade nesse cenário. A não aprovação adiciona volatilidade.

Dito isto, a política monetária estimulante que temos hoje, com os juros a 7% e com chances até de uma queda adicional, e uma inflação sob controle, já abre espaço para que o crescimento do PIB se materialize ano que vem e, por isso, que esperamos um avanço do PIB entre 2,5% e 3%. Há uma tendência bastante positiva para o crescimento ano que vem, que pode ser amplificado ou moderado, a depender do que vai acontecer na esfera eleitoral. Se o resultado eleitoral for negativo, da instalação em Brasília de um governo populista, evidentemente que os resultados começarão a vir mais fortemente a partir de 2019, então o processo de recuperação econômica seria provavelmente abortado, mas isso em um cenário mais pessimista.

No fundo, o resumo é o seguinte: 2017 foi bom. Iniciamos o ano com perspectiva de crescimento positiva, em recuperação, inclusive porque tem capacidade ociosa na economia, mas há muitas incertezas para 2018 decorrentes do processo eleitoral e também dessa agenda de votações, notadamente a reforma da Previdência.

Principal preocupação com a eleição

A questão nem é tanto um governo de extrema esquerda ou direita, mas um governo populista. Os populistas acabam se encontrando. Um populista tipo Bolsonaro está muito mais próximo de Lula do que ambos pensam. Estão muito próximos de pensamento econômico.

Selic deve permanecer baixa por um tempo

Acho que esse risco é baixo, porque tem muita capacidade ociosa na economia. Um risco desse para se materializar ano que vem viria, por exemplo, de um aumento do risco-País, depreciação do real, que poderia vir por outras razões, como política monetária americana, e isso de alguma forma impacta a inflação e, dessa forma, os juros subiriam. Embora isso possa acontecer, acho que as chances são relativamente baixas, porque a existência dessa capacidade ociosa faz com que a passagem da desvalorização cambial para os preços seja mais moderada do que em outras circunstâncias. Então, o efeito inflacionário vindo de uma depreciação cambial, de aumento do risco, seria menor do que se observou em episódios anteriores. Ademais, o tamanho da depreciação cambial, no caso de um aumento do risco, tende a não ser tão exagerada assim porque nós temos uma situação de balança de pagamentos extremamente confortável, seja do ponto de vista de reservas internacionais, seja do ponto de vista da própria trajetória do déficit em conta corrente. O País não tem um risco de crise cambial. Na ausência de um risco de crise cambial, os movimentos de taxas de câmbio são, de certa forma, mitigados. Então, para acontecer algo do gênero, uma recaída inflacionária, é preciso que tenha impactos muito fortes. Teria que se pensar em um cenário muito mais negativo do ponto de vista das expectativas, do ponto de vista externo, que pudesse levar a um movimento mais extremo do real e a um comportamento dos agentes econômicos bem mais conservador, avesso ao risco. É um cenário que é possível mas não é provável. Tem uma chance pequena.

2018: um ano de muito cautela

Agora, como se diz, ano que vem continua sendo de muita cautela. Acho que tem muita coisa em jogo. É uma das eleições mais importantes que o Brasil teve no período pós-ditadura, porque tem um risco populista que não se via há muito tempo, o que é muito ruim.

Para citar um, o [Henrique] Meirelles evidentemente que não tem viés populista, o [Geraldo] Alckmin também não, mas, até agora, as pesquisas não indicaram que estejam fortes na eleição. Claro que ainda está muito cedo para falar isso, mas isso que vai ser monitorado pelo mercado, se vai aparecer esse candidato para guiar essa plataforma responsável do ponto de vista de política econômica. Responsável e reformista.

Lula x Bolsonaro

Lula já demonstrou muito pragmatismo no passado. Provavelmente, se ele tiver próximo à eleição, ele vai tentar, eu acho, fazer um discurso menos radical, a medida que perceba que tem chances de ganhar, mas a verdade é que os governos petistas deixaram uma herança muito pesada, principalmente o governo da presidente Dilma [Rousseff], que trouxe a recessão ao País e uma recessão que não foi trivial, não foi uma recessãozinha, foi a mais grave desde os anos 80.

Sobre Bolsonaro, as pessoas sempre podem mudar de ideia, mas se você olha a trajetória dele, o discurso claramente não é liberal, nem do ponto de vista política nem do ponto de vista econômico. Mesmo que ele adote uma plataforma mais liberal, tem que ver se ele é um político que tem capacidade de articulação no Congresso para poder minimamente aprovar o que é necessário. Querer fazer as coisas de uma maneira autoritária, acho que não funciona.

Possível rebaixamento de rating

Se não sair a reforma, esse é o cenário provável. Não vejo como não ser rebaixado. Se elas não rebaixarem, o mercado vai. O discurso vai piorar. Elas estão segurando um pouco porque melhorou a perspectiva de crescimento do País. No curto prazo, o déficit não está aumentando e elas têm expectativa de reversão. Mas, se essas expectativas começarem a ficar menos prováveis, é natural que isso impacte a avaliação que elas têm sobre o País.

Sem reforma, não há um plano B para o Brasil

Não. O plano B é fazê-la em 2019. O governo vai ter que fazer a gestão no curto prazo. Não tem almoço grátis. Ou você vai acumular mais dívidas, que já estão chegando em um ponto perigoso, ou vai ter que aumentar impostos. É uma questão aritmética. Não é uma questão econômica.

Muito pouco provável que venha em 2018, mas poderia vir em 2019. Ano que vem provavelmente o que você terá é uma zeragem quase total no investimento público, com uma dificuldade muito grande do governo atender seus compromissos. O risco de uma deterioração na qualidade dos serviços públicos, que já são ruins.

Sem razões para seguir otimista

Não estou otimista não. Diria que estou realista. Já estive mais otimista. Achei que poderíamos aprovar a Previdência ano passado. Agora, estou um pouco mais pessimista. Acho que estamos acumulando problemas para 2019, mas vamos ver como a coisa anda na questão das reformas no ano que vem.

Começo de ano volátil

Devemos ter um começo do ano bastante volátil, mas que pode aumentar ou reduzir a depender do processo, a depender do que vai acontecer com esses dois eventos – Previdência e julgamento do Lula.

Em relação à eleição em si, as coisas devem começar a pegar mais para maio e junho, quando você terá o tabuleiro armado, as candidaturas expostas. Até lá, você ainda não armou o jogo, ainda tem muitos pré-candidatos. Candidatos mesmo você tera uma ideia definitiva mais em junho.

Risco externo

O grande risco externo são os Estados Unidos. A economia já mostra uma queda muito forte no desemprego, a inflação está sob controle, o Federal Reserve vai ser obrigado a continuar subindo juros e a inflação pode voltar. Inclusive, esse aspecto se torna mais provável ainda em função da reforma tributária, que foi aprovada pelo Congresso americano e sancionada até por [Donald] Trump, que tem um viés estimulante na economia. Adiciona estímulo fiscal na economia e isso significa que o Fed tem que ser mais restritivo na política fiscal. Há uma mudança no mix da política econômica dos EUA. O resultado disso, evidentemente, são os juros mais altos por lá e dólar apreciado e, portanto, é um cenário menos favorável para os emergentes.

As moedas emergentes devem ser pressionadas em 2018 e o real, além disso, pode estar pressionado pela questão doméstica. O que segura um pouco a amplitude dessa volatilidade, como disse, é que o País tem uma boa posição de balança de pagamentos, o fato de o governo ser credor em moeda estrangeira, isso amortece um pouco esses impactos, mas eles serão sentidos, sem dúvida.

Fora isso, há o risco de desaceleração na China, mas é um cenário menos provável, a situação por lá está bem encaminhada, assim como um possível problema geopolítico. A grande questão fica por conta da política monetária americana.

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