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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

O misterioso avanço das alergias a alimentos

A medicina busca soluções e tenta averiguar o que se esconde por trás delas

Foto: Reprodução

Existe uma misteriosa rebelião dos alimentos contra os humanos? Parece mais uma infundada teoria da conspiração. Será? Mas é fato que as alergias aos alimentos triplicarem nas duas últimas décadas. Milhões de pessoas passaram a temer uma reação grave aos alimentos. A medicina busca soluções e tenta averiguar o que se esconde por trás delas.

A anafilaxia é uma espécie de explosão alérgica que afeta nossos organismo e que é produzida de forma brusca. Pode ser fatal. Uma reação alimentária pode ser leve, causar coceira na boca ou garganta, e provocar sintomas cutâneos (vermelhidão, coceira e inchaço), respiratórios (sentir afogamento) ou até mesmo digestivo (náuseas e vômitos). Mas uma anafilaxia é uma reação grave – com dois ou mais desses sintomas – e ainda pode produzir ânsia, queda de pressão e afetar o coração.

O número de pessoas com alergias alimentárias disparou desde o começo do século XX, quando dois cientistas franceses – Charles Richet e Paul Portier – diagnosticaram o primeiro caso mortal de anafilaxia. Em 1913, ganharam o Nobel por esse trabalho. Elas eram raras. Mas não só as alergias alimentárias cresceram desmesuradamente, as alergias a medicamentos e ambientais seguem o mesmo rumo.

As reações graves afetam mais a crianças e adolescentes. Quando se trata de bebês ou crianças pequenas, as mais frequentes são as alergias ao leite, ovo, peixe e frutos secos. Quando são maiores ou adultos, começam as alergias a frutas e vegetais. As frutas produzem 44% das alergias na população. Seguidas de frutos secos, mariscos e peixes

Alérgico nunca esquece da adrenalina e anti-histamínicos

Os medicamentos que os alérgicos sempre levam à mão são anti-histamínicos , inaladores que abrem as vias respiratórias, corticoides e um auto-injetor de adrenalina (este último é imprescindível em caso de anafilaxia). Há mais de uma década que o tratamento de imunoterapia oral tem permitido a muitos alérgicos vencer seus limites, com uma taxa de êxito superior a 80%.

Esses tratamentos começam a ser aplicados quando a criança tem entre dois ou três anos. Não se deve ser adotado antes pois a maioria das alergias a leite e ovos desaparecem naturalmente aos dois ou três anos. Mas não todas. A Europa já começa a tratar de suas crianças alérgicas neste momento com uma vacina sublingual para tratar alergias a frutos secos. Também começam ensaios com uma vacina aplicada sob a pele, mas com eficácia inferior à sublingual. No caso das alergias a alimentos em adultos é muito difícil que desapareçam ao longo do tempo.

Milênios comendo ovos, leite, frutos… o que está ocorrendo?

É certo que a medicina passou a conhecer melhor e diagnosticar corretamente as alergias. Mas o aumento é demasiadamente chamativo para ser explicado apenas por esse fato. As teorias para explicar esse incremento diferem, mas uma ideia se repete em todas: as mudanças no estilo de vida. É um dos preços que estamos pagando pelo desenvolvimento.

Há muitas peças no quebra-cabeças das disfunções no sistema imunológico. Se fala em herança genética. Mas os genes não explicam sozinhos esse problema. As mudanças no crescimento das alergias ocorreram em pouco tempo e as mudanças nos genes são lentas. A dieta é uma peça fundamental pois comemos mais alimentos industrializados que eram raros ou pouco comuns, prejudicando os micróbios que habitam nosso intestino (microbiota ou flora intestinal).

A contaminação ambiental tampouco ajuda, porque estimula a resposta alérgica em geral e faz com que o sistema imunológico se torne mais sensível. Os cientistas também estão interessados no que acontece durante a gravidez e durante os primeiros dias de vida do bebê. Por exemplo, como afeta o fato de que há mais nascimentos por cesárea, uma vez que a criança não atravessa o canal de parto que é cheio de bactérias protetoras da mãe.

Os amish podem dar a pista

Amish é grupo religioso cristão anabatista baseado nos Estados Unidos e Canadá. São conhecidos por sua aversão ao uso de automóveis e telefones. Vivem em fazendas. As crianças estão expostas a micróbios e bactérias. Um estudo publicado no The New England Journal of Medicine mostrou que as crianças dessa comunidade têm bem menos alergias porque seu sistema imunológico está reforçado pelo contato com os animais. Ao que tudo indica, esse modo de vida pode ter influência positiva na flora intestinal, que se conforma nos 100 primeiros dias de vida. Estudos como esse são a pouca evidência científica sobre a teoria higienista. Ela diz que vivemos em um ambiente tão limpo que o sistema imune fica bobo e reconhece como danoso algo que não é de fato. Mas a verdade é que a rebelião dos alimentos é um mistério. As buscas da causa apenas começaram agora.

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