Fechar
Buscar no Site
O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Laboratório da Polícia Civil ‘quebra’ a coluna financeira das facções

O objetivo principal do setor é ajudar no enfrentamento do crime organizado, que sobrevive, justamente, pelo acúmulo de dinheiro proveniente de atividades ilegais

O delegado Gabriel Neves recebeu a reportagem do JP e falou sobre o LAB-LD. (Foto: Francisco Silva)

Implantado em 2015, o Laboratório de Tecnologia contra a Lavagem de Dinheiro (LAB-LD), da Polícia Civil do Maranhão, é uma ferramenta importante para “quebrar” a coluna financeira das facções criminosas por meio de um trabalho minucioso. O setor, embora poucas pessoas saibam, também auxilia até na elucidação de homicídios, sobretudo quando o crime é encomendado, como apurou a reportagem do Jornal Pequeno em uma entrevista.

A equipe de reportagem do JP foi recebida pelo coordenador do LAB-LD, delegado Gabriel Carvalho e Neves, um grande leitor de obras relacionadas a sua responsabilidade à frente do laboratório. De acordo com ele, o Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro é subordinado ao Centro de Inteligência, que, por sua vez, está vinculado à Delegacia Geral de Polícia Civil do Maranhão. O objetivo principal do setor é ajudar no enfrentamento do crime organizado, que sobrevive, justamente, pelo acúmulo de dinheiro proveniente de atividades ilegais.

Gabriel frisou que esse aparato tecnológico à disposição da Inteligência da Polícia Civil “tem permitido um avanço nas investigações policiais no Maranhão, conferindo maior celeridade e eficiência, especialmente nos crimes de grande complexidade”. Nesse sentido, o LAB-LD atua quando provocado pelas delegacias distritais e departamentos especializados, como as superintendências de Combate e Prevenção à Corrupção (Seccor), Estadual de Investigações Criminais (Seic) e de Repressão ao Narcotráfico (Senarc).

Na função de coordenador do laboratório desde 2017 e na Inteligência da Polícia Civil desde 2015, Neves comentou que o LAB-LD, enquanto unidade de inteligência financeira, é composto por policiais com formações favoráveis ao trabalho, como Matemática, Ciências Contábeis, Direito e Economia. Todo esse conhecimento possibilita resultados positivos no sentido de oferecer o auxílio esperado nas investigações de práticas criminosas diversas, como estelionato, tráfico de drogas, corrupção, roubo a instituições financeiras e até homicídios.

De forma específica, assinalou o delegado, o laboratório atua com o seguinte tripé: RIF do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), dados bancários e dados fiscais. “A análise desses dados financeiros é feita com uso de ferramentas tecnológicas de ponta. Algumas dessas soluções foram desenvolvidas no âmbito do governo federal para utilização em megaoperações que geravam um grande volume de dados a serem analisados”, pontuou Neves.

Ainda segundo o coordenador, parte dessas soluções “foram doadas por meio do acordo de cooperação firmado com a PCMA e estão hoje à disposição do LAB-LD”. De acordo com Gabriel, o laboratório é provocado com muita frequência, principalmente, pela Seccor, Senarc, Seic e unidades policiais do interior maranhense. “É um trabalho demorado e com grande volume de dados”, enfatizou o entrevistado. Essa intensa atividade resulta em quebra de sigilos bancários e fiscais, para produzir provas, e, posteriormente, restituir os cofres públicos, naquilo que é denominado de recuperação de ativos de origem ilícita.

Esse trabalho é crucial porque atinge a coluna financeira do crime organizado, que fica sem os meios que permitem suas atividades ilícitas. Isso porque as facções criminosas “lavam dinheiro” oriundo de práticas como o tráfico de drogas, o estelionato, o contrabando e explosões bancárias. A grana subtraída ilegalmente é investida para passar uma aparência lícita, sob diversas formas, como postos de combustíveis, frotas de vans, supermercados e fazendas.

Mas o LAB-LD, por meio de suas ferramentas tecnológicas, consegue comprovar que uma fazenda, por exemplo, foi comprada com dinheiro do tráfico de drogas ou de ataques a bancos. “O nosso trabalho é ligar a ponta suja com a aparência limpa”, ressaltou o delegado Gabriel. Segundo explicou, a lavagem de dinheiro possui três etapas, sendo a primeira a “colocação” ou “ocultação”, que consiste na tentativa de ludibriar as autoridades, a partir de “laranjas”, uso de documentos falsos, cooptação de agentes públicos e bancários corruptos.

Passada essa fase, elencou o entrevistado, entra a da “dissimulação” ou “estratificação”, na qual ocorrem ações para dificultar o rastreamento, a partir de quebra da cadeia de evidências. Gabriel Neves esclareceu que, nesse aspecto, acontecem movimentações entre contas, saques de contas para posterior depósito em outras contas, envio de recursos para paraísos fiscais e fungibilidade do dinheiro por joias, por exemplo.

Por fim, surge a “reintegração”, etapa onde ocorrem investimentos aparentemente lícitos. “Normalmente setores que operam com dinheiro vivo ou com grande rotatividade, com maior facilidade de burla contábil”, pontuou Neves. O coordenador do LAB-LD comentou, como exemplos, redes hoteleiras, supermercados, postos de combustíveis, restaurantes e mercado de ações. Gabriel finalizou a entrevista destacando que a pena para a lavagem de dinheiro varia de 3 a 10 anos de reclusão e multa, “fora a pena dos crimes antecedentes à lavagem”.

 

Carregando