Fechar
Buscar no Site
O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Direto de Gramado, críticas sobre os filmes Bacurau e O Homem Cordial

Márcio Sallem discorre sobre a abertura do Festival e apresenta críticas dos filmes Bacurau e O Homem Cordial

Palácio dos Festivais (Foto: Edison Vara / Agência Pressphoto)

Por Márcio Sallem

Direto de Gramado/RS

17/08/2019

Sob o calor inesperado na encantadora Rua Coberta, a 47ª Edição do Festival de Gramado iniciou com os discursos protocolares das autoridades públicas e dos patrocinadores, todos maiúsculos e contundentes a respeito dos ataques diuturnos que a organização de festivais e a produção do audiovisual brasileiro vêm sofrendo por parte do Governo Federal e de uma ala da sociedade, fechada a conhecer como funciona, na prática, o mecanismo de fomento do setor e os benefícios econômicos, sociais e culturais que proporciona, com a criação de empregos diretos e indiretos e um acréscimo de cerca de 25 bilhões no PIB nacional.

Logo depois destes discursos estendidos além do razoável, como costuma acontecer nestas ocasiões, a Orquestra Sinfônica de Gramado encheu o coração cinéfilo de emoção com suas interpretações da música tema de Vingadores (composta por Alan Silvester) e do clássico Cantando na Chuva (de Gene Kelly), afora a performance do solista Rafa Gubert de “From Now On” (do musical O Rei do Show) e “The Circle of Life” (da animação O Rei Leão). Em consideração ao horário avançado, as performances programadas do tema de A Lista de Schindler e de Frozen foram cortadas da apresentação, provocando a sensação curiosa de sentir falta daquilo que não experimentei.

À medida que os assentos na Rua Coberta eram recolhidos, assim como os instrumentos da Orquestra Sinfônica, o tapete vermelho começou a estar agitado com a presença das estrelas de Bacurau, filme de abertura, e de O Homem Cordial, que abriria a Mostra Competitiva de Longas-Metragens Nacionais. Os diretores Kleber Mendonça Filho (“O Som ao Redor” e “Aquarius”) e Juliano Dornelles, acompanhados pelos intérpretes deste atípico faroeste no sertão brasileiro, como uma das musas do nosso cinema brasileiro, Sônia Braga, agitaram a plateia que acompanhou a primeira exibição nacional do filme premiado no Festival de Cannes deste ano e forte candidato a ser nosso representante no Oscar do próximo ano.

Contudo, para ser honesto com todos, qualquer apresentação na noite de ontem arrebataria meu coração com maior facilidade. Era a minha primeira vez dentro do Palácio dos Festivais, e não podia conter minha alegria nas redes sociais em estar dentro deste cinema que tanto sonhei em frequentar. A poltrona não é a mais confortável que sentei, confesso, porém o sistema de áudio e som e a educação do público espectador durante a exibição merecem destaques positivos. Antes de comentar sobre as produções da noite, mereceram homenagens os falecidos curadores de Gramado, Eva Piwowarski e o mais célebre crítico brasileiro Rubens Ewald Filho, que deixaram o Festival órfão e comprovaram sua força em superar adversidade para continuar sua história vitoriosa.

Ok, vamos discutir Bacurau.

Antes, um importante alerta. EVITEM críticas, resenhas e opiniões que mergulhem no coração da história, já que grande parte do prazer da narrativa está em acompanhar seus imprevisíveis desdobramentos. Podem ficar sossegados, não irei além de citar que a trama convida o espectador à cidade-título, batizada a partir da ave considerada extinta (uma pista para entender o objetivo dos realizadores). Lá, a típica municipalidade do sertão nordestino, uma crise com a água agita os moradores enlutados após a morte de uma respeitada mulher local e descobrem que a cidade desapareceu dos mapas. Pronto, parei!

O maior mérito do trabalho de Kleber e Juliano está em como implementa suas ambições: do lado de cá, é uma evidente crítica política ao abandono das cidades nordestinas (estradas esburacadas, colégios abandonados, postos de saúde sem remédio) e de como isto prejudica mas não atrapalha seu povo de continuar batalhando por aquilo que é melhor para si. Do lado de lá, é também uma eficientíssima produção de gênero, um faroeste sertanejo similar ao que Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos fizeram em sua época, mas com ênfase no exploitation, uma espécie de produção cinematográfica que busca potencializar o efeito simbólico e gráfico de sua violência a partir da maneira visceral com que isto é realizada.

Para você ter ideia, existe determinado recurso tecnológico na narrativa que poderia parecer pitoresco ou tosco, a depender do ponto de vista, quando na prática serve a inúmeros propósitos: retrata como os nordestinos não são tolos como os mexicanos brancos nacionais imaginam que sejam e também conferem a pegada fantástica e futurista que tanto ajuda nesta alegoria surpreendente. Não crie expectativas e não busque algo que o filme não seja, apenas curta nas sessões de pré-estreia neste sábado, em São Luís (confira a agenda dos cinemas).

A noite estava somente começando, e o curta-metragem A Pedra, de Iuli Gerbase, abriu a Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Nacionais com um trabalho melancólico de como a caçula Petra, durante um passeio enervante de rafting, descobriu uma dura verdade sobre sua família. O destaque do curte é a atuação da jovem Ester Amanda Schafer.

Quem encerrou o primeiro dia de Gramado foi Um Homem Cordial, produção dirigida por Iberê Carvalho (de O Último Cine Drive-In) e estrelada por Paulo Miklos, Dandara de Morais, Thaíde, Bruno Torres e Theo Werneck. A história gira em torno de Aurélio Sá, um roqueiro sexagenário que, durante uma apresentação, é hostilizado pela plateia depois dos refrões de sua canção. O motivo? No dia anterior, o músico havia socorrido do linchamento uma criança de 11 anos, Matheus, acusada de haver furtado um celular.

Não demora para que Aurélio seja abordado por “fãs” que, na verdade, desejam emparedá-lo e se autopromover nas redes sociais a partir da alimentação do ódio. Nós sabemos como isto funciona, acompanhamos diariamente o comportamento dos maus utilizadores de Facebook, Twitter, Instagram, YouTube etc e notamos como isto provoca a polarização do debate político (não partidário) em torno de temas essenciais, o que somente ajuda aqueles que tentam obstar o avanço econômico e social do Brasil.

A atuação de Paulo Miklos é extraordinária, e o trabalho com a câmera na mão proporciona a imersão do espectador de cabeça naquela narrativa: vivemos aquela noite em São Paulo e sentimos a urgência de Aurélio em tentar descobrir o paradeiro de Matheus, que pode muito bem estar morto. Quando o diretor Iberê Carvalho peca é por tentar exagerar nos cacoetes e estereótipos dos personagens… como o policial malvado e maniqueísta que esbafori bufadas de cigarro no rosto. Tirando isto, com breves e intensos 85 minutos, Um Homem Cordial serve como panorama para entender a sociedade contemporânea, o comportamento policial e a importância em abraçar causas por que valem a pena lutar, ainda que o custo seja caro.

Confira a crítica completa dos longas metragens no site Cinema com Crítica e amanhã volto com mais sobre Gramado.

Carregando