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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

A Vida Invisível se destaca no 2º dia da Mostra Internacional de Cinema

Vencedor do prêmio Un Certain Regard em Cannes, A Vida Invisível vai representar o Brasil no Oscar.

O filme A Vida Invisível é baseado no livro escrito por Martha Batalha (Foto: Divulgação)

Neste segundo dia de 43ª Mostra Internacional de Cinema, o Theatro Municipal serviu como palco para a única sessão de “A Vida Invisível”, vencedor do prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes e escolhido para representar o Brasil no Oscar do próximo ano. Não faltaram homenagens e pronunciamentos em favor da cultura nacional nesta exibição histórica, que contou com a presença do elenco e um espaço totalmente lotado.

A narrativa, autodenominada “um melodrama tropical”, é baseada no livro escrito por Martha Batalha e dirigido por Karim Aïnouz (de “Praia do Futuro”, “Madame Satã”, “Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo”), e que conta a história de duas irmãs filhas de um imigrante português, Eurídice e Guida, separadas no Rio de Janeiro da década de 50. Por meio de cartas que não chegam ao destino, acompanhamos a vida destas mulheres, através das dificuldades inerentes à vida e ao gênero, antes de o movimento feminista articular-se para buscar igualar o tratamento entre homens e mulheres. Juntas, Eurídice e Guida eram fortes e determinadas a enfrentar o mundo diante de si, como quando ocorre em sororidade. Separadas, porém, sucumbem sem bastante luta ante as figuras masculinas que, a seu modo, oprimem-nas.

Não apenas um trabalho esteticamente belíssimo, com uma fotografia cujas cores estão cobertas de sombras que remetem, ainda, ao tropical, com abundância de vegetação e remições no design de produção (como as cortinas) e os figurinos, mas também melancólico, poético e brilhantemente interpretado. Nem me refiro à musa maior do cinema brasileiro, Fernanda Montenegro, diante de quem minhas palavras empalidecem por serem incapazes de adjetivá-la como merece, mas à dupla Carol Duarte e Júlia Stockler, atrizes que estão entregues a seus papéis como se fossem as versões de carne e osso que saíram das páginas do livro. Elas embalam esta história comovente que, de fato, é mais forte para representar o cinema brasileiro do que seria “Bacurau”. Se este apresenta o regionalismo e a estética de gênero que podem (ou não) ser obstáculos para os votantes da Academia, o trabalho de Karim Aïnouz é uma história mais universal, em que confio para estar dentre os 5 finalistas da disputa no próximo ano.

Quem não deverá estar é o candidato islandês “Um Dia Muito Claro”. Apesar da atuação central de Ingvar Sigurdsson ser irrepreensível, retratando os estágios por que passa quando enfrenta a obsessão em descobrir qual a identidade do amante da esposa falecida, a direção parece estar perdida dentro do filme, insegura de como abordar o tema narrado. Às vezes, apenas acompanhamos a relação de Ingimundur, o protagonista, com sua neta. Noutros instantes, testemunhamos sua dedicação para concluir a construção de sua casa, ilustrada por um plano repetido, que exibe, de forma visualmente enfadonha, a evolução da obra ao longo dos dias. Então, também temos a investigação propriamente dita em busca do suposto amante.

A ausência de coesão entre as subtramas não se revela um problema imenso assim, pois o filme é um estudo de personagem, e emprega aqueles elementos para gravitar ao redor de quem é Ingimundur e por que não devemos tratá-lo com o mesmo carinho com que faz sua neta. A questão aqui é, de novo, uma indecisão quanto ao tom: se o humor negro, que é o feitio do cinema islandês contemporâneo, se o drama propriamente dito ou se uma trama de vingança, mas de modo inusitado. Para piorar, a narrativa tem um ritmo para lá de maçante, o que já uma razão para afugentar uma parte do público.

Bem mais agradável, a co-produção teuto-holandesa “Meu Verão Extraordinário com Tess” é daquelas narrativas que não encontrarão impedimento para mexer com o espectador. É, na realidade, uma trama bem simples, e narra como as férias de verão do reflexivo e fatalista Sam ganharam a adição da espirituosa e adorável Tess, uma adolescente que elaborou um plano para conhecer seu pai. Os dois vivem desventuras bem típicas do romance juvenil, e oferecem um quê de discussão a partir da percepção que Sam tem da vida, levando-o, inclusive, a praticar o isolamento forçado para aceitar a ideia de que estará sozinho depois da morte de seus pais e irmão mais velho. Com uma companhia como Tess, as chances de isto acontecer beiram o zero.

Mudando da água para o vinho, todo festival que se preze oferece a oportunidade para assistirmos a produções fora da caixa, como é este terror co-produzido pela Suécia e Dinamarca “Koko-di Koko-da”. Na história, um casal, ou melhor, o marido decide que a forma de superar a morte da filha única é acampar na floresta, onde são surpreendidos por um trio de sádicos liderado por um homem misterioso vestido de terno branco e o hábito de cantarolar a canção que dá nome ao filme. Pareceria banal se não fosse a estrutura adotada pela narrativa, o loop, de forma que o casal revive, dia a dia, os mesmos acontecimentos e precisa tomar uma atitude diferente para evitar que a tragédia recaía sobre eles.

Apenas pela premissa, a narrativa já valeria a espiada, mas a maneira original com que desenvolve seu mistério e alegoria com o recurso a trechos animados e símbolos torna a experiência melhor ainda. Sua solução pode soar simplória (talvez porque seja mesmo!), porém o desenvolvimento é de um terror maduro e consciente de sua capacidade de incutir o medo e a reflexão ao mesmo tempo.

Encerrei minha participação neste dia com a produção independente norte-americana “A Maratona de Brittany”, que, apenas nos letreiros finais, descobri ser inspirada em uma história real. Na trama, a personagem interpretada por Jillian Bell, que ganhou peso através da maquiagem, é uma adulta imatura, lidando com questões de auto-estima, saúde e da má escolha de amigas. Até que resolve desafiar-se a correr uma quadra em um dia. Depois, uma milha. Para então, uma maratona. A corrida em si não é o objetivo central da narrativa, tanto que mal vemos Brittany correr, que dirá treinar, mas é uma metáfora do percurso que a protagonista deverá enfrentar para modificar seu estilo de vida, a partir da alteração do que ingere e do que expele, leia-se, o modo como enxerga o próximo e a si mesma.

Dirigido por Paul Downs Colaizzo, esta dramédia não tem erro em como atingirá seu público-alvo, nem mistério em como desenvolverá sua trama, construída a partir de altos e baixos, superáveis após um choque de realidade que desperta Brittany ao mundo a seu redor. É gostoso de assistir, não mete os pés pelas mãos ao lidar com o tema da obesidade e do amor ao próprio corpo e não tenta forçar sua natureza progressista além do que a cidade de Nova York proporciona naturalmente. Melhor: Jillian Bell é uma atriz cômica com o talento de migrar do riso à lágrima, sendo sabotada, apenas, quando o roteiro decide que sua atitude deve ser mais rancorosa e babaca do que no restante do tempo. Ainda assim, um convite para calçar o tênis e cair na rua. Mas, por favor, consulte um especialista em educação física antes.

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