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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Presidente da Agência Espacial Brasileira concede entrevista exclusiva ao JP

Engenheiro afirma que Alcântara pode se tornar um polo de desenvolvimento espacial, com ampla repercussão socioeconômica.

Presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), o engenheiro Carlos Augusto Teixeira de Moura visita o Maranhão nesta quinta-feira (28)

“Alcântara pode se tornar um polo de desenvolvimento espacial, com ampla repercussão socioeconômica. Da mesma forma como São José dos Campos (SP) nucleou o desenvolvimento, no Vale do Paraíba, de um cluster aeronáutico, acreditamos que Alcântara e São Luís podem desempenhar papel de extrema relevância no desenvolvimento do setor espacial”.

A afirmação é do presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), engenheiro Carlos Augusto Teixeira de Moura, que visita o Maranhão nessa quinta-feira (28). Em entrevista exclusiva ao Jornal Pequeno, em Brasília, ele falou da agenda intensa que terá no estado até sexta-feira.

Um dos compromissos é uma palestra sobre o status e desafios do Programa Espacial Brasileiro na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), onde também vai conhecer a estrutura do Curso de graduação e pós-graduação em Engenharia Aeroespacial. O curso é fruto de um acordo de cooperação acadêmica e técnica firmando em 2017, entre o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos, e o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) e a UFMA, e vem sendo realizado em rede com outras universidades do Nordeste.

Carlos Moura falou das expectativas da Agência com o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), após a aprovação do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) pelo Congresso Nacional e promulgação pela Presidência da República, este mês. Também discorreu sobre iniciativas para preparar a população do Maranhão para melhor usufruir deste projeto. E afirmou que é possível o Brasil estabelecer acordos com outros países, similares ao feito com os Estados Unidos, assinado no dia 18 de março deste ano, entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, em Washington.

JORNAL PEQUENO – Na sua agenda ao Maranhão, o senhor priorizou encontro com a comunidade acadêmica para falar sobre o Programa Espacial Brasileiro. Que tópicos serão abordados nessa palestra?

CARLOS MOURA – Pretendo apresentar o status e os desafios do Programa Espacial Brasileiro. O mercado espacial passar por expressiva mudança disruptiva; tanto pelos aspectos técnicos, como pelos de modelos de negócios e de regulação. Devo mostrar como esse período de expressivas mudanças traz ótimas oportunidades para o Brasil reinserir-se com protagonismo nesse mercado. Afinal, temos infraestrutura, capacidade científica, tecnológica e industrial, academia e mercado, atributos que nos vocacionam para sermos atores relevantes no mercado espacial. Finalmente, pretendo destacar ações que estamos empreendendo para ter um Programa Espacial mais bem preparado para ser um instrumento a serviço da integração do País, colaborando para viabilizar diversas políticas públicas, tão essenciais para nosso povo, em particular para o Maranhão.

JP – Após a aprovação do Acordo, que ações e obras de infraestrutura serão executadas para que a Base de Alcântara entre em pleno funcionamento? Qual o custo dessas obras (previsão)? Quem vai pagar?
CM – Entende-se o Centro Espacial de Alcântara (CEA) como um espaço-porto de classe mundial, capaz de fornecer serviços de lançamento e rastreio para os mais diversos tipos de operadores de sistemas espaciais. Para a fase inicial, que poderíamos chamar de implantação do CEA, devemos aproveitar toda a infraestrutura técnica e logística já operada pela Aeronáutica, com os devidos aprimoramentos para fornecer serviços em bases comerciais. Se considerarmos apenas o curto prazo e operadores de veículos de pequeno porte, não haverá necessidade de investimentos em estruturas específicas.
No médio prazo, para operadores de veículos maiores, certamente teremos que considerar a implantação de complexos de lançamento dedicados. Por ora, pretende-se aprimorar, por exemplo, o sistema de energia elétrica, as condições para hospedagem e, destaco, a elevação do aeródromo de Alcântara para a condição de um Aeroporto Internacional. Os projetos estão em fase de revisão, tendo sido alocados, pela Secretaria de Aviação Civil, recursos da ordem de R$ 70 milhões (setenta milhões de reais) para aplicação em pouco mais de três anos.

JP – Acordos similares como este que o Brasil firmou com os Estados Unidos serão feitos com outros países para uso da Base de Alcântara?

CM – O Acordo de Salvaguardas Tecnológicas com os EUA é fundamental pelo nível de participação da tecnologia norte-americana nos sistemas espaciais. De cada dez satélites ou veículos lançadores, oito carregam algum componente dos EUA. Todavia, já temos acordo similar com outro país, e deveremos, se demandados, estabelecer o mesmo tipo de compromisso com qualquer outro país que queira operar de Alcântara e assim o requeira.

JP – Que tipo de programas e parcerias a AEb pretende firmar com as universidades, institutos técnicos de nível médio para levar conhecimentos e preparar o maranhense para que ele, na prática, possa se beneficiar deste novo momento que o AST vai proporcionar ao estado?

CM – Uma das funções da AEB é justamente trabalhar para o desenvolvimento da capacitação tecnológica do País. Atreladas a isso, temos atividades de estímulo às vocações para o que se convenciona chamar de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês), onde se incluem as diversas e multidisciplinares atividades para o campo espacial. Portanto, assim como fazemos no Brasil todo, precisamos intensificar essas ações no Maranhão, pois Alcântara pode se tornar um polo de desenvolvimento espacial, com ampla repercussão socioeconômica. Da mesma forma como S. José dos Campos nucleou o desenvolvimento, no Vale do Paraíba, de um cluster aeronáutico, acreditamos que Alcântara e S. Luís podem desempenhar papel de extrema relevância no desenvolvimento do setor espacial.

Temos que lembrar sempre: Alcântara tem condições muito favoráveis como espaço-porto; os sistemas podem ser os da mais alta qualidade, assim como os processos de operação; mas tudo isso necessita de engenharia de sistemas e de operadores bem qualificados para fazê-los funcionar. Ademais, a grande parte dos recursos espaciais está na prestação de serviços. Logo, precisamos incentivar nossos jovens a utilizar os sistemas espaciais como ferramenta para viabilizar serviços, aplicações que resolvam problemas concretos de nosso cidadão. Esse é o desafio, e o maranhense tem capacidade de vencê-lo.

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