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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Longa sobre Leonel Brizola é destaque do 3º dia no Festival de Cinema de Gramado

Domingo foi a noite de homenagem e celebração ao ator Leonardo Machado, que faleceu em 2018 e interpretou Leonel Brizola em “Legalidade”.

Equipe do Longa-metragem brasileiro 'Legalidade' (Foto: Cleiton Thiele / Agência Pressphoto)

Por Márcio Sallem, correspondente especial do JP

Gramado/RS

Domingo foi a noite de homenagem e celebração ao ator Leonardo Machado, que faleceu em setembro de 2018 em decorrência de um câncer no fígado. Apresentador do Festival desde 2010, daí figura bastante querida na cidade, Leonardo interpretou Leonel Brizola em “Legalidade”, seu papel derradeiro. E é sobre esta produção que iniciarei hoje.

Legalidade reconstrói a cena política brasileira após a renúncia de Jânio Quadros, em 21 de agosto de 1961

Com um elenco de estrelas (Cleo, que assina só com o primeiro nome, Letícia Sabatella e Fernando Alves Pinto), o diretor Zeca Brito narra uma história importante no cenário atual: a de como Leonel Brizola, então Governador do Rio Grande do Sul, retardou, por 3 anos, o golpe militar, a partir da defesa do cumprimento da constituição para que João Goulart, o vice-presidente eleito, assumisse o cargo principal do Executivo, apesar de ser considerado um comunista.

A produção, premiada no último Festival Guarnicê em São Luís/MA, tem seu ápice quando Leonardo Machado organiza uma rádio clandestina no porão do Palácio Piratini e conclama os democratas a obedeceram o comando legal. Com isto, acende o sentimento popular anti-golpista e frustra os desejos da ala militar mais conservadora que, com interferência maciça do governo norte-americano, eventualmente ascenderia ao poder como ensina a história. Dá para sentir um arrepio na pele com a eloquência de Brizola e também um frio na barriga em face à cena final do personagem.

Entretanto, está enganado quem pensa que “Legalidade” é, apenas, uma história sobre o uso do capital político de Brizola em defesa do Brasil. Se fosse, seria ótimo, porém a narrativa insere tramas paralelas: o triângulo romântico entre a jornalista e espiã Cecília (Cleo) com dois irmãos, manipulando-os para obter informações e repassá-las à CIA até ser redimida pelo amor, e a busca, em 2004, da filha (Sabatella) por seu paradeiro através dos arquivos de uma espécie de comissão da verdade. A preterição da Campanha da Legalidade por estes clichês mal-desenvolvidos arruína a ambição narrativa de revelar, através do passado, quais os erros que não podemos cometer no futuro.

A Homenagem a Leonardo Machado

Antes da exibição de “Legalidade”, pais, padrinhos e esposa do ator subiram ao palco para receber a devida homenagem das mãos do presidente da GramadoTur, Edson Humberto Nespolo, em nome do Festival. Ao final dos agradecimentos, recordaram o mantra do ator, “Que essa fonte nunca seque”, ao que o diretor Zeca Brito emendou, de forma feliz: “E essa fonte é o cinema brasileiro”.

Na plateia estava o Presidente Nacional do PDT, Ciro Gomes, antigo partido de Leonel Brizola.

O Véu de Amani e a aceitação de diferenças

O curta-metragem em competição exibido na noite, dirigido por Renata Diniz, narra uma história simples e atual: a amizade entre garotas uma filha de refugiado paquistanês e uma cristã católica que a presenteia com um biquíni para tomarem banho de rio juntas. Disto, advém o comentário nuclear da história: aprender a respeitar as diferenças culturais como a parte de nossa personalidade. Nada muito sofisticado, com aquela chata situação de ter atores mirins agindo como se adultos fossem.

A dimensão do tempo em La Forma de Las Horas

Quando subiram ao palco, a diretora Paula de Luque e os atores Julieta Díaz e Jean Pierre Noher comentaram que filmaram o longa, independentemente, em 8 dias, após o presidente Mauricio Macri diluir o apoio governamental dado ao Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (Incaa), a Ancine dos argentinos. O resultado está claro em aspectos técnicos, como a fotografia ou a montagem, mas não na essência da trama e dos personagens.

A trama conta a história de Ana que, logo após concluir a venda de sua casa no campo e enquanto empacota seus pertences e escreve reflexões no computador, rememora seu antigo amor e companheiro. Para Ana, ‘perdoar’ e ‘esquecer’ são sinônimos e, neste processo de cicatrização de feridas abertas, a personagem revela não haver superado as reminiscências deixadas pelo amor, em uma trama que não respeita a linearidade do tempo. Pelo contrário, dança ao redor dele como a bailarina que revolve em espirais em torno do próprio eixo.

O fascinante nisto está em como determinados eventos, quando vistos noutra ordem e com um conhecimento adicional, passam a embutir um conjunto de significados diversos do que quando os havíamos visto pela primeira vez. A tentativa de Ana em reescrever a história de sua vida, que a remete a debater consigo mesma, acaba rendendo o melhor deste drama feito com dinheiro contado e criatividade de sobra.

Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema

A noite do domingo contou com a entrega do Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema para a Mostra Gaúcha de Curtas, em sua 16ª edição. A animação “Só sei que foi assim”, de Giovanna Muzel, venceu além de ser considerado o melhor filme pelo Júri da Crítica.

A comissão julgadora foi formada por: Amaranta Cesar (professora adjunta de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), Antonio Júnior (Diretor Artístico do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba), Carla Osório (jornalista, curadora e programadora de festivais e mostras no Brasil e no exterior), Cintia Domit Bittar (diretora, roteirista, montadora e produtora) e Rodrigo Martins (produtor executivo da Amazing Graphis).

Confira a crítica completa dos longas metragens no Cinema com Crítica e amanhã volto com mais sobre Gramado.

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