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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

10º dia da Mostra Internacional de Cinema apresenta filme com Scarlett Johansson

“História de um Casamento” retrata a dissolução do matrimônio do casal interpretado por Adam Driver e Scarlett Johansson.

Adam Driver e Scarlett Johansson protagonizam “História de um Casamento” (Foto: Divulgação)

Uou, são 2:34 deste começo de domingo (27), e acabei de retornar de minha 50ª sessão da 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. A apresentação especial e surpresa de um dos fortes competidores da Netflix para a temporada de premiações, o aguardado “História de um Casamento”. A história retrata a dissolução do matrimônio do casal de artistas interpretado por Adam Driver (um diretor de teatro) e Scarlett Johansson (uma atriz) e como este processo interfere no bem-estar de seu filho único. Além disto, é também uma oportunidade para comentar a respeito da indústria de divórcios e o custo do processo que termina por, ironicamente, drenar o dinheiro que os pais poupavam para a faculdade do filho.

Com direção de Noah Baumbach, que muitos recordam por ser o diretor de “Frances Ha”, o filme tem aquela pegada de Woody Allen, em deixar os atores a vontade para que os ótimos diálogos fluam com naturalidade, em um misto de comédia situacional e tragédia amarga e madura. Não existem ‘vencedores’ no divórcio que, por mais doloroso que seja, também é necessário para que os co-protagonistas possam prosseguir seus caminhos separados e, no processo, conservar o amor mútuo que nutrirão, para sempre, um pelo outro.

A propósito, este décimo dia de festival trouxe mais duas produções norte-americanas: em “Devorar”, Haley Bennett interpreta uma jovem mulher, recém casada com um empresário e herdeiro das riquezas do pai que desenvolve a estranha compulsão de engolir objetos. À medida que a protagonista explora este hábito doentio, também aumenta a dificuldade do que põe na boca, incluindo baterias ou mesmo pregadores pontiagudos. Há, evidentemente, uma metáfora central envolvendo o relacionamento submisso ao marido (e a sua família), mas o roteiro perde o fio da meada para investigar as raízes desta compulsão, que datam de um evento determinante a sua concepção. Só sei que a narrativa desperdiça uma ideia para lá de bizarra e a performance cativante de Haley.

Já “Segredos Oficiais”, assim como “O Relatório” (sobre o qual comentei no primeiro dia), aborda o mundo pós-11 de setembro em que os governos norte-americano e inglês escondiam do público informações importantes que poderiam modificar a opinião pública a respeito de suas ações na guerra contra o terror. No caso desta narrativa baseada em eventos reais, a espionagem de membros da ONU para que apoiassem a guerra ilegal contra o Iraque, país que, comprovadamente, não possuía armas de destruição em massa. Inconformada com a arrogância dos políticos que mentem aos eleitores em cadeia nacional, a personagem de Keira Knightley resolve divulgar um documento que evidencia o conluio entre EUA e Inglaterra.

Você pode imaginar como esta ação importará em consequências devastadoras para a mulher, que, para piorar, é casada com um imigrante turco – naturalmente confundido com um muçulmano apoiador do regime de Saddam Hussein… mesmo que seu povo, o curdo, tenha sido perseguido por este ditador. A trama mexe em vespeiro, e mostra qual o papel da imprensa. Não de servir de assessoria, porta-voz ou relações públicas do governo, mas de cobrá-lo por suas ações e denunciá-lo quando seus interesses se sobrepõem ao do povo.

Não haveria Mostra Internacional de Cinema sem que eu houvesse assistido a, ao menos, um filme grego, e este foi “O Garçom”, uma produção dedicada a recriar, estilisticamente, a personalidade do protagonista. Compenetrado, meticuloso e sistemático, Renos não parece estar particularmente afetado com o fato de que o vizinho foi assassinado pelo homem que agora tomou o apartamento e o convida para jantar diariamente (sabe-se lá qual a carne é servida). A impressão é de que o distanciamento presente nos atos mais intensos evidencia, também, a misantropia de Renos, cuja jornada conta com a presença de uma mulher misteriosa.

Para encerrar mais este dia, o canadense “Uma Colônia” é um caloroso coming of age, o tipo de drama sobre amadurecimento, neste caso da retraída pré-adolescente Mylia, que mudou de escola e precisa conviver com a separação dos pais, a petulância da irmã caçula (que é uma fofura) e o convívio com um morador da reserva indígena próxima a sua casa. A tese da narrativa é de que é bom não estar dentro das linhas pontilhadas da normalidade, mas, ao contrário, que possamos aceitar a individualidade como um elemento desejável e necessário para que sejamos adultos felizes. Com uma direção naturalista e uma trama que foge de conflitos exagerados, preferindo deixar o pé firme no mundo real, é uma das doces surpresas da Mostra, que entra em seus dias finais… e com estes, o início da desaceleração desta maratona, a qual pretendo concluir com 60 a 65 filmes.

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