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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Ainda a cloroquina

Em nota recente, a Sociedade Brasileira de Infectologia recomendou que “a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da COVID-19”

Carlos Lula, secretário da Saúde do Maranhão (Foto: Divulgação)

No início do século XXI, chegou ao conhecimento dos brasileiros possíveis benefícios de uma fruta cultivada para fins medicinais e de tradição asiática conhecida por Noni ou Morinda citrifolia, seu nome científico. Reza a lenda que a fruta tem efeito anti-inflamatório, anticancerígeno, analgésico, antisséptico. Enfim, um verdadeiro milagre.

Ao tomar conhecimento do Noni e seu consumo desenfreado no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) disparou uma nota onde trata da proibição da comercialização de produtos à base da fruta visto a falta de estudos que comprovem a eficácia e segurança do consumo.

Nos consultórios, médicos foram desafiados por pacientes com desejo de cura através da fruta. Segundo o relato do Dr. Rodrigo Moreira, no site da Sociedade Brasileira de Diabetes, o pedido de esclarecimentos sobre o ‘suco milagroso’ tornou-se cada vez mais frequente. O médico buscou por estudos para orientar seus pacientes, mas descobriu que o material científico produzido, até então, é minimamente controverso.

Sobre controversa, o centro da atenção da comunidade científica mais recente é quanto à eficácia do uso da cloroquina/hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com infecção pela COVID-19. Recentemente, a Coalizão Covid-19 Brasil publicou estudo onde revela a falta de melhoras na evolução de clínica de pacientes com quadros leves ou moderados, mesmo quando associado o uso da hidroxicloroquina com a azitromicina. O estudo incluiu resultado de 669 pacientes em 55 hospitais brasileiros.

Antes desse, dezenas de outros estudos sobre o assunto foram publicados. Dois destes estão no Journal of the American Medical Association e no New England Journal of Medicine. Ambos analisaram se a administração da cloroquina apresentou resultado na redução da letalidade e/ou no tempo de internação dos pacientes. As pesquisas concluíram não haver diferença significativa com ou sem o tratamento por cloroquina/hidroxicloroquina.

Em nota recente, a Sociedade Brasileira de Infectologia recomendou, com base em evidências científicas, que “a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da COVID-19”. Anteriormente, a SBI também já havia alertado sobre a possibilidade de arritmia cardíaca descrita em alguns estudos após o uso combinado da cloroquina e azitromicina.

No Brasil, a Anvisa é responsável por regulamentar o uso de determinado medicamento para doenças. Embora tenha adotado uma medida de cautela a fim de garantir amplo estudo sobre o fármaco, o estudo da Coalizão Covid-19 Brasil passou por aprovação da Agência e já apontou ineficiência da cloroquina no tratamento de pacientes da COVID-19. Contudo, até o momento, o órgão não deu indicativo de suspensão do uso do fármaco.

Do outro lado, o Ministério da Saúde adquiriu mais de 4 milhões de comprimidos, ainda em maio, enquanto se acreditava no milagre prometido pelo presidente americano Donald Trump, grande defensor do uso da cloroquina em pacientes da COVID-19.

Mesmo com estudos controversos, a ideologia sobrepôs à evidência científica. A cloroquina nunca mostrou sua eficácia, ainda assim, a aquisição de milhares de comprimidos despontou como prioridade, enquanto já havia o alerta sobre o baixo estoque e dificuldade de aquisição dos kits de medicamentos de intubação, que continuam em falta, e salvariam centenas de pacientes graves da COVID-19.

A lenda da cloroquina se assemelha a do Noni. Um, definitivamente, foi banido, ainda em 2004 pela Anvisa. Até o momento, nenhuma pesquisa conseguiu apontar segurança do consumo da fruta e seus benefícios à saúde. De igual modo, nos resta saber se com todas as evidências científicas que eliminam a capacidade da cloroquina em curar pacientes da COVID-19, por quanto tempo mais o Brasil manterá ativa a discussão sobre o uso do medicamento nestes casos. Afinal, para doenças como lúpus, malária e artrite reumatoide, por exemplo, a cloroquina e a hidroxicloroquina são comprovadamente eficazes há muitos anos.

Os torcedores pela eficácia do Noni são irrelevantes, assim como torcedores de forma em geral. A torcida não ganha jogo, isso precisa ficar bastante claro (e falo como um torcedor fanático do meu time). Torcer diz mais sobre as pessoas do que sobre o resultado. É um acolhimento necessário para sustentar os momentos difíceis e para celebrar as conquistas. Esse movimento, apesar de intrínseco à cultura nacional, agrega pouco no desafio que enfrentamos.

Embora torçamos para que se encontre um medicamento eficaz contra a COVID-19, tudo leva a crer que esse medicamento não é a cloroquina. Cabe, então, às autoridades sanitárias o dever de não se utilizar do fármaco para tratar a COVID-19. A ciência definitivamente não é opinião, é, sobretudo, evidência, e deve estar na frente para que possamos salvar vidas.

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