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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Carlos Lula aponta avanços e pioneirismo do Maranhão no combate ao coronavírus

Mas adverte: “O horror da pandemia, da morte ao nosso lado, ainda não passou”

Carlos Lula destaca que, no Maranhão, 13 hospitais foram construídos ou reformados num espaço de 12 semanas (Foto: Divulgação)

De quarentena desde que testou positivo para o novo coronavírus, o secretário de Estado da Saúde, Carlos Lula, cuida das atividades da pasta por meio virtual, mas num intenso ritmo de trabalho.

Ele destaca os investimentos realizados pelo Governo do Maranhão no combate à Covid-19. “Foram 13 hospitais construídos ou reformados num espaço de 12 semanas”, salienta.

Apesar dos avanços, Carlos Lula fala de “uma guerra em que vencemos muitas batalhas, mas ainda não terminou. O horror da pandemia, da morte ao nosso lado, ainda não passou”.

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Pequeno, Carlos Lula fala sobre o isolamento social, a experiência de ser secretário de Estado e do seu extenuante ritmo de trabalho:

 

Jornal Pequeno – O Maranhão, mais uma vez, destacou-se em primeiro no lugar no combate à Covid-19. Como foi possível chegar a esta posição?

Carlos Lula – Uma guerra em que vencemos muitas batalhas, mas ainda não terminou. O horror da pandemia, da morte ao nosso lado, ainda não passou. Foram 13 hospitais construídos ou reformados num espaço de 12 semanas. Quando olhamos para trás, fica até difícil acreditar que conseguimos tudo isso.

O Maranhão foi pioneiro em sua série de atitudes: fomos o primeiro estado a ampliar leitos de UTI, o primeiro a criar um Centro de Testagem, o primeiro a decretar o lockdown, o primeiro a ir ao STF resgatar respiradores que a União havia nos tomado, o primeiro a conseguir receber os respiradores da China.

Ampliamos leitos em todos nossos hospitais regionais e garantimos tratamento a todos os acometidos pela doença. Não é pouco, mas ainda não passou. Por mais que a sociedade tenha, de modo surpreendente e assustador, naturalizado a tragédia do novo coronavírus, termos mais de 150 mil mortos no país num espaço de poucos meses em razão de apenas uma doença será algo difícil de se repetir. É o horror caminhando ao nosso lado.  

JP – Como foi essa experiência de ter que sair de casa para esse enfrentamento direto da pandemia desde o surgimento do primeiro caso?

Carlos LulaEu não tinha outra opção. Se você lidera uma equipe, você tem de assumir riscos junto com ela. Eu precisava poupar minha esposa, meus filhos, mas tinha milhares de pessoas que precisavam saber que o comandante da tripulação iria com eles até o fim. Eu não sabia o que poderia acontecer, ninguém sabia.

Na função na qual me encontro, não poderia ter outra atitude senão estar na linha de frente. Vi pessoas que convivem comigo todos os dias adoecerem, serem hospitalizadas. Vi servidores perdendo a vida para a doença. Não foi fácil, mas não poderia ter tido outra atitude. Tinha de ir até o fim. Por minha equipe, pela sociedade.

O problema estava posto, ele era gravíssimo. Eu entendia isso e partilhava do mesmo medo de toda a sociedade, mas eu precisava conduzir o sistema de saúde para fazer o possível para enfrentar essa guerra. E sabia que iríamos vencer. Qualquer outra atitude não estava sequer no meu rol de cogitações. Graças a Deus eu também tive o suporte de minha família nesse período. Eu sei que para eles foi dificílimo aturar minha ausência.

JP – Agora com coronavírus e após as críticas por ter aparecido em atividades políticas, como está sendo a quarentena?

Carlos Lula – É missão nossa zelar pelo cumprimento dos protocolos sanitários. Me comprometo, mais uma vez, a adotar tudo que estiver ao meu alcance para evitar uma nova onda do novo coronavírus no estado. Quanto à doença, até pela data, é mais provável que eu tenha sido contaminado num hospital.

Mantive minha rotina e nunca deixei de visitar nossas unidades de saúde e nossos doentes. Estou sem nenhum sintoma e em quarentena. Vou executando as atividades da Secretaria em reuniões virtuais e no restante do tempo leio e escrevo.

Sobre a eleição, nós sabíamos que seria dessa forma e a Justiça Eleitoral ou mesmo o Congresso poderia ter limitado a propaganda. Imagina fazer eleição no interior do Maranhão sem caminhada, sem comício, sem passeata? É ingenuidade acreditar que teríamos eleições sem esse tipo de comportamento. E não dá para atuar como censor, interditando todas as atividades político-eleitorais. Até porque isso não surtirá efeito.

JP – Qual sua impressão sobre o atual momento da sucessão na capital maranhense?

Carlos Lula – A sucessão do prefeito Edivaldo ainda está em aberto. Temos uma eleição atípica em São Luís. Em razão da Covid-19 e do que aconteceu durante o ano, isto acaba sendo benéfico para quem já estava na disputa. A menos de um mês da eleição, quase metade do eleitorado se apresenta, segundo as pesquisas, ainda sem opção de voto. Isso de algum modo é surpreendente porque é um percentual muito alto para a atual fase da campanha.

JP – De que forma tem sido o seu apoio a Rubens Júnior e o que explica esse engajamento?

Carlos Lula – O meu apoio a Rubens é algo natural. A gente tem uma caminhada juntos desde a universidade. Eu já havia apoiado em eleições anteriores e acredito que ele tem o melhor projeto para cidade. Me parece que enquanto razão estratégica para o futuro do estado e para o futuro de São Luís, Rubens representa o melhor projeto para a cidade.

JP – A imagem e a associação a nomes como Lula, Flávio Dino, Bolsonaro podem realmente ter impacto na atual campanha?

Carlos Lula – Quando a gente fala de Lula, Flávio Dino e Bolsonaro, as pesquisas apontam como os maiores eleitores da cidade. Isso quer dizer o seguinte: seja do ponto de vista positivo ou negativo, as pessoas tendem a votar ou a rejeitar o seu voto em razão do nome dos três. São três grandes líderes políticos e por isso a associação quase natural a esses nomes.

Flávio Dino e Bolsonaro uma vez que são mandatários, mas ainda impressiona ter o nome do ex-presidente Lula – já fora do poder há muitos anos, ainda assim, segundo as pesquisas, tem um impacto muito forte. As pessoas tendem a votar ou votariam no candidato apoiado pelo ex-presidente Lula.

JP – Pode-se dizer que já está em curso, também, um projeto pessoal seu de disputar algum cargo eletivo em 2022?

Carlos Lula – Eu já sou um agente político. Não é o fato de não ter mandato que eu não esteja na esfera pública. Atuar como um secretário de saúde ou como secretário de Estado é algo muito relevante. O projeto de sair candidato em 2022 obviamente não é um desejo apenas individual.

Entretanto, caso isso aconteça como uma decorrência do grupo que hoje está no comando do Governo do Estado, bem como até para defender o legado do governador Flávio Dino, me parece que sim, é possível ser candidato. Sobre ser deputado federal, ser deputado estadual ou eventualmente um cargo majoritário somente o futuro irá dizer – ainda é muito cedo.

JP – Essa experiência de ser secretário de Saúde foi uma decisão arriscada?

Carlos Lula – A vida é isso. Como dizer não a esse convite? A vida não é um planner, um caminho a ser percorrido e que não falha, uma direção certa, um caminho traçado, como tem muita gente dizendo por aí. Muito pelo contrário. A vida é caos. A ninguém é dado entender tudo e explicar tudo.

Nossa existência tem uma condição inexplicável e por isso ela é tão surpreendente. É a vida. Continuar observando beleza no caminhar, continuar sentindo a vida percorrer no seu corpo a cada manhã. Lógico que foi uma decisão arriscada e, diria eu, ingênua de alguma forma. É é preciso ter certa dose de ingenuidade para sobreviver a este mundo.

JP – E por que decidir pela política?

Carlos LulaNa verdade, eu não teria como não decidir pela política. Porque você só pode discutir os assuntos da alma e os assuntos estéticos quando você vive numa sociedade civilizada. Se você tem medo de falar, se você precisa lutar uma guerra todos os dias para não ser morto, não faz sentido discutir outra coisa que não seja política.

Se você vive em uma sociedade civilizada, onde há regras, onde há equilíbrio e limitação entre os poderes e onde o poder político não interfere na sua vida, excelente! Eu posso discutir outras coisas. Infelizmente, com o estado de coisas do Brasil e o modo como recebemos o Maranhão depois de décadas de ineficiência, fica difícil dizer não à política.

João Pereira Coutinho, escritor português, tem uma metáfora belíssima sobre isso: é como se me pusesse a dançar uma valsa em meio a uma tempestade. É preciso primeiro aguardar a tempestade passar, senão a valsa não faz sentido. Se pudesse, eu viveria a vida a ler, escrever e assistir a jogos do Vasco. Bem, isso não é me permitido. Então estamos nós na fase antecedente: tentando construir uma sociedade melhor. E isso só se faz a partir da política, nunca contra ela.

JP – Direita ou esquerda?

Carlos LulaSem dúvidas, alinho-me ao pensamento político da esquerda, mas tenho profundas raízes liberais, por assim dizer. Não quero aqui me deter a essa guerra que ocorre na sociedade, mas na distinção clássica entre essas correntes. A defesa da liberdade de um lado e da igualdade de outro. Pois eu acredito que é possível conjugar igualdade e liberdade.

Defender a intervenção do Estado na redução das desigualdades sociais e defender o equilíbrio fiscal, por exemplo. Por que não podemos conectar essas correntes? Eu acredito que isso é possível. Não é por ser uma pessoa de esquerda, que deixo de reconhecer que mecanismos frutos do liberalismo são legados da sociedade atual.

O Estado de Direito é um marco importante e defender isso agora é muito mais importante que perder semanas debatendo Stalin nas redes sociais. Não é possível à luta política perder a dimensão do problema concreto e cotidiano das pessoas. E nem deixar de falar com quem supostamente não pensa igual a você.

JP – Na vida da política, sofre mais com a vaidade ou com o tédio?

Carlos LulaBem, tédio não é algo que possa dizer com que convivo. Pelo contrário, a vida da Secretaria de Saúde é animada até demais. O bom de envelhecer é que as dores passam a ser mais físicas que metafísicas. Para mim, não é a vaidade, é a hérnia de disco. Nada que um pilates e alguma correção de postura não resolva.

JP – Como tem sido esse enfrentamento de uma vida atribulada, com intenso ritmo de trabalho e muitas cobranças?

Carlos LulaNão deixo de me assustar com um mundo onde as pessoas se sentem obrigadas a ser feliz. Somos a primeira civilização que se culpa por não ser feliz. E a pressão de ser feliz só lhes causa mais infelicidade, porque a vida não é o Instagram. Felicidade não é um direito. A infelicidade faz parte de nossa condição humana, assim como a tristeza.

Há momentos de felicidades, e eu os aproveito a não mais poder. Em geral, estão em coisas que a sociedade não dá valor: um olhar de agradecimento de uma criança, uma comida gostosa, uma leitura agradável, o sorriso dos meus filhos ou o latido de nosso cachorro quando chegamos em casa. É engraçado, mas o mundo nos promete felicidade com instrumentos que normalmente a destroem: o sucesso rápido, o dinheiro fácil e a aparência temporária. Qual o problema, afinal, com alguns cabelos grisalhos?

JP – E sua ligação com a arte, a literatura, o Direito? Renunciou de vez a eles para seguir uma carreira política?

Carlos LulaDe modo algum. Como disse, eu gostaria de viver a ler e escrever. Isso me bastaria. Não sei se conseguiria alguém que me pagasse por isso, mas, sem dúvidas, é um desejo meu num outro momento de minha vida. Por ora, continuo a ler, não tanto quanto eu gostaria, mas leio bastante. Sobre quase tudo. Romances, história, economia. Sobretudo, boa literatura.

É minha forma de fuga também da realidade. O mundo é cru e duro demais aos meus olhos. Se não me refugiasse em algum lugar, provavelmente viveria angustiado. E eu prefiro viver a sorrir, por isso gosto tanto de ironia.

A ironia é uma forma requintada de humor, que é muito mais elaborado que o drama ou a tragédia. O humor é cruel e profundo porque dá uma segunda volta na chave. Eu poderia estar chorando, mas estou fazendo graça com meu sofrimento. O bom humorista tem sempre minha mais profunda admiração.

JP – É imprescindível que a vida do escritor seja solitária?

Carlos LulaDos escritores eu não sei, de certa maneira minha vida sempre foi muito sozinha. Eu escutei isso de um professor de Literatura e fiquei incrédulo, mas é um tanto verdade. É preciso tempo, paciência e a leitura é uma atividade solitária. Mas amigos, inimigos e amores imaginários existem. Se você convive com eles durante a maior parte do dia, não é tão sozinho quanto uma oração dessas pode indicar.

JP – Qual foi o primeiro livro que lhe causou grande impacto?

Carlos LulaEu tive muita dificuldade em aprender a ler e escrever. Me recordo bem de “O menino maluquinho”, do Ziraldo e de ler gibis numa velocidade frenética assim que consegui ser alfabetizado. Devo isso à minha mãe, porque foi ela quem nunca desistiu de mim. Eu deveria ter uns 7, 8 anos quando isso aconteceu. Li Machado de Assis na adolescência, mas eu falaria das distopias que li com 17, 18 anos. Admirável Mundo Novo, 1984, Revolução dos Bichos. Os três livros me impactaram muito e dizem bastante sobre a pessoa que me tornei.

JP – Para onde vão suas dores? Não costuma publicar sobre seus sentimentos?

Carlos LulaMinhas dores? Vão para as páginas de um diário que comecei e não tive condições de continuar. Resolvi queimá-lo, todos os dias, página por página. Com as páginas, minhas dores também se vão. Não há tempo para rancores. A urgência é outra.

JP – Religião. Acredita em Deus?

Carlos LulaEu acredito em Deus. Muito. Minha fé vem na frente. Acredito que nunca tenha rezado tanto quanto nos últimos meses. Eu sei que há ateus, quem não se conecta com o intangível, mas não deixam de me causar curiosidade. Não há nada mais irônico do que alguém que não acredita em Deus e passa a vida a abominá-lo. Eles parecem sempre preocupados em sustentar sua posição. A mim não faz sentido, mas respeito todos os credos.

JP – Por meio das redes sociais, você tem feito indicação de livros. Um livro para 2020?

Carlos Lula – Sem dúvidas, indico “Afirma Pereira”, de Antonio Tabucchi. O livro se passa em Portugal e fala de um homem envelhecido que toma consciência da sua aparente passividade.

Em 1938, com a ditadura de Salazar, a guerra civil na Espanha e o fascismo rondando a Europa, Pereira, nosso personagem principal, é um jornalista de uma página cultural de um pequeno jornal, alheio a tudo que se passava. Até compreender o que estava à sua volta. O Pereira representa muitos que estão por aí, nos tempos em que vivemos, alheio ao estado de coisas que ronda o mundo. E nos permite entendê-los.

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