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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Breve reflexão sobre o momento atual e retrospectiva de grandes epidemias

Os grandes eventos epidemiológicos de doenças, salvo raras exceções, surgiram em épocas de rudimentar desenvolvimento tecnológico

Foto: Reprodução

Quem se permite estabelecer um diálogo com alguém que tenha uma maior amplitude cronológica, a respeito dos últimos acontecimentos que abalam todo o orbe, a pandemia do coronavírus, terá sem dúvidas uma oportunidade ímpar de grandes aprendizados, até porque a avassaladora pandemia do Coronavírus não é a primeira de grande volume a afetar a humanidade. Certamente é a maior no caráter insidioso e multifacetado de contaminação, contudo, epidemiologicamente existem relatos similares.

É bem verdade que os grandes eventos epidemiológicos de doenças, salvo raras exceções, surgiram em épocas de rudimentar desenvolvimento tecnológico, incluindo aí a inexpressiva indústria farmacológica e o tímido arsenal de métodos e técnicas empregado pelos profissionais de saúde (Fisioterapeutas, Médicos, Terapeutas Ocupacionais, Enfermeiros, Bioquímicos, Nutricionistas, Psicólogos, Assistentes Sociais), sem perder de vista os meios de comunicação que viviam mergulhados no marasmo cibernético, dificultando, sobremaneira a publicitação dos meios de prevenção e cuidados gerais sobre as moléstias enfrentadas.

Descreveremos a seguir, em ordem cronológica, uma série de situações que desafiaram a população em larga escala, com grandes repercussões regionalizadas ou universais.

PESTE NEGRA

Nome dado à peste bubônica que atacou a Europa e a Ásia, entre os anos de 1333 a 1351, com um resultado final de 50 milhões de mortes. Foi atribuído às péssimas condições de higiene e ausência de saneamento nas cidades, o que permitiu o aumento gigantesco da população de ratos urbanos. Causada pela bactéria yersinia pestis, que se utiliza da pulga dos animais contaminados. Inflamação dos gânglios linfáticos, associada a tremores, dores musculares localizadas, astenia, vertigem e febre alta constituem o quadro clínico, que leva ao óbito em 60% dos casos, não tratados com antibioticoterapia.

CÓLERA

Ceifando a vida de centenas de milhares de pessoas de 1817 a 1824, a cólera, causada pelo vibrio cholerae (vibrião colérico) sofreu diversas mutações, causando novos ciclos epidêmicos de tempos em tempos, tendo como veículo de contaminação a água e alimentos contaminados. A bactéria se prolifera no intestino, causando diarreia profusa, requerendo o uso de antibióticos. Existe a vacina com eficácia em 50% dos casos.

TUBERCULOSE

Entre os anos de 1850 e 1950 a tuberculose matou um bilhão de pessoas em todo o mundo e foram encontrados sinais da doença em esqueletos de sete mil anos atrás. A partir de 1882, ano da descoberta do Bacilo de Koch houve um avanço no combate a essa entidade nosológica, ressurgindo com intensidade nos países considerados pobres, entre os quais o Brasil. O advento da SIDA propiciou à tuberculose a condição de infecção oportunista nos portadores dessa doença. Considerada altamente contagiosa, é transmitida de pessoa para pessoa, tendo como veículo as vias respiratórias, culminando com dano maior aos pulmões. Tratamento é à base de antibióticos e acontece em até seis meses. VARÍOLA Dizimando da terra em torno de 300 milhões de habitantes entre os anos de 1896 a 1980, a varíola maltratou a humanidade por mais de 3 mil anos. Mais uma vez a ponte para o contágio são as vias respiratórias, que conduzem o orthopoxvírus variolae e o quadro clínico caracterizado por febre, erupções na garganta, face e corpo, avançando para pústulas em todo o corpo. A vacina foi descoberta em 1796 e a “bixiga” como era chamada foi considerada erradicada do planeta desde 1980, em consequência de vacinação em massa.

GRIPE ESPANHOLA

Causada pelo vírus Influenza a gripe espanhola eliminou pelo óbito em torno de 20 milhões de pessoas, entre os anos de 1918 e 1919, constituindo-se em um dos maiores carrascos da humanidade. Apesar do nome, essa patologia fez vítimas em todo o mundo, inclusive no Brasil, vitimando à morte o Presidente Rodrigues Alves. Como veículo de contágio utiliza-se do ar, por meio de gotículas de saliva e espirros. Cefaleia intensa e mialgia, calafrios e edema pulmonar constituem a sintomatologia. O vírus está em permanente mutação, por isso o homem nunca está imune. Existem vacinas que fazem a profilaxia da contaminação com formas já conhecidas do vírus.

TIFO

Aproveitando-se das precárias situações de higiene e ausência de boas condições sanitárias, típicas dos países miseráveis, o tifo dizimou três milhões de vidas na Europa Oriental e Rússia, em apenas quatro anos de 1918 a 1922. Campos de refugiados e concentração ou guerras compõem o ambiente propício para a proliferação das bactérias do tipo Rickettsia. São dois os tipos clássicos: o tifo exantemático (ou epidêmico) surge mediante a coceira onde a picada da pulga se mistura as fezes contaminadas do inseto na própria corrente sanguínea. O tifo murino (ou
endêmico) é transmitido pela pulga do rato. Ambas as modalidades de contaminação trazem o quadro clínico
de cefaleia e poliatralgias, confusão mental e hemorragia das erupções cutâneas.

FEBRE AMARELA

O país africano da Etiópia foi o palco de lamentáveis 30 000 mortes em função da Febre amarela de 1960 a 1962. A virose tem duas versões, uma urbana e outra silvestre e já causou grandes endemias na África e nas Américas. O mecanismo de transmissão consiste na picada de uma pessoa pelo mosquito transmissor que já tenha picado uma pessoa infectada. Os sintomas são febre alta, indisposição, dispneia, calafrios, náuseas, êmese e diarreia. Cerca de 90% dos acometidos evoluem para a cura em três ou quatro dias. Os outros podem ter sintomas mais graves, que podem evoluir para o êxito letal. A vacina pode ser aplicada a partir dos 12 meses de idade e renovada a cada dez anos.

SARAMPO

Até a década de 60, mais precisamente o ano de 1963 o mundo contabilizou seis milhões de mortos por ano, vitimados pelo sarampo, através de seu agente etiológico o vírus morbillivirus, projetado por secreções de mucosas, a exemplo da saliva de contaminados. Doença característica altamente contagiosa foi considerada uma das principais causas de mortalidade infantil até a descoberta da vacina, que passou por vários aperfeiçoamentos, contribuindo decisivamente para a erradicação em vários países. Sintomas de erupções pequenas hiperemiadas na pele, febre alta, cefaleia, mal estar e inflamação das vias respiratórias. A vacina é aplicada aos nove meses e reforçada aos 15 meses.

MALÁRIA

Desde o ano de 1980, ano em que foi descoberto o protozoário plasmodium a malária vitimou três milhões de pessoas/ano, sendo considerada pela OMS a pior doença tropical e parasitária da atualidade. O mosquito do gênero anófeles é o hospedeiro do protozoário, cuja ação patológica ocorre nos hepatócitos, células do fígado e nos eritrócitos. Não existe vacina e somente drogas para tratar e curar a sintomatologia.

AIDS

Desde a sua identificação em 1981 nos Estados Unidos, foi considerada uma epidemia pela OMS, em função das 22 milhões de mortes que ocasionou. É transmitida por meio do sangue, esperma, secreção vaginal e do leite materno. O mecanismo de ação patológica é a destruição do sistema imunológico, abrindo a porta do organismo para outras doenças causadas por bactérias, outros vírus, parasitas e células cancerígenas. Apesar de todos os esforços de pesquisas para descoberta da vacina, ainda não foi possível e os soropositivos usam coquetéis de drogas que atuam na atenuação da carga virótica.

EBOLA

A República Democrática do Congo foi o país onde se registrou o primeiro caso de contaminação pelo Ebolavirus, no ano de 1976. Os surtos seguintes aconteceram em 1995, 2007 e 2014, ocasionando a morte de mais de 12 mil pessoas, sendo a maioria na África Ocidental. A taxa de mortalidade do vírus é altíssima, chegando a 90%. A forma de contágio é através do contato com sangue ou outros fluidos corporais do infectado, que pode ser humano ou animal. Um fato que merece referência é o relatório do Jornal financial times em 2014 que prospectou que as consequências econômicas do surto poderiam matar mais pessoas do que o próprio vírus.

GRIPE SUÍNA

O mês era março, o ano era 2009, o país era o México e o personagem principal, o vírus H1N1. Estamos nos referindo à primeira pandemia causada por esse vírus, evoluindo para um surto global. No final do mês de abril, a OMS declarou Emergência de Saúde Pública em escala Internacional. Calcula-se que mais de 20% da população mundial tenha contraído o vírus, o que corresponde a 1,4 bilhão de pessoas, sendo que destes, 500 mil complicaram para o óbito. O fim da pandemia teve seu anúncio em agosto de 2010.

Fonte: Organização Mundial de Saúde (OMS) e Fundação Oswaldo Cruz.

(Abidiel Pereira Dias – Fisioterapeuta/UEPB; Especialista em Fisioterapia Desportiva e Cardiovascular/UNIG; Mestre em Saúde e Ambiente/UFMA; Professor e Coordenador do Curso de Fisioterapia da Faculdade Santa rezinha/CEST; Fisioterapeuta do HMDM)

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