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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Compradores de lotes na Fazenda Colonial se queixam do abandono da obra em Bacabeira

O empreendimento deveria ser entregue neste ano, e várias pessoas já entraram na Justiça para pedir o reembolso das parcelas pagas

A Fazenda Colonial deveria ser um verdadeiro paraíso, hoje não passa de um pesadelo para as pessoas que investiram (Foto: Gilson Ferreira)

O anúncio, em julho de 2016, que um cantinho paradisíaco da cidade de Bacabeira se tornaria um condomínio luxuoso, e que estavam disponíveis as vendas de lotes, foi celebrado por centenas de pessoas que investiram suas economias no local. Mas, quatro anos depois, as intenções de usufruir de uma fazenda moderna, intitulada Fazenda Colonial, com chalés conjugados, área hípica, área de lazer, clube house, e salão de eventos, deram lugar à apreensão de que nada foi construído até o momento.

O empreendimento é do grupo espanhol Expansion. Atualmente, o terreno de mais de dois mil metros quadrados é apenas um brejo com lagos, mato alto e estradas de chão. Na entrada dele, a obra de uma guarita abandonada.

Em 2017, foi criada uma sala virtual na rede social WhatsApp por um corretor, destinada às pessoas que compraram lotes da Fazenda Colonial. À época, eram repassadas informações como tabelas de preços, valores das terras por metro quadrado, e sobre a construção de trilhas para passeios a cavalo, além de uma piscina e restaurante. O grupo existe até hoje, e há nele pelos menos 50 membros.

Atualmente, segundo a compradora e advogada Camila Cristine Mendes Soares, o grupo de WhatsApp se transformou em um local onde as pessoas que investiram valores altos na compra dos terrenos expressam o medo de que a obra não saia, ou de que os valores pagos nos terrenos não sejam devolvidos.

“Se trata de um local onde eu tinha muitas expectativas de passar dias prazerosos. Mas, o espaço está em completo abandono, sem nenhum sinal de obra”, informou Camila.

DISTRATO JUDICIAL

A advogada informou que os empreendimentos deveriam ser entregues entre março e dezembro deste ano. Camila frisou também que, devido às obras nunca terem saído do papel, já houve pedidos de desistência dos imóveis na Justiça. Ela, que também comprou terreno no local onde seria construída a Fazenda Colonial, disse que a demonstração de execução da obra seria imprescindível para a manutenção do contrato. Mas, o distrato não é feito de forma amigável, explicou.

A exemplo disso está a situação do empresário Ernaldo Araújo Guimarães, que comprou R$ 112.500,00 de terras, pagou R$ 11.206,44, mas desistiu de quitar as parcelas, quando viu que nada estava sendo construído.

O contrato de Ernaldo teria sido assinado em julho de 2017. O pedido de distrato foi levado à Justiça em janeiro de 2018. O empresário disse que quer o reembolso daquilo que já pagou.

“Eu fiquei desiludido. Acredito que todos que compraram terras na localidade tinham a mesma pretensão de investir em um lugar de descanso junto à natureza. Comecei a pagar em 2017, e em 2018 percebi que, sem início das obras, o projeto de Fazenda Colonial não iria para frente, então decidi parar de pagar, e entrei com a ação de distrato, tendo havido uma audiência na 1ª Vara da Comarca do Fórum de Rosário. Mas, depois dessa audiência, ainda não recebi o que paguei”, informou Ernaldo Araújo Guimarães.

Outra pessoa que comprou lote da Fazenda Colonial e ingressou na Justiça foi Severiana Rosa Castro Nascimento. O contrato dela teria sido assinado no dia 20 de março de 2017, referente a um imóvel de R$ 54.000,00. Outro comprador, que preferiu não ter seu nome informado nesta matéria, contou que também deixou de pagar as parcelas no ano passado. Ele afirmou ainda que pretende ingressar na Justiça, e que mesmo as obras sendo iniciadas em 2020, devido aos aborrecimentos, não quer permanecer com a compra.

Já em um “print” enviado por Camila Mendes do grupo de WhastApp, outra pessoa lamentava ter comprado um terreno na Fazenda Colonial para levar o seu pai e um sobrinho autista para curtir a natureza. “Esta semana (em junho), lembrei disso e comecei a chorar muito porque não consegui realizar este sonho do meu pai. Minha família gosta muito de ficar próximo à natureza”, dizia o relato.

“Quando eu e meu marido resolvemos investir no empreendimento, levamos em consideração a reputação da empresa, que era boa. E fomos cativados pelo slogan de venda ‘compre um lote, ganhe uma fazenda’, uma novidade a nosso ver. No entanto, a partir do momento que o Grupo Expansion não cumpriu as datas estabelecidas no contrato, referentes ao início das obras, e, que, consequentemente, atrasaria a entrega, passamos a nos preocupar”, declarou Alberlene Sousa De Oliveira Nascimento, que é coordenadora pedagógica.

Alberlene informou que a empresa já tinha feito outros empreendimentos em São Luís, e que tinha entregues sem contratempos, por isso quando fechou contrato, também teria sido motivada por uma ‘boa’ reputação do grupo. Ela contou que iniciou recentemente os primeiros passos na Justiça, com pedido de reparação por danos morais e materiais. A coordenadora pedagógica comprou dois lotes, cujas parcelas mensais foram de R$ 216,55 e R$ 218,49.

REALIDADE HOJE

A Fazenda Colonial fica logo no início de Bacabeira. A viagem de São Luís ao local é de cerca de uma hora de relógio. O lugar é marcado por vários lagos, o verde da vegetação nativa, e o vento fresco. Conciliado os encantos naturais com a estrutura prometida pelo Expansion, o endereço tinha tudo para ser um paraíso, como as pessoas que compraram lotes no empreendimento disseram ao Jornal Pequeno.

De acordo com a advogada Camila Mendes, foram vendidos centenas de pedaços de terra. A empresa construiria estradas, academia, restaurante, trilhas para passeios a cavalo, e estrutura de acesso aos lagos. Após essas construções, cada comprador construiria por conta própria sua casa no terreno, seguindo alguns critérios, ou seja, as residências seguiriam alguns padrões, um deles é que os imóveis não poderiam ter muro. E as pessoas poderiam constituir residência fixa no local, ou apenas passar feriados e fins de semana. Porém, sem nada feito, o espaço é apenas um imenso campo verde, sem atrativos.

GRUPO EXPANSION

Logo na entrada da Fazenda Colonial, há uma placa do Grupo Expansion, com o número da empresa, pelo qual o Jornal Pequeno tentou fazer contato sem sucesso. A conta no Instagram do Expansion não é movimentada desde 2018, pois o último post feito nela ocorreu há dois anos.

Na internet, existem pelo menos cinco reclamações no site “reclame aqui” contra o Grupo Expansion; duas estão com status de “não resolvidas” e as outras três com “não respondido”.

OUTRO LADO

Por meio de nota, a administração do espaço informou que “a Fazenda Colonial trata-se de um loteamento e não de condomínio de casas conjugadas”. Também foi dito que “as obras foram há muito iniciadas, todas as ruas foram desmatadas e abertas, bem como outras obras das quais os clientes têm ciência e podem facilmente ser verificadas no local ou por vídeo (https://youtu.be/ ux8z_6x3q-4)”.

E ainda que “prevendo os efeitos da pandemia do Covid-19, e reforçando seu compromisso com todos os seus clientes a Fazenda Colonial suspendeu, em fevereiro de 2020, toda e qualquer cobrança, inclusive de parcelas mensais, que continuarão suspensas até o reinício regular das atividades”.

A Fazenda Colonial informou, por fim, que “vem mantendo contato com todos os clientes e mantém seus canais de comunicação ativos para atender qualquer solicitação”.

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