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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Retorno do Maracanã coloca os dez quilômetros iniciais da BR-135 entre os trechos mais perigosos do país

Entre os problemas, estão buracos, mato alto e a própria localização, que não seria a adequada, e já resultou em muitos acidentes

Retorno, supostamente mal localizado, deu aos primeiros quilômetros da BR-135 a colocação entre os 100 trechos mais perigosos do Brasil (Foto: Gilson Ferreira)

A BR-135 padece dos problemas crônicos das vias administradas pelo poder público: má conservação e sinalização precária, que a tornam um risco para motoristas e pedestres. Entre as incontáveis reportagens feitas pelo Jornal Pequeno sobre a rodovia, desta vez, o assunto de maior importância é o retorno instalado no Km 7,6, que fica perpendicular à principal saída do bairro do Maracanã, zona rural de São Luís.

Com 15 acidentes registrados em 2020, o trecho desponta como gargalo da segurança viária. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), devido ao alto índice de acidentes no retorno, os dez quilômetros iniciais da BR-135 aparecem entre os 100 trechos de estradas federais mais perigosos do Brasil.

“O retorno do bairro do Maracanã contribui, decisivamente, para colocar os dez quilômetros iniciais da BR-135, entre os 100 trechos com maior número de acidentes no país. No local, não deveria ter um retorno. Devido à abertura no canteiro central da rodovia ter sido feita em um local impróprio, desde a década de 1970 há registros de acidentes graves na área”, informou o chefe do Departamento de Comunicação da Polícia Rodoviária Federal (PRF), no Maranhão, o inspetor Antônio Noberto.

Quem sai do Maracanã, pela Rua Principal, dá “de cara” com o retorno. Logo, tanto os veículos que seguem em direção ao Estreito dos Mosquitos quanto os que saem daquele bairro se cruzam exatamente em frente à abertura no canteiro da rodovia, ou no momento em que fazem a curva a fim de voltar para São Luís. Há disputa na pista e excesso de velocidade nesse cruzamento. É ‘zero’a tranquilidade para quem está ao volante, e estresse até aos olhos de quem somente observa o trânsito caótico, no local.

O comerciante Nelson Alves dos Santos, de 51 anos, mora numa casa rente à Rua Principal, e em frente ao retorno. Ele contou que reside no mesmo endereço desde que nasceu. O comerciante tem no salão de sua residência um mercadinho, onde fica praticamente o dia inteiro; e, por isso, disse presenciar rotineiramente os acidentes.

Temeroso que o tráfego frenético no local afete a estrutura do seu imóvel, Nelson disse que tanto na lateral de sua casa, na Rua Principal, quanto na frente da residência, na BR-135, colocou muretas e ferragens, que, de alguma forma, poderiam frear um veículo de avançar para a sua propriedade.

“O Km 7,6 é um ponto crítico da rodovia. Com a estrada em mão dupla, os veículos que saem da Rua Principal do Maracanã fazem um cortena pista para utilizarem o retorno. Por outro lado, os veículos que estão seguindo pela rodovia nem sempre se atentam aos que entram nessa área, daí há constantes colisões nas laterais e traseiras de carros e motos. No início da manhã, por volta das 6h, é coisa de louco aqui”, comentou o comerciante e morador do Maracanã, Nelson Alves.

A LOCALIZAÇÃO

De acordo com Antônio Noberto, a localização do retorno é um declive, no sentido crescente – que segue para o Estreito do Mosquitos. O inspetor da PRF informou que os veículos descem em alta velocidade, mesmo havendo buracos pelo caminho e dentro do retorno.

O policial rodoviário disse, também, que os veículos tentam fazer o retorno sem respeitar a preferencial, e que a velocidade alta ocorre nos dois sentidos da BR-135, tanto no crescente quanto no decrescente – que segue para o centro de São Luís.

Nesta semana, a reportagem do Jornal Pequeno esteve no local, quando confirmou o que já havia sido dito pelo inspetor Noberto, além de registrar alguns problemas estruturais no retorno e em suas imediações.

Durante a apuração, o motorista de ônibus do transporte público Cláudio Silva, de 45 anos, buzinou para a equipe e apontou para uma placa de “PARE”, dizendo que a sinalização foi instalada numa posição que torna difícil para o condutor visualizar os carros que se aproximam do retorno, enquanto ele fica parado na passagem do canteiro, esperando um oportuno momento para concluir o movimento de retornar.

SOLICITAÇÕES DE MELHORIAS AO DNIT

Antônio Noberto informou que, para resolver ou minimizar o problema, o trecho precisa de redutores de velocidade nos dois sentidos da via. “É preciso desbastar o mato regularmente, tapar os buracos da área, retirar o retorno do local, e construir outro a 500 metros do que existe atualmente, próximo ao quebra-molas. E o retorno decrescente ficaria depois da Vila Sarney”, informou o inspetor.

Noberto mencionou ainda a necessidade de ser construído um elevado, que ele garantiu já ter feito o pedido ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), de projeto e implantação dessa estrutura.

“A comunidade do Maracanã, o Dnit, e eu, representando a Polícia Rodoviária Federal, já nos reunimos, a convite do órgão federal, para discutirmos a resolução do problema de o retorno estar onde está. Inclusive, falamos sobre o ele ser construído a 500 metros de sua atual posição; isso iria zerar os acidentes no trecho”, frisou.

A moradora e líder comunitária do Maracanã Odelina Ferraz, de 50 anos, disse que participou da reunião comentada por Antônio Noberto, assim como de outras. “Desde 2015, existem reuniões entre a comunidade e o Dnit. Há cinco anos, o Departamento informou que não tinha recursos financeiros para resolver o problema do retorno. Dois anos atrás, o órgão comunicou que contrataria uma empresa para realizar um projeto de engenharia de tráfego para o trânsito, mas não houve mais notícias sobre este assunto”, afirmou Odelina.

De acordo com a moradora, devido ao retorno no Km 7,6, há engarrafamentos constantes na localidade. “Logo após os ônibus coletivos saírem por detrás do Terminal de Integração, os motoristas ficam presos cerca de 15 minutos no engarrafamento. Esse é problema social, surgido devido às questões estruturais da rodovia”, informou Odelina.

PRF REGISTROU 91 ACIDENTES NA BR-135, DENTRO DE SÃO LUÍS

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, desde janeiro de 2020, houve 91 acidentes nos primeiros quilômetros a BR-135, em dois trechos. O primeiro, de 24 quilômetros de extensão, fica entre o Km 0 (localizado no bairro do São Cristóvão) e a Ponte do Estreito do Mosquito. O segundo, de 20 quilômetros de extensão, entre a área urbana de Ananandiba, passando pela região portuária até a barragem do Bacanga.

“Desses 91 acidentes, 15 foram entre o Km 6 e o Km7, ou seja, 16% das ocorrências dentro de São Luís aconteceram na área em que está o retorno do Maracanã. Foram dois óbitos no retorno do Maracanã, de dois motociclistas, sendo que um morreu no hospital e outro no local. Tudo isso neste ano de 2020”, informou o inspetor.

No começo deste mês, na quinta-feira (2), sexta (3) e no sábado (4), foram registradas colisões no retorno. Entre os acidentes, um envolveu uma caminhonete e um ônibus do transporte coletivo.

ACIDENTE COM MORTE

No dia 16 de junho, deste ano, uma colisão entre uma motocicleta e uma caçamba resultou na morte do jovem Jefferson Rabelo Silva, de 29 anos, que pilotava a moto. O acidente ocorreu no Km 7,7 da BR-135, na região do Maracanã.

De acordo com a PRF, o motociclista, que estava na companhia de outra pessoa, trafegava no sentido decrescente da BR-135, quando foi surpreendido por uma caçamba atravessando a rodovia. Na ocasião, segundo a PRF, Jefferson não conseguiu desviar e bateu na lateral esquerda do veículo de carga. O motociclista morreu no local. A outra vítima, identificada como Márcio André Soares Rubim, foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Os dois trabalhavam na empresa de refrigerantes Psiu.

À época, em nota, a empresa lamentou o acidente e decretou luto oficial de três dias pela morte de Jefferson, que trabalhava há anos no local, e exercia a função de operador de sopradora.

OUTRO LADO

Por meio de nota, o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (Dnit) respondeu que o órgão tem conhecimento dos problemas apontados. “Há um estudo do Dnit para elaborar um projeto de adequação para atender, com a maior brevidade possível, as melhorias desse segmento da BR135. O Contrato atual nesse trecho ainda não abrange esse trecho, mas a equipe técnica do Dnit já tem estudo e planejamento em andamento para atuar com melhorias no em toda a extensão da rodovia”, informou a nota.

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