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Cultivo superprecoce de feijão melhora produtividade e resistência a pragas

Photo: Sebastião Araújo Produtores anunciam bons resultados de produtividade da BRS FC 104 Planta começa a produzir em 65 dias, em vez dos 90 dias do feijão tradicional. Apresenta alta produtividade média, de 3,8 mil quilos por hectare. Custos de água e eletricidade no cultivo são cerca de 30% menores. É mais resistente às doenças […]

Photo: Sebastião Araújo

Sebastião Araújo - Produtores anunciam bons resultados de produtividade da BRS FC 104

Produtores anunciam bons resultados de produtividade da BRS FC 104

  • Planta começa a produzir em 65 dias, em vez dos 90 dias do feijão tradicional.
  • Apresenta alta produtividade média, de 3,8 mil quilos por hectare.
  • Custos de água e eletricidade no cultivo são cerca de 30% menores.
  • É mais resistente às doenças do feijoeiro.
  • Produz grãos de alta qualidade que são bem aceitos pelo consumidor.
  • Tempo de produção reduzido diminui número de aplicações de defensivos.
  • Com menor tempo no campo, planta enfrenta menos riscos como os de sofrer com épocas de pragas e períodos de seca.

O cultivo superprecoce de feijão é a mais importante inovação do melhoramento genético dessa cultura no Brasil. Pesquisadores e produtores comprovaram que a prática promove elevado potencial produtivo, baixo custo de cultivo, resistência a doenças, boa qualidade de grãos e bom desempenho nutricional. Dois anos depois do lançamento da primeira variedade superprecoce desenvolvida no País pela Embrapa Arroz e Feijão (GO), a BRS FC104, produtores começam a anunciar bons resultados de produtividade (média de 3.792 kg/ha) em um ciclo de 65 dias, bem menor do que o de 90 dias, necessário ao plantio do feijão convencional.

“A Embrapa acertou com essa cultivar,” comemora o produtor Kenes Pereira, de Santa Helena de Goiás, que utilizou o feijão carioca BRS FC104 e conseguiu colher 50 sacos por hectare, a um custo estimado de R$ 3 mil reais. Levando em conta o bom momento do preço do feijão no mercado no primeiro semestre de 2020, o lucro foi compensador.

Segundo o pesquisador da Embrapa Leonardo Melo, o resultado comprova as expectativas da Empresa, que há quatro décadas investe em pesquisas genéticas para gerar variedades melhoradas de feijoeiro-comum com redução no tempo de cultivo. “Os esforços nessa área resultaram na BRS FC104, em 2018, considerada uma das maiores conquistas do melhoramento genético de feijão no Brasil”, destaca.

Melo acrescenta que a precocidade permite rápido retorno do capital investido e maior flexibilidade no manejo dos sistemas de produção, economia de água e energia elétrica nos sistemas irrigados, além de atenuar problemas com pragas e estresse hídrico pelo planejamento antecipado. “Por isso, é uma característica cada vez mais valorizada no agronegócio do feijão”, pontua.

A evolução da pesquisa: da natureza à precocidade

Os experimentos iniciais tiveram como base materiais de grãos de origem andina, que têm a precocidade por característica natural, variando de 70 até 80 dias, ciclos normalmente mais curtos que os grãos de origem mesoamericana. Na década de 1980, a Embrapa Arroz e Feijão lançou a cultivar Jalo Precoce, a primeira com uma redução importante no tempo de cultivo, de 70 a 75 dias. Em 2002, foi desenvolvida a BRS Radiante (foto acima), cultivar do tipo rajado, precoce (80 dias, da emergência à maturação) e com potencial para exportação. Assim, se consolidou a eficiência da pesquisa sobre o tema.

Melo lembra que o desenvolvimento dessas duas cultivares foi um grande passo no trabalho, mas elas ainda eram materiais de grãos especiais, cujo mercado apesar de consolidado, ainda é pequeno no Brasil. Segundo o Plano Nacional de Desenvolvimento da Cadeia do Feijão, publicado em 2018 pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o consumo anual per capita do brasileiro chega a 17 quilos.

Para atender a essa demanda, as três safras anuais (“das águas”, “da seca” e “de inverno”) vêm produzindo, em média, cerca de 3,1 milhões de toneladas. Os grãos de feijão carioca se destacam, representando 70% desses números. Esse cenário orientou a pesquisa a desenvolver cultivares desse tipo comercial, visando a satisfazer às exigências do setor produtivo.

A primeira cultivar de origem mesoamericana, grão menor, desenvolvida no Brasil com redução do tempo de cultivo foi a BRS Campeiro (foto à direita), do tipo preto, muito produtiva e com 80 dias de ciclo. Em 2005, com o lançamento pela Embrapa da BRS Cometa, teve início a era das cultivares do tipo carioca de ciclo reduzido. Devido ao grão um pouco escuro, apesar de diversas qualidades positivas, ainda apresentava certa rejeição do mercado.

A BRS Cometa não foi muito adotada, mas abriu caminhos para cultivares carioca, que agradam mais ao mercado. Logo depois, veio a BRS Notável (foto à esquerda), que corrigiu defeitos da BRS Cometa, aumentando a produtividade e a resistência a doenças, mas ainda tinha o mesmo problema da coloração escura, pouco comercial no mercado convencional, mas uma boa opção em nichos alternativos relacionados à agricultura familiar e orgânica.

“Foi uma cultivar muito utilizada em cultivo agroecológico, agricultura familiar, nos quais não se dá tanta importância à coloração do grão, já que a qualidade culinária é a mesma. Além de muito produtiva, é a mais resistente a doenças já desenvolvida até hoje pela Embrapa. Apresentando resistência a antracnose, crestamento, murcha de curtubaterium e fusárium”, pontua o pesquisador.

 

Inovação surpreendeu o mercado

Até o lançamento da BRS FC104 (foto à direita), primeira cultivar superprecoce do mercado, todas as cultivares desenvolvidas eram de ciclo precoce ou semiprecoce. A superprecocidade representou um salto quantitativo e qualitativo na gestão da safra de feijão pelos benefícios competitivos que apresenta, como o elevado potencial produtivo (produtividade de 60 kg de grãos, em média, para cada dia de ciclo) e redução de cerca de 30% dos custos com eletricidade e água no cultivo. Possui ainda características que garantem a boa aceitação do mercado, como resistência a doenças, qualidade de grãos e valores nutricionais.

O pesquisador destaca também que devido ao ciclo reduzido, a tendência é que se faça menos pulverizações com defensivos. “No período em que ocorre o pico de ocorrência dos insetos e de doenças, o produtor já terá feito a colheita”, afirma. Esse fator aumenta a qualidade do produto, pois reduz a possibilidade de ocorrência de resíduos químicos, além de diminuir o impacto no meio ambiente.

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