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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

“Árvores candidatas a levarem mais pedradas”

“Árvores que nos dão bons frutos são as candidatas a levarem mais pedradas”   por William Marchió Médico veterinário pela UNESP – campus de Jaboticabal, especialização em produção animal pela UFLA e atual Consultor senior da CRIATEC – Consultoria em Agronegócios. Foto: Integração Pecuária Floresta, Ipamerí – Goiás – William Marchió E o mundo ficou muito […]

“Árvores que nos dão bons frutos são as candidatas a levarem mais pedradas”

 

por William Marchió

Médico veterinário pela UNESP – campus de Jaboticabal, especialização em produção animal pela UFLA e atual Consultor senior da CRIATEC – Consultoria em Agronegócios.

Foto: Integração Pecuária Floresta, Ipamerí – Goiás – William Marchió

E o mundo ficou muito chato, nossa agropecuária tropical, baseada em ciência, está provando ter uma eficiência inigualável. Seja do ponto de vista de produção, de custo e de geração de emprego e renda, também e principalmente no que tange a aspectos de sustentabilidade sócio ambiental.

Temos 45% de fontes renováveis em nossa matriz energética, enquanto a média mundial fica em 14%, somos o país que mais consome biocombustíveis. Em relação às emissões per capita de gases de efeito estufa estamos bem longe dos principais países emissores, temos um código florestal rigoroso e aplicado, temos mais de 66% de nosso território com cobertura natural preservada e ainda por cima, temos inúmeras inovações tecnológicas aplicadas ao campo que conferem ao nosso agronegócio condutas invejáveis em direção à produção sustentável, temos a ILPF, tecnologias do grupo ABC*, temos a destinação adequada de embalagens de defensivos, temos a aplicação de conceitos da economia circular, o processamento de resíduos da agropecuária, temos uma legislação trabalhista extremamente rigorosa e aplicada e por fim uma série de tecnologias emergentes em prol da sustentabilidade, monitoramento por satélites, insumos biológicos, agricultura de precisão e IoT** no campo, entre outras.

E isso, ao invés de ser visto de forma positiva, estamos tomando pedradas de todos os lados, até de alguns ditos patriotas. Algo que, a princípio, está resgatando o país por gerar emprego, renda e divisas pela exportação e de forma sustentável, cai na boca de alguns como se nossa produção agropecuária fora obra do demônio.

Com as redes sociais, uma janela escancarada para o mundo, qualquer idiota consegue expor suas opiniões, jogar no ventilador tudo que pensa, e pior, alguns destes tem mais seguidores que a Marilyn Monroe.

Ultimamente essa coisa tomou proporções como as torcidas organizadas dos times de futebol. Agressões de todos os lados, o radicalismo impera, e daí o “pau come”, ecologista contra ruralista, vegano contra carnívoro, corintiano contra são-paulino, uma triste realidade onde todos perdem.

Agora me pergunto, quem criou essa polarização, a quem interessa a criação dessa discórdia?

Uma coisa é clara, isso não é bom a nenhum brasileiro trabalhador, seja para os rurais ou urbanos.

Mas pintar o Brasil como o pior país do mundo, que só desmata e queima floresta deve ser muito positivo para os nossos concorrentes no mercado internacional do agro. Utilizar politicamente essas alegações também irá facilitar a vida de alguns.

Vivemos um momento em nosso país que impera uma dicotomia trágica, onde tudo assume uma postura ideológica e de “nós contra eles, elas, …” e assim se alimenta um racha entre diferentes nichos da população, transformando toda a notícia com duas verdades. Daí tem gente atacando o agro e outros defendendo, e quem ataca não tem a mínima razão e quem defende também o faz com pouca propriedade. Ao assistirmos esses embates nas redes sociais chega a dar ânsia, quanta desinformação. Acaba como em uma partida de futebol, gol de um lado, gol de outro lado, a torcida da direita querendo a morte da torcida da esquerda. E enquanto todos se distraem, os ratos vão agindo.

mea-culpa se deve ao fato de nós do agro nos comunicarmos muito mal, somos bons para “pregar a convertidos”, na hora de discursar em um palco de urbanoides falhamos gravemente, o “agro não é POP”. E não é dessa forma que vamos mostrar o quanto o agro é maravilhoso.

Me dediquei um pouquinho a entender como isso acontece em outros países; por lá existem programas apresentando o produtor como verdadeiro herói, como o caso da BBC de Londres “BBC seeks food and farming heroes”, outros com campanhas extremamente adequadas ao público urbano, levando o consumidor a valorizar sobremaneira o alimento, fibras e energia que esse produtor entrega, ações no Peru e nos Estados Unidos que tocam o coração das pessoas, direcionado cirurgicamente ao público de seu país, mostrando a realidade da produção diária de alimentos, fibras e combustíveis e o esforço que esse produtor faz diariamente para manter essa produção.

Enfim, é o que temos para hoje. O correto é arregaçar as mangas e trabalhar duro. Ainda damos sorte que, em nossa agricultura tropical baseada em ciência, produzir de maneira sustentável em nosso país é bem mais rentável que produzir de maneira convencional, as tecnologias da agricultura de baixa emissão de carbono, também entregam mais valor econômico ao produtor que as tecnologias convencionais, o plantio direto, a integração lavoura pecuária floresta, a reforma e manutenção das pastagens, a manutenção da biologia dos solos, o uso de resíduos na agricultura, a agricultura de precisão, enfim todas estas ações entregam muito valor.

Existe uma enorme quantidade de dinheiro para ações ligadas à produção sustentável, os ditos Green Bonds, investidores com trilhões de dólares que buscam projetos com a pegada da sustentabilidade. Títulos verdes são emissões de dívida para financiamento de projetos com benefícios ambientais mensuráveis, auditados por organizações ou empresas independentes e que podem e devem entrar forte para estruturar ainda mais o agronegócio brasileiro.

Apenas necessitamos mostrar de forma objetiva nossas ferramentas que medem isso. Buscar esses recursos, nos ligarmos às nossas instituições como a Embrapa e nossas universidades, que possuem um enorme cabedal destas ferramentas, APPs e protocolos, que podem ser aplicadas à nossa produção e com isso apresentar de forma clara nossa realidade agro sustentável.

Quebrar essas muletas protecionistas de alguns blocos econômicos e não ficarmos passivamente ouvindo o destrato de nossas ações por quem não chega nem próximo aos nossos excelentes números é nosso dever. Com muita ciência, com bons processos e uma comunicação eficiente, podemos nos posicionar como o agronegócio mais sustentável do mundo.

* ABC – Agricultura de Baixo Carbono
** IoT – Internet das Coisas

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