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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

A influência da sanidade no bem-estar animal em sistemas de confinamento

Nosso convidado dessa semana é Matheus Fagundes, médico veterinário e palestrante em uma das Trilhas de Conhecimento

Entrevista com o médico veterinário, Matheus Fagundes

Matheus Fagundes é médico veterinário, graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), atualmente atua como consultor técnico da Elanco Saúde Animal com experiência nas áreas de produção animal (com ênfase em pecuária de corte e leite), gestão e vendas

Foto: Scot Consultoria

Nosso convidado dessa semana é Matheus Fagundes, médico veterinário e palestrante em uma das Trilhas de Conhecimento do Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria. Matheus bateu um papo conosco sobre sanidade e bem-estar animal em confinamento, duas variáveis que merecem muita atenção em qualquer ciclo de produção animal. Confira!

Matheus Fagundes é médico veterinário, graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), atualmente atua como consultor técnico da Elanco Saúde Animal com experiência nas áreas de Produção Animal (com ênfase em Pecuária de Corte e Leite), Gestão e Vendas.

Scot Consultoria: Na sua opinião qual a importância de um evento como o Encontro de Recriadores para a pecuária nacional?

Matheus Fagundes: A Scot Consultoria vem a cada ano mostrando a força do setor agropecuário brasileiro e em 2020 não foi diferente. A reinvenção e a rápida adaptação ao novo normal fizeram com que o evento fosse um sucesso. Momento oportuno para a reciclagem e consolidação de alguns conceitos através da altíssima qualidade técnica dos apresentadores.

Este tipo de evento é extremamente relevante para o setor como um todo, pois, além da troca de experiências entre os elos da cadeia de pecuária de corte, permite a geração e a difusão de conhecimento, contribuindo para o desenvolvimento da pecuária nacional.

Scot Consultoria: Matheus, o bem-estar animal vem sendo uma das teclas mais batidas nos últimos anos, como começou essa importância do bem-estar animal? O pecuarista de hoje já enxerga essa prática como investimento ou ainda como custo?

Matheus Fagundes: A ideia de bem-estar animal realmente não é novidade. No entanto, estudos e discussões a respeito do tema parecem ter sido potencializados nos últimos anos em decorrência da intensificação e profissionalização dos sistemas pecuários, além da pressão dos mercados consumidores.

No passado as abordagens sobre o tema se baseavam nas cinco liberdades dos animais de fazenda, as quais norteavam as boas práticas de manejo. Hoje assumimos que o bem-estar tem quatro princípios: nutrição, saúde, conforto e comportamento.

O conceito de bem-estar se refere ao estado de um corpo em relação às tentativas de adaptação a um ambiente. Ou seja, quanto mais adaptado o animal está àquele ambiente, melhor será o seu bem-estar. Por isso é importante enxergar esses quatro princípios como fatores limitantes, isto é, devem estar em sintonia para o desenvolvimento de um estado de bem-estar aos animais confinados.

Ainda existem pecuaristas que enxergam o bem-estar como uma ideia utópica com certas resistências no campo, mas o tema já avançou muito. A ciência tem mostrado as diversas vantagens da adoção de medidas de bem-estar, como aumento da produtividade e melhora na eficiência econômica dos sistemas de confinamento.

Sem dúvida o pecuarista deve enxergar a adequação aos sistemas como um investimento, que inclusive tem retorno garantido. Quanto maior for o bem-estar, mais rápido o bovino vai se adaptar ao sistema e melhor será o seu desempenho. É lucro para o produtor.

Scot Consultoria: Para quem acompanhou o ECR 2020, as três dicas de sanidade para melhorar o bem-estar animal estão direta e indiretamente ligadas, poderia comentar brevemente sobre essas dicas? Quais os retornos econômicos o produtor pode ter em seu rebanho?

Matheus Fagundes: É importante que tenhamos uma visão holística do sistema de confinamento, ou seja, enxergar com clareza quais são os processos para entender os pontos de atenção. As variáveis como transporte dos animais até o confinamento, período de adaptação na chegada, protocolo sanitário de entrada, apartação em lotes homogêneos e um manejo tranquilo e sem estresse são pontos chaves para o sucesso no resultado do confinamento.

As três dicas para melhorar o bem-estar animal visam promover saúde e conforto através de medidas preventivas das principais doenças dos confinamentos. A doença respiratória bovina (DRB), por exemplo, é uma doença multifatorial e tem alta prevalência nos sistemas de confinamento representando um fator limitante para o bem-estar animal. Através da redução de fatores estressantes (poeira, barro, superlotação, mudança de alimentação, etc) e a utilização de uma vacina com amplo espectro de ação contra vírus e bactérias (Bayovac® RD) visamos aumentar a imunidade dos animais reduzindo a morbidade da DRB.  Além disso, é fundamental optar pela utilização de um parasiticida de amplo espectro de ação (Trucid®) aliado a um composto vitamínico de alta concentração (Vigantol®) para estimular o consumo do alimento ofertado aos animais e auxiliar no processo de adaptação a uma nova dieta.

Em termos de custo, a sanidade representa menos de 2% dentro do sistema de confinamento, então não podemos negligenciar a adoção de um protocolo sanitário completo e efetivo na entrada dos animais. O retorno econômico é visto na eficiência biológica, GMD (ganho médio diário), acabamento de carcaça, melhora no rendimento e ganho líquido, por exemplo. É essencial que o produtor meça seus índices produtivos, mas mais importante ainda é saber analisá-los.

Scot Consultoria: É importante realizar um período de adaptação a pasto dos animais recém-chegados no confinamento visando reduzir o estresse ou até mesmo um período de descanso mínimo?

Matheus Fagundes: Sem dúvida! O período de descanso e adaptação na chegada dos animais na fazenda é fundamental. O transporte é a primeira etapa de maior estresse para os animais e interfere diretamente na imunidade, principalmente em viagens longas. Então é importante dar a oportunidade para os animais se recuperarem do estresse da viagem em um ambiente com água e pastagem de boa qualidade, evitando realizar o processamento logo após o desembarque. Devemos considerar um período mínimo entre 12 e 24 horas de descanso para animais transportados até 6h. Em casos de viagens mais longas o período se estende entre 24 e 48 horas.

Outro fator estressante importante é a mudança de alimentação. Estratégias como adaptação em degraus ou escada (aumento gradual do % de concentrado na dieta) ou a adoção de um sistema “escolinha” com suplementação no pré-confinamento são interessantes.

Scot Consultoria: Quão desafiador é o ambiente de confinamento que nós estamos oferecendo para os bovinos?

Matheus Fagundes: Existem diversas realidades de sistemas de confinamento no Brasil inteiro. Logo, os desafios vão variar de acordo com a região do país (regime pluviométrico, temperatura média, incidência de luz solar, poeira, barro, etc) e o nível de investimento nos sistemas. O fundamental é compreender que o bovino é um herbívoro pastejador, então o desafio é fazer com que ele se adapte o mais rápido possível à nova dieta, ao ambiente e ao reagrupamento, para que possa entregar o seu máximo desempenho.

Scot Consultoria: Em relação às exigências do mercado interno e externo, quais os principais desafios encontrados nas práticas de bem-estar animal hoje? Quais as expectativas a longo prazo?

Matheus Fagundes: O tema de bem-estar animal tem importância internacional e muitas vezes é uma barreira não tarifária para negócios da carne brasileira. O consumidor está cada vez mais exigente e cresce a demanda por produtos cárneos que respeitem os princípios de bem-estar e a maneira que os bovinos são produzidos, transportados e abatidos. Inclusive, há programas específicos que visam organizar propriedades com base nos conceitos de segurança alimentar, responsabilidade ambiental e social e bem-estar animal.

Da porteira para dentro, o principal desafio é a capacitação e treinamento constante dos colaboradores. Para produzirmos animais e, consequentemente, carne de qualidade, temos que ter colaboradores de qualidade, capacitados e satisfeitos com seu trabalho. É necessário que se assuma uma cultura empresarial com foco na gestão de pessoas.

O bem-estar animal já é uma realidade necessária e quem não estiver atento a esse tema está comprometendo o seu resultado. É importante enfatizar que promover bem-estar aos animais beneficia toda a cadeia e, além de entregar um produto de qualidade para o consumidor, reflete diretamente na saúde produtiva e econômica dos sistemas de confinamento.

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