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Aluna deficiente auditiva da Faculdade Pitágoras contraria estatísticas e conclui graduação em Estética e Cosmetologia

Com ajuda de intérprete, aluna criou símbolos próprios em Libras para facilitar o aprendizado.

Jéssica Campos, que juntamente com o interpreté Rian Arouche, elaborouu um glossário específico (Foto: Divulgação)

Jéssica Campos, de 29 anos, conquistou recentemente um sonho ainda incomum entre os deficientes auditivos brasileiros: obteve a formação no curso de Tecnologia em Estética e Cosmetologia, na Faculdade Pitágoras de São Luís. Segundo estudo realizado pelo Instituto Locomotiva e a Semana de Acessibilidade Surda, o Brasil conta com 10,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva e, dessas, apenas 7% têm ensino superior completo, 15% frequentaram até o ensino médio, 46% até o fundamental e 32% não possuem grau de instrução. Os dados mostram que, ao realizar o seu sonho da graduação no Ensino Superior, a maranhense contrariou as estatísticas.

Com a mãe empreendedora, dona de um salão de beleza, Jéssica teve a certeza que esta seria a sua área profissional. “Minha primeira opção foi o curso de Pedagogia, pois gosto da profissão e a comunidade surda sempre nos impulsiona a seguir a área de educação. Porém, por sempre acompanhar a rotina da minha mãe, eu comecei a ajudá-la no salão de beleza e me apaixonei. Foi então que tranquei o curso de Pedagogia e resolvi me jogar nos estudos que tratam de beleza estética e saúde”, afirma.

Surda de nascença, a jovem começou a aprender a segunda língua oficial do Brasil, a Língua Brasileira de Sinais (Libras), aos 9 anos. Mesmo assim, não foi fácil. Ainda no início do curso, ela se deparou com o primeiro obstáculo: termos específicos utilizados com frequência na área, como a palavra argila, por exemplo, ainda não estavam contemplados em Libras.

Jéssica não pensou duas vezes e decidiu usar sua determinação e criatividade para inovar: criou sinais próprios para conseguir entender o conteúdo e acompanhar as disciplinas.

Linguagem própria em LIBRAS 

“Juntamente com Rian Arouche, tradutor e intérprete de LIBRAS que me acompanhou ao longo dessa trajetória, consegui elaborar um glossário específico com sinais da Estética e Cosmética. Com certeza, foi o melhor caminho para que eu pudesse me apropriar dos conceitos e termos técnicos utilizados”, explica.

A participação de Rian, profissional contratado da Faculdade Pitágoras, foi fundamental para a integração da ex-aluna. A unidade também conta com outro intérprete, que assessora alunos portadores de deficiência auditiva de acordo com a demanda dos cursos.

Para a coordenadora do curso de Estética da Faculdade Pitágoras, Patrícia Crosara, a adaptação das palavras para Libras terá papel fundamental na inclusão de outras pessoas com deficiência auditiva que queiram ampliar seus conhecimentos na área.

“A Jéssica, sem dúvida, é uma inspiração para todos nós, seja pela criatividade ou pela proatividade em lidar com os desafios. Ela realizou um feito que ajudará muitas pessoas a entenderem que há lugar para todos no mercado de trabalho, na faculdade e onde quiserem”, acrescenta. 

Agora, já graduada, Jéssica realiza o sonho de ser uma empresária ao inaugurar o Librastetic, um espaço que funciona como esmalteria e estúdio de beleza. “Quando a pandemia acabar e as coisas voltarem ao normal, pretendo continuar estudando e me qualificando cada vez mais. Quero iniciar em breve uma pós-graduação na Pitágoras, usando a bolsa integral que ganhei da instituição. Meu sonho de empreender já está em andamento, recentemente abri o meu próprio negócio, que tem como foco o atendimento de surdos, ouvintes e outras pessoas com deficiência, principalmente em serviços de sobrancelha, manicure, pedicure, hena, depilação, limpeza de pele, entre outros”, ressalta.

“A beleza é muitas vezes vista pela sociedade de forma pejorativa, fútil, virou um artigo de luxo para poucos. Para mim, ela deve ser resgatada como algo de dentro para fora, que vai além da estética e que traz consigo o empoderamento e a elevação da autoestima, podendo ser um instrumento de inclusão social efetiva, permitindo ao ser humano sentir-se mais independe, autônomo e seguro”, complementa.

Usando o conhecimento adquirido no curso superior em Tecnologia em Estética e Cosmetologia, Jéssica deixa um conselho: “Ao refletir sobre o ensino de estética para todos, estamos tratando as pessoas com deficiência como consumidores, pacientes, alunos e, principalmente, como cidadãos”, completou.

O curso de estética ofertado pela Faculdade Pitágoras conta com a maior clínica-escola de estética do estado, onde alunos supervisionados por professores oferecem serviços gratuitos à população.

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