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O ÓRGÃO DAS MULTIDÕES

Sem Samu desde 2020, pacientes de Paço do Lumiar correm risco de morte por falta de ambulância

Município foi descredenciado pelo Ministério da Saúde, em decorrência de irregularidades na transparência e aplicação de recursos.

Samu de Paço do Lumiar está desativado desde 2020, após descredenciamento pelo Ministério da Saúde (Foto: Divulgação)

Se no Maranhão sempre houve pacientes que enfrentam longas viagens, algumas de até 24 horas, de cidades do interior em busca de atendimento em São Luís, conforme um histórico de matérias feitas pela imprensa maranhense, ao longo de décadas, há também quem sofre mesmo tendo o atendimento a 23 minutos (9,4 km) de sua casa.

Na segunda-feira (9), Jailson José Costa Feques, de 49 anos, passou mal, sua traqueostomia sacou, que é seu aporte respiratório. Ele mora no Conjunto do Maiobão, em Paço do Lumiar, e precisava ser levado para o Hospital Municipal Clementino Moura (Socorrão 2), no bairro Cidade Operária, na capital.

Paço do Lumiar não tem Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), e Jailson quase seria uma vítima fatal desta situação.

Há algum tempo, Jailson Feques sofreu um acidente de motocicleta e teve traumatismo craniano. Desde então, ele usa traqueostomia e está em situação acamada, e para ser levado a uma unidade médica, não é qualquer veículo que serve de transporte, mas sim uma ambulância.

Há três dias, a traqueostomia de Jailson, que é o aporte respiratório, cuja função é facilitar a entrada de ar aos pulmões, sacou. Devido a isso, ele teve febre de 39 graus e saturação de 79.

Desde o meio-dia de segunda-feira, 9, familiares de Jailson fizeram dez ligações para o 193, para pedir uma ambulância a fim de leva-lo para o Socorrão 2. O paciente somente foi socorrido às 16h18, por uma ambulância do Corpo de Bombeiros.

Em um ato de desespero, os familiares telefonaram para Izabella Gomes, que é a fonoaudióloga de Jailson. Foi ela quem procurou o Jornal Pequeno, a fim de denunciar a falta de ambulância do Samu em Paço do Lumiar, e a demora de mais de quatro horas da ambulância do Corpo de Bombeiros para chegar à casa do paciente.

“O paciente está dessaturando, está com febre altíssima. Jailson está com um desconforto respiratório muito grande. ‘vi’ o momento em que ele morreria sem ser socorrido, e eu sem poder fazer nada, não podia colocá-lo no meu carro e levá-lo ao hospital”, disse Izabella, por áudio, ao JP, ainda na segunda-feira, enquanto a vítima estava com dessaturação de oxigênio.

Jailson, supostamente, sobreviveu à quantidade de horas que ficou com saturação em 79 devido à sua idade, que pode ter dado condições de reserva cardíaca. Se fosse um paciente idoso, ou até mesmo um com patologia cardíaca, ele poderia aguentar apenas minutos.

A dessaturação de oxigênio pode evoluir para um quadro de infarto agudo de miocárdio. Apesar dos momentos de aflição sofridos no aguardo de uma ambulância, o caso de Jailson teve um final feliz.

De acordo com a fonoaudióloga Izabella, o paciente que foi levado na segunda-feira para o Socorrão 2, e teria sido transferido ontem (11) para um hospital público no bairro São Bernardo.

O motivo da transferência não foi informado por Izabella, mas ela garantiu que o estado de saúde de Jailson era estável.

“MEU FILHO ESPEROU CINCO HORAS POR UMA AMBULÂNICA”

No dia 6 de maio de 2022, o filho de Roberval Sousa Costa sofreu um surto psicótico e precisava de uma ambulância para ser levado a um hospital.

Roberval mora com a sua família em Paço do Lumiar. “Meu filho apanhou muito em dezembro de 2019, em uma situação que o envolveram. Desde então, ele tem surtos psicóticos, e precisa de ambulância que o leve ao hospital. Ficamos mais de cinco horas esperando o socorro, quando chegou foi uma ambulância do Corpo de Bombeiros”, informou.

De acordo com Roberval Costa, depois do surto psicótico, ele conseguiu convencer seu filho a ir no carro da família a um centro de recuperação.

“Ele está fazendo terapia, em uma casa mantida por doações, que é gerida pela Igreja Assembleia de Deus. Sem atendimento do Samu, Paço do Lumiar também está sem ações da Câmara de Vereadores e da Justiça, no sentido de punir a Secretaria Municipal de Saúde, por tamanha incúria”, disse Roberval.

SEM ATENDIMENTO ESPECIALIZADO

Em julho de 2021, uma mulher sofreu um acidente, em frente a lotérica do bairro do Maiobão, em Paço do Lumiar, e ficou mais de duas horas deitada no chão, com fortes dores, sem atendimento especializado.

A mulher se desequilibrou na calçada, e, para proteger o filho, caiu de mau jeito, quando supostamente quebrou o braço ou clavícula.

MINISTÉRIO DA SAÚDE DESABILITOU SAMU

Em outubro de 2020, o Ministério da Saúde desabilitou o Samu em Paço do Lumiar. O Município não cumpriu as normas do Sistema Único de Saúde (SUS) para continuar recebendo verba que manteria as ambulâncias.

Todo ano, R$ 805 mil eram enviados pelo Ministério da Saúde ao Samu de Paço do Lumiar. Desde então, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, que opera na Grande Ilha, orienta a população de Paço do Lumiar a procurar atendimento em ambulâncias do Corpo de Bombeiros.

O credenciamento do Samu, em Paço do Lumiar, ocorreu em meados de 2012, na gestão da ex-prefeita Bia Venâncio. A atual prefeita da cidade é Paula Azevedo.

Quando ocorreu a desabilitação do serviço, o Ministério da Saúde pediu ainda a devolução dos recursos federais, no período de abril a outubro de 2016. Em 2020, a sede do Samu ficava no prédio da Secretaria de Saúde de Paço do Lumiar. Nela, haviam duas ambulâncias novas, fabricadas em 2018, uma de suporte básico, e outra avançada, que estavam paradas.

Haviam outras ambulâncias também estacionadas no pátio da sede. Algumas tinham sido doadas pelo governo do Estado, outras por instituições, em contrapartidas sociais, sendo que todas estavam no processo de sucateamento.

PROBLEMAS DESDE 2018

Desde 2018, a falta de equipamentos, estrutura e de ambulância comprometiam o atendimento do Samu, em Paço do Lumiar. Naquela época, já faltavam aparelhos de reanimação cardíaca, medicamentos, além de infraestrutura na base.

A única ambulância pra atender a população foi doada pelo governo do Estado, sem monitor cardíaco ou desfibrilador usado pra reanimar pacientes com problemas cardíacos. A segunda unidade móvel de saúde da cidade estava na oficina.

OUTRO LADO

Em nota, a Prefeitura de Paço do Lumiar, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, informou que a gestão está em busca da regularização do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), já tendo iniciado o processo e que aguarda o retorno do Ministério da Saúde quanto à solicitação.

Comunicou ainda que os atendimentos de urgência estão sendo realizados com o suporte do Corpo de Bombeiros. Sobre o ocorrido na segunda-feira (9), está apurando as informações para tomar as medidas necessárias.

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