A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela recolocou Nicolás Maduro no centro do debate político brasileiro e abriu um novo flanco de desgaste para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva às vésperas da corrida eleitoral de 2026. Embora o governo tente dissociar a condenação ao ataque americano de qualquer defesa do regime chavista, o histórico de alinhamento da esquerda brasileira com Caracas voltou a ser explorado de forma intensa pela oposição.
Até 2023, a relação entre Lula, o PT e o governo venezuelano foi marcada por proximidade política e diplomática. Esse vínculo rendeu ataques recorrentes em campanhas eleitorais, inclusive na disputa presidencial de 2022, quando adversários associaram o projeto petista ao modelo político e econômico da Venezuela. No terceiro mandato, porém, o Planalto passou a adotar uma postura mais cautelosa, culminando na decisão de não reconhecer o resultado da eleição venezuelana de julho de 2024, contestada por suspeitas de fraude.
Com a captura de Maduro e a escalada do conflito internacional, o governo brasileiro optou por uma estratégia defensiva. O discurso oficial passou a enfatizar soberania, multilateralismo e respeito ao direito internacional, evitando manifestações explícitas em favor do chavismo. Segundo interlocutores do Planalto, a orientação é não oferecer combustível para a narrativa adversária em um momento em que o cenário eleitoral começa a se desenhar.
Analistas avaliam que a mudança de tom não é apenas diplomática, mas eleitoral. Para o cientista político Josué Medeiros, da UFRJ, a aposta no discurso da soberania permite ao governo tentar unificar diferentes setores do eleitorado e escapar da armadilha de defender um regime impopular no debate público brasileiro. Ainda assim, a estratégia enfrenta limites diante da força simbólica do tema na polarização política.
Levantamento da consultoria Ativaweb mostra que a prisão de Maduro teve repercussão majoritariamente positiva nas redes sociais brasileiras, o que amplia o potencial de exploração política do episódio. Mesmo sem pesquisas de opinião consolidadas, a leitura no meio político é de que a Venezuela segue sendo um tema sensível, capaz de influenciar narrativas e mobilizar eleitores.
A oposição tem explorado o episódio de forma agressiva, associando o PT ao narcotráfico e ao autoritarismo venezuelano. Declarações de parlamentares e líderes partidários geraram reações judiciais da esquerda, que tenta conter o avanço do discurso adversário. Ao mesmo tempo, imagens e declarações antigas de Lula em apoio a Maduro voltaram a circular, reforçando a estratégia de resgatar o passado como instrumento de desgaste.
O desconforto não se limita ao PT. Em eleições recentes, lideranças da esquerda, como Guilherme Boulos, passaram a adotar discurso mais crítico ao regime venezuelano, numa tentativa de neutralizar ataques e reduzir danos eleitorais. O movimento reflete o reconhecimento de que a associação com Maduro se tornou um passivo político relevante.
À medida que 2026 se aproxima, o caso venezuelano tende a seguir como tema recorrente no debate nacional. Para aliados e adversários, a crise expõe um dilema central da esquerda brasileira: como condenar intervenções externas sem herdar o ônus político de um alinhamento histórico com um regime amplamente rejeitado pela opinião pública.