O relatório produzido pela Polícia Federal sobre as conexões entre o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli e o empresário Daniel Vorcaro reúne registros de telefonemas entre ambos, o envio de um convite para a festa de aniversário do magistrado e conversas mantidas por Vorcaro com terceiros a respeito de pagamentos relacionados ao resort Tayayá, empreendimento ligado à família do ministro. O documento, com aproximadamente 200 páginas, foi entregue na segunda-feira ao presidente do STF, Edson Fachin, pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e passou a ser analisado no âmbito da Corte.
Embora não formule pedido expresso de suspeição, o relatório enumera elementos encontrados no celular de Vorcaro que, na avaliação dos investigadores, devem ser considerados para examinar a permanência de Toffoli na relatoria das investigações envolvendo o Banco Master. Integrantes do Supremo relataram que o conteúdo é sensível e que o encaminhamento dependerá da avaliação de Fachin, a quem cabe decidir sobre eventual medida relacionada à condução do caso.
Entre os pontos destacados está a transação realizada em 2021 envolvendo a empresa Maridt, da qual Toffoli é sócio ao lado dos irmãos José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli. À época, a empresa vendeu participação nas sociedades que administravam o resort Tayayá a um fundo de investimento administrado por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. O relatório menciona diálogos entre Vorcaro e Zettel nos quais o empreendimento é citado, além de referências a valores e repasses associados à operação.
Pessoas próximas ao ministro afirmam que o material inclui quatro ligações telefônicas entre Toffoli e Vorcaro e o envio de um convite para aniversário que não teria sido respondido. Segundo esses interlocutores, não há conteúdo que indique atuação conjunta ou interferência indevida. Já a Polícia Federal registrou no relatório as ocorrências encontradas no aparelho apreendido, contextualizando os contatos dentro do conjunto de elementos investigados no caso Master.
Em nota pública divulgada após a entrega do relatório, Toffoli afirmou que o documento contém ilações e sustentou que a Polícia Federal não tem legitimidade para requerer sua suspeição, por não ser parte no processo. O ministro declarou que eventuais esclarecimentos serão prestados diretamente ao presidente do STF. Ele também já havia informado que integra o quadro societário da Maridt, empresa de natureza familiar cuja administração é exercida por seus parentes, e que dividendos recebidos foram declarados à Receita Federal.
A relatoria do caso Master foi assumida por Toffoli após pedido da defesa de Vorcaro, que argumentou que a investigação deveria tramitar no Supremo em razão da menção ao nome de parlamentar com foro por prerrogativa de função. Desde então, decisões adotadas pelo ministro passaram a ser questionadas por integrantes da Polícia Federal e por membros do Ministério Público Federal, sobretudo em relação à centralização da custódia das provas no STF e à definição de procedimentos para a realização de depoimentos.
Entre as medidas que geraram controvérsia estiveram a determinação inicial para que a Polícia Federal não tivesse acesso imediato ao material apreendido na segunda fase da operação, a escolha de peritos específicos para análise dos dados e a fixação de prazos considerados exíguos para a realização de oitivas. Posteriormente, parte dessas decisões foi revista, com autorização de acesso ao Ministério Público Federal e, depois, à própria PF, ainda que sob condições definidas pelo relator.
O relatório entregue a Fachin também contextualiza o momento processual em que as decisões foram tomadas e menciona a existência de críticas internas à condução do caso. A Polícia Federal, no entanto, limitou-se a registrar os achados técnicos extraídos do celular de Vorcaro, sem apresentar pedido formal de afastamento do ministro.
Caberá agora ao presidente do STF avaliar o conteúdo do relatório, solicitar eventuais esclarecimentos adicionais e decidir se há fundamento para adoção de alguma medida quanto à relatoria. Até que haja deliberação, Toffoli permanece responsável pela condução do inquérito que apura as circunstâncias envolvendo o Banco Master e seus desdobramentos.