Pinta que muda de cor, formato ou tamanho: o que esse sinal na pele pode estar indicando

Câncer de pele é o mais frequente no Brasil e o diagnóstico tardio ainda responde pela maior parte dos casos graves

Fonte: Assessoria

Uma pinta que ninguém prestava atenção. Pequena, escura, presente há anos no ombro ou nas costas. Em algum momento ela começa a mudar: cresce um pouco, a borda fica irregular, a cor já não é uniforme.

A pessoa demora meses para consultar um médico. Quando o diagnóstico chega, o que poderia ser resolvido com um procedimento simples exige um tratamento bem mais extenso.

Essa sequência não é rara. Dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) mostram que o número de diagnósticos de câncer de pele no Brasil saltou de 4.237 em 2014 para 72.728 em 2024, um crescimento que reflete tanto a maior exposição solar acumulada ao longo dos anos quanto a ampliação gradual do acesso a consultas dermatológicas.

O problema é que esse acesso ainda é profundamente desigual: segundo a própria SBD, usuários do Sistema Único de Saúde têm 2,6 vezes mais dificuldade para agendar uma avaliação com dermatologista em comparação com quem tem plano de saúde.

Para quem vive no Nordeste, onde a radiação UV é intensa durante quase todo o ano, entender o que torna uma pinta suspeita pode fazer diferença real no resultado de um eventual tratamento.

O tipo de câncer de pele que mais preocupa os médicos

O câncer de pele se divide em dois grandes grupos: os tipos não melanoma, que incluem o carcinoma basocelular e o espinocelular, e o melanoma. Os primeiros são mais comuns e, na maioria dos casos, apresentam boa resposta ao tratamento quando identificados cedo. O melanoma é menos frequente, mas concentra a maior parte das mortes relacionadas à doença.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o melanoma representa aproximadamente 4% dos casos de câncer de pele no Brasil, com estimativa de 8.980 novos diagnósticos por ano no triênio 2023-2025. Apesar da proporção menor, é esse tipo que apresenta maior potencial de se espalhar para outros órgãos se não for tratado nas fases iniciais.

Os números projetados são ainda mais preocupantes no longo prazo. Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica na base Cancer Tomorrow, da Organização Mundial da Saúde, aponta que as mortes por melanoma no Brasil podem dobrar até 2040, passando de 2,2 mil para cerca de 4 mil ao ano. O crescimento está ligado ao aumento populacional, à mudança de hábitos de exposição solar e à melhora nas notificações de casos.

Como identificar uma pinta suspeita: a regra do ABCDE

A dermatologia usa um método simples para orientar a observação de pintas e manchas: a regra do ABCDE. Cada letra corresponde a uma característica que, quando alterada, indica necessidade de avaliação médica.

A de Assimetria: pintas benignas são geralmente simétricas. Se uma metade for diferente da outra, isso merece atenção.

B de Borda: bordas irregulares, serrilhadas ou com limites mal definidos são um sinal de alerta.

C de Cor: a presença de mais de uma cor na mesma lesão, como marrom, preto, vermelho ou branco, indica que a pinta precisa ser avaliada.

D de Diâmetro: lesões com mais de seis milímetros de diâmetro, aproximadamente o tamanho de uma borracha de lápis, merecem investigação.

E de Evolução: qualquer mudança perceptível ao longo do tempo, seja no tamanho, na cor, no formato ou em sintomas como coceira e sangramento, é o sinal mais importante de todos.

Especialistas acrescentam uma observação importante: entre 70% e 80% dos melanomas surgem em pele aparentemente normal, não necessariamente em uma pinta já existente. Por isso, o autoexame periódico de toda a pele é recomendado, não apenas o monitoramento de lesões já conhecidas.

O diagnóstico tardio ainda é o principal problema

A diferença entre um melanoma detectado no estágio inicial e um melanoma avançado não se mede apenas em complexidade de tratamento. Mede-se em sobrevida. Quando identificado cedo, a taxa de cura ultrapassa 90%. Quando o tumor já apresenta espessura superior a quatro milímetros, a sobrevida em cinco anos cai para menos de 50%.

O atraso no diagnóstico tem causas diversas. Uma parte das pessoas simplesmente não identifica os sinais de alerta porque nunca recebeu informação sobre o assunto.

Outra parte posterga a consulta por considerar que uma pinta não justifica uma ida ao médico. Há ainda o componente do acesso: no Nordeste, assim como em outras regiões fora do eixo Sul-Sudeste, a disponibilidade de dermatologistas no serviço público é limitada.

Levantamento do DATASUS registrou 327.439 casos confirmados de câncer de pele no Brasil entre 2018 e 2023. No período, houve aumento de 57% nos casos entre 2020 e 2023. A maioria dos casos foi concentrada nas regiões Sul e Sudeste, mas estados nordestinos como o Ceará registraram elevação expressiva nos índices.

Quando e por que buscar um especialista em pintas

A consulta dermatológica para avaliação de lesões cutâneas não precisa esperar o surgimento de sintomas. Médicos recomendam que adultos façam pelo menos uma avaliação anual completa da pele, independentemente de histórico familiar ou quantidade de pintas.

Para quem já apresenta múltiplos nevos, histórico pessoal ou familiar de melanoma, ou exposição solar intensa ao longo da vida, o intervalo recomendado é menor.

Nessa avaliação, os principais recursos utilizados são o exame clínico completo e a dermatoscopia, que permite observar camadas da pele e padrões de pigmentação impossíveis de visualizar a olho nu. Em casos de maior risco, o mapeamento corporal total registra fotograficamente todas as lesões para comparação ao longo do tempo.

Para quem tem dúvidas sobre uma lesão específica ou quer iniciar um acompanhamento preventivo, procurar um dermatologista especialista em pintas é o caminho mais seguro para obter uma avaliação precisa e, se necessário, encaminhar para diagnóstico histológico.

O que acontece depois da consulta: do exame à biópsia

Identificada uma lesão suspeita durante a consulta, o dermatologista avalia se há necessidade de remoção para análise laboratorial. A biópsia é o único exame que confirma ou descarta o diagnóstico de câncer de pele. O procedimento é simples e ambulatorial na maioria dos casos: retira-se um fragmento da lesão, que é enviado para exame anatomopatológico.

O resultado do exame traz informações detalhadas sobre o tipo de lesão e, em caso de melanoma, sobre a espessura do tumor e o nível de comprometimento do tecido.

Essas informações definem o estadiamento e orientam a conduta terapêutica: em estágios iniciais, a remoção cirúrgica costuma ser suficiente. Em fases mais avançadas, pode ser necessário ampliar as margens cirúrgicas e, em alguns casos, indicar imunoterapia ou outros tratamentos complementares.

O ponto central é que o resultado do tratamento depende diretamente do momento do diagnóstico. Uma lesão removida nos estágios iniciais raramente exige mais do que uma cirurgia pequena. A mesma lesão, ignorada por dois ou três anos, pode comprometer estruturas mais profundas e exigir um tratamento muito mais extenso.

Proteção solar e monitoramento: o que a prevenção exige na prática

A proteção solar diária é o principal fator de prevenção do câncer de pele. Profissionais de dermatologia recomendam o uso de protetor solar com FPS 30 ou superior em toda área exposta ao sol, mesmo em dias nublados, e a reaplicação a cada duas horas em situações de exposição prolongada.

Evitar o sol entre 10h e 16h reduz significativamente a carga de radiação UV acumulada ao longo dos anos. Mas a proteção sozinha não substitui o acompanhamento médico.

Como observa a Dra. Mariana Cabral, profissional da dermatologia sediada em Goiânia, pessoas com pele clara, histórico familiar de câncer de pele, grande número de pintas ou histórico de queimaduras solares na infância compõem um grupo de maior risco e devem manter exames dermatológicos regulares.

O autoexame mensal, feito diante do espelho em ambiente iluminado, serve como ferramenta de triagem para identificar alterações entre uma consulta e outra.

O que fazer diante de uma pinta que mudou

Qualquer alteração perceptível em uma pinta ou o surgimento de uma mancha nova com características suspeitas são motivos suficientes para agendar uma consulta.

Não é necessário esperar que a lesão cause dor, sangramento ou outro sintoma mais evidente. No câncer de pele, especialmente no melanoma, os sintomas físicos costumam aparecer quando a doença já avançou.

O diagnóstico precoce é a variável que mais impacta o resultado do tratamento. E, nesse caso, a diferença entre agir rapidamente e esperar pode ser medida em anos de vida e na extensão do tratamento necessário.

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