
O primeiro sinal costuma ser discreto. Um incômodo na virilha ao subir a escada, uma fisgada ao calçar o sapato, uma rigidez que aparece de manhã e vai embora depois de alguns passos.
Para a maioria das pessoas, o reflexo é esperar. Tomar um analgésico, evitar o movimento que dói e seguir com a rotina. O problema é que o quadril raramente melhora sozinho quando o desgaste já começou.
Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 10 milhões de brasileiros convivem com artrose de quadril, uma condição degenerativa que corrói a cartilagem entre o fêmur e a bacia e compromete desde tarefas simples, como entrar no carro, até a capacidade de caminhar sem dor.
Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que 80% das pessoas acima de 65 anos apresentam algum grau de artrose, e a articulação do quadril é justamente a que registra o maior crescimento proporcional de casos nas últimas três décadas.
No Maranhão, o cenário ganha contornos próprios. Um estudo publicado na Revista Eletrônica Acervo Saúde, com base em dados do DATASUS entre 2015 e 2024, registrou 8.410 internações por fratura de fêmur em idosos no estado, com média de 841 casos por ano.
Em 68% dos casos, as pacientes eram mulheres. Entre os que morreram, 71,1% tinham 80 anos ou mais. Esses números revelam o peso que problemas no quadril exercem sobre o sistema de saúde e sobre as famílias maranhenses.
O quadril como ponto cego da saúde
Existe uma diferença importante entre o quadril e outras articulações. O joelho incha, o ombro trava, o tornozelo torce. São sinais visíveis, que levam o paciente ao médico com rapidez.
O quadril, por outro lado, é uma articulação profunda, escondida entre camadas de músculo. A dor muitas vezes irradia para a coxa, para a lombar, para o glúteo. Não raro, o paciente passa meses tratando uma suposta dor na coluna quando o problema real está no quadril.
Conforme destaca o Dr. Tiago Bernardes, médico ortopedista especialista em quadril com atuação na capital goiana, essa confusão de sintomas é um dos motivos pelos quais o diagnóstico demora.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a artrose responde por 30% a 40% das consultas em ambulatórios de reumatologia e por 7,5% de todos os afastamentos do trabalho no país. Mas quando o assunto é o quadril, muitos pacientes só procuram um especialista quando já perderam boa parte da mobilidade.
A questão não é apenas médica. É também cultural. No Nordeste, onde a tradição de “aguentar a dor” ainda pesa sobre decisões de saúde, o atraso no diagnóstico é mais comum do que a literatura médica gostaria.
Dados do IBGE mostram que o Maranhão possui uma das maiores concentrações de pessoas pardas e negras do país, um grupo que, segundo pesquisas epidemiológicas conduzidas no próprio estado, tende a buscar atendimento ortopédico em estágios mais avançados da doença.
O que a artrose faz com o quadril ao longo do tempo
A articulação do quadril funciona como um encaixe esférico. A cabeça do fêmur gira dentro de uma cavidade na bacia chamada acetábulo. Entre essas duas superfícies, uma camada de cartilagem permite que o movimento aconteça sem atrito. Quando essa cartilagem se desgasta, osso começa a raspar contra osso. A dor se instala. A rigidez aumenta. A mobilidade diminui.
Conforme dados da Sociedade Brasileira do Quadril, a coxartrose, nome técnico da artrose de quadril, afeta cerca de 10% da população acima de 60 anos. O problema pode ter origem primária, quando não há uma causa identificada, ou secundária, quando é consequência de displasia do quadril, impacto femoroacetabular, necrose da cabeça do fêmur, fraturas antigas ou doenças da infância.
O sintoma inicial costuma ser uma dor branda na virilha, que piora com esforço e melhora com repouso. Com o tempo, essa dor se intensifica e passa a atrapalhar atividades do dia a dia. Calçar meias, cortar as unhas dos pés, subir escadas, sentar e levantar.
Em fases mais avançadas, o paciente precisa de bengala ou andador para se locomover. Não é raro que a articulação oposta, o joelho ou a coluna lombar comecem a doer por compensação.
O diagnóstico é feito pelo ortopedista durante a consulta, com base na história clínica, no exame físico e em radiografias simples da pelve e do quadril.
Conforme a Sociedade Brasileira do Quadril, a radiografia é suficiente para identificar o grau da artrose e orientar o tratamento na maioria dos casos. A ressonância magnética pode ser necessária quando há poucas alterações visíveis na radiografia, mas os sintomas já são significativos.
A importância de buscar o especialista certo
Um dos equívocos mais comuns entre pacientes com dor no quadril é procurar um ortopedista generalista quando o caso exige um profissional com formação específica na articulação. O quadril tem anatomia complexa e suas patologias exigem treinamento direcionado para que o diagnóstico seja preciso e o tratamento seja adequado.
De acordo com especialista em quadril em Goiânia, a avaliação de um ortopedista com experiência em cirurgia do quadril faz diferença desde a primeira consulta. O exame físico envolve testes específicos de amplitude de movimento, rotação interna e externa, força muscular e pontos dolorosos. São manobras que um generalista pode não realizar com a mesma precisão.
O tempo entre o início dos sintomas e a primeira consulta com um especialista pode definir o rumo do tratamento. Quando o paciente chega cedo, com o desgaste ainda em fase inicial, há um leque maior de opções terapêuticas.
Fisioterapia com foco em fortalecimento muscular, controle de peso, medicamentos anti-inflamatórios, viscossuplementação. São medidas que não revertem o desgaste, mas podem estabilizar o quadro, aliviar a dor e preservar a mobilidade por anos.
Quando o paciente demora, o quadro avança. A cartilagem se esgota, o osso se deforma, a dor se torna constante. Nesse estágio, a artroplastia total do quadril, a cirurgia de substituição da articulação por uma prótese, passa a ser a opção mais indicada.
A revista científica The Lancet já classificou essa cirurgia como uma das mais bem-sucedidas da medicina moderna, com altos índices de satisfação e alívio da dor. Mas é uma cirurgia de grande porte, que exige preparo, internação e reabilitação. Chegar a ela por falta de diagnóstico precoce é evitável.
O peso das fraturas de quadril entre idosos
Quando se fala em quadril, a artrose não é o único problema grave. As fraturas do fêmur proximal em idosos representam uma das emergências ortopédicas mais críticas do país.
Conforme publicação na Revista Brasileira de Ortopedia, a taxa de mortalidade em um ano após fratura de quadril varia entre 23% e 35% nos estudos brasileiros. Demência e anemia são as comorbidades mais associadas a desfechos fatais.
No Maranhão, o estudo já mencionado revelou que a maioria das internações por fratura de fêmur em idosos foi classificada como urgência: 7.107 dos 8.410 casos. Isso significa que os pacientes chegaram ao hospital em situação aguda, sem acompanhamento prévio. A ausência de rastreamento precoce de osteoporose e de quedas, aliada à dificuldade de acesso a especialistas no interior do estado, contribui para esse cenário.
O tratamento da fratura de quadril é quase sempre cirúrgico. A depender do tipo e da localização, pode envolver fixação com placas e parafusos ou a colocação de prótese parcial ou total.
Estudos publicados no SciELO mostram que pacientes que recebem alta em até sete dias após a cirurgia têm melhor sobrevida do que aqueles que permanecem internados por mais tempo. A agilidade no diagnóstico e na intervenção cirúrgica é determinante.
Como escolher o profissional adequado
Para quem já sente dor no quadril ou percebe limitações no dia a dia, o passo mais importante é buscar avaliação com um ortopedista que tenha formação e prática em patologias dessa articulação. Existem critérios objetivos que ajudam nessa escolha.
O primeiro é verificar se o médico tem registro de qualificação em cirurgia do quadril junto à Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia ou à Sociedade Brasileira do Quadril.
O segundo é o vínculo com instituições de referência em ortopedia, como hospitais universitários e centros de reabilitação. O terceiro é o volume cirúrgico, já que médicos que operam com frequência tendem a ter resultados melhores e complicações menores.
Para quem busca os melhores especialistas em quadril, vale pesquisar centros ortopédicos que reúnam equipes multidisciplinares, com fisioterapeutas, nutrólogos e acupunturistas trabalhando em conjunto.
Esse modelo de atendimento integrado tem se mostrado mais efetivo do que a consulta isolada, porque o tratamento do quadril envolve fortalecimento muscular, controle de peso e manejo da dor de forma coordenada.
O que fazer diante dos primeiros sinais
A recomendação dos especialistas é clara: qualquer dor no quadril que dure mais de duas semanas merece avaliação médica. Dor na virilha ao caminhar, rigidez ao levantar pela manhã, dificuldade para agachar ou cruzar as pernas, sensação de travamento ao girar o corpo.
Esses sinais não devem ser ignorados, especialmente em pessoas acima de 50 anos, com sobrepeso, sedentárias ou com histórico familiar de artrose.
Segundo os especialistas do COE, centro de ortopedia avançada situado em Goiânia, o diagnóstico precoce não garante cura, porque a artrose é uma doença degenerativa e não há como regenerar a cartilagem perdida. Mas garante tempo.
Tempo para fortalecer a musculatura ao redor da articulação, o que reduz a carga sobre o quadril. Tempo para perder peso, já que cada quilo a menos alivia a sobrecarga na articulação. Tempo para planejar, caso a cirurgia se torne necessária no futuro, com calma e com escolha do profissional adequado.
O Maranhão, como outros estados do Nordeste, enfrenta desafios próprios no acesso à saúde ortopédica. A concentração de especialistas em São Luís, a distância dos municípios do interior e a dependência do SUS para procedimentos de alta complexidade fazem com que muitos pacientes cheguem ao consultório tarde.
Reverter essa realidade depende de informação. Saber que a dor no quadril tem nome, tem diagnóstico e tem tratamento é o primeiro passo para não deixar um problema tratável se transformar em uma limitação permanente.