O mês de janela partidária que se encerrou nesta sexta-feira, dia 3 de abril, redesenhou o mapa de forças da Câmara dos Deputados e deixou claro para qual direção o vento político sopra a menos de seis meses do início formal do ano eleitoral. O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro e do presidenciável Flávio Bolsonaro, foi o maior beneficiado do período, incorporando ao menos 18 novos deputados federais à sua bancada. Na outra ponta, o União Brasil foi a legenda que mais sangrou: 16 parlamentares deixaram a sigla em 30 dias, em um processo de debandada que expõe fissuras internas profundas.
No total, ao menos 50 deputados federais trocaram de partido entre 5 de março e 3 de abril, aproveitando a janela que a legislação eleitoral abre a cada quatro anos para que mandatários possam migrar de sigla sem risco de perder o cargo. Até o fim da noite de sexta, as movimentações continuavam intensas. Líderes do Centrão, o bloco de partidos mais afetado pelas mudanças, estavam cautelosos ao se pronunciar, com receio de perder ainda mais parlamentares nas horas finais. “Isso é uma porta giratória”, comentou o líder do PSD na Câmara, Antônio Brito. “Até o fim do dia, pode ter mais conversa”, disse uma fonte do Republicanos.
O crescimento do PL não é novidade, mas a velocidade tem chamado atenção. O partido foi criado em 2006 a partir da fusão do PR com o Prona. Em 2018, seu antecessor, o PR, elegeu 33 deputados e era a sexta maior bancada. Em 2022, o PL elegeu 99 deputados e se tornou a maior bancada da Câmara, superando a federação PT-PCdoB-PV, que elegeu 81. O presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, afirmou na semana passada, em evento do Grupo Lide, em São Paulo, que sua meta era ultrapassar a marca de 100 deputados ao fim da janela, o que consolidaria a liderança absoluta do partido no plenário.
Entre os parlamentares que migraram do União para o PL estão os deputados Dani Cunha, do Rio de Janeiro, Coronel Assis, de Mato Grosso, Rosângela Moro, de São Paulo, e Rodrigo Valadares, de Sergipe. O deputado Kim Kataguiri, também ex-União, seguiu caminho diferente, optando pelo recém-criado Missão, que reúne integrantes do MBL. A explicação mais frequente entre os que deixaram o União aponta para dois fatores: a insatisfação com a federação firmada com o Progressistas, a União Progressistas, recentemente aprovada pela Justiça Eleitoral, que tende a aumentar a competição interna entre candidatos a deputado no mesmo palanque, e o desgaste com a gestão do presidente da sigla, Antonio Rueda.
Outros partidos também foram afetados. O PSD recebeu sete deputados e perdeu seis, ficando praticamente no zero a zero. O Podemos ganhou sete e perdeu apenas um, saindo da janela com saldo positivo. O Republicanos, ao contrário, incorporou três e viu cinco parlamentares partirem, terminando o período no negativo. Do lado dos partidos que devem compor a base de apoio ao presidente Lula em uma eventual reeleição, o PT não registrou variação. O Psol e o PCdoB ganharam um deputado cada. A Rede Sustentabilidade recebeu um e perdeu outro, terminando estável. O PSB perdeu três parlamentares e o PDT, um.
O tamanho de cada bancada na Câmara tem consequências financeiras diretas. A distribuição do fundo partidário e o tempo de televisão na propaganda eleitoral gratuita são calculados com base no número de deputados que cada legenda elegeu na disputa anterior. Como referência para as eleições de 2026 valerá a bancada eleita em 2022. Em 2025, o PL recebeu a maior fatia do fundo, com R$ 192,15 milhões em recursos orçamentários, acrescidos de R$ 16,5 milhões provenientes de multas de outras legendas. O PT ficou em segundo lugar, com R$ 140,5 milhões do fundo e R$ 12,4 milhões em multas. O União Brasil, apesar de ter sido a terceira maior bancada eleita em 2022, com 59 deputados, recebeu R$ 107,13 milhões do fundo e R$ 9,7 milhões em multas. No total, os partidos dividiram juntos R$ 1,12 bilhão em 2025.
Muitos dos deputados que migraram fizeram o cálculo eleitoral. Estar em um partido maior, com mais recursos do fundo partidário, mais tempo de televisão e palanque mais forte costuma ser determinante para a reeleição. É essa lógica que explica em grande medida a atração que o PL exerce sobre parlamentares de outros partidos, especialmente à medida que Flávio Bolsonaro consolida sua pré-candidatura presidencial e o campo bolsonarista se reorganiza para 2026.
O crescimento do PL também tem implicações para o cenário pós-eleitoral. Caso mantenha e amplie sua liderança na Câmara após as eleições de outubro, o partido estará em posição ainda mais confortável para dificultar a aprovação de projetos de interesse do governo federal a partir de 2027, independentemente de quem vencer a disputa presidencial. Se Lula for reeleito, a tarefa de construir maioria no Congresso poderá se tornar ainda mais complexa do que já é hoje.