A galinha dos ovos de ouro

Curioso, de fato, o que se passa com o Brasil.

Fonte: Sérgio Tamer
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Por Sergio Tamer

Quando no início dos anos 60 o jornalista Sérgio Porto, famoso pelo seu heterônimo Stanislaw Ponte Preta, cunhou a frase irônica “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!” – mal podia imaginar que ela atravessaria os anos e iria ser lembrada nestes tempos de Banco Master, surrupio do INSS e outras fraudes amplamente divulgadas. Menos provável, ainda: que esse locupletamento iria atingir níveis que somente em ironia era possível conceber, tal a sua extensão por tantos atores políticos notórios, assim como a frenética participação de um segmento ilustrado da política brasileira.

Curioso, de fato, o que se passa com o Brasil. Em nome da democracia, da civilidade e dos valores republicanos, ergue-se uma narrativa oficial que se pretende guardiã da virtude pública. Logo, autoridades, tribunais, lideranças políticas e parte significativa da mídia repetem, em uníssono, um compromisso retórico com a ética. No entanto, a realidade concreta revela algo bem diferente: a consolidação de uma moralidade seletiva, isto é, o que vale para uns não se aplica a outros. Ou, faça o que eu digo mas não faça o que eu faço…

Esse descompasso entre discurso e prática não é apenas perceptível — é sentido no cotidiano do cidadão comum que muito longe está de sentir o aconchego das asas da galinha dos ovos de ouro. O comum dos mortais jamais seria convidado para voar sob as asas dos jatinhos do banqueiro Vorcaro ou de participar do banquete bilionário do INSS. Ora, escândalos sucessivos, aparelhamento e captura de estruturas públicas, além de uma certa conivência com práticas suspeitas convivem, sem maiores constrangimentos, com pronunciamentos inflamados sobre integridade institucional. A regra parece clara: o peso da lei varia conforme o alvo, e o que é tratado como atentado à democracia, quando praticado por adversários, torna-se um detalhe irrelevante ao envolver aliados do futebol clube da várzea.

Observa-se, nesse passo, que há um conjunto de regras não escritas que define quem pode ser punido e quem será protegido. E essa percepção corrói silenciosamente a confiança nas instituições — talvez o ativo mais valioso de qualquer democracia. E nesse contexto, a célebre frase de Stanislaw Ponte Preta — “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!” — ressurge com impressionante atualidade. Longe de ser apenas uma ironia de seu tempo, ela sintetiza um padrão recorrente na política brasileira: a moralidade transformada em instrumento de poder e, por fim, justificativa para privilégios. Mas quando a ética deixa de ser um princípio e passa a ser mera narrativa, abre-se espaço para todo tipo de distorção e abusos, ainda que sob a capa de uma aparente legalidade.

Essa analogia com o passado é mesmo inquietante e, porque não, instigante. Se, nos anos 1960, o discurso moral serviu como pretexto para rupturas institucionais, hoje ele é mobilizado para legitimar práticas que tensionam os próprios fundamentos democráticos. Em nome da defesa das instituições, da soberania, da democracia, da Constituição, e tudo o mais que caiba nessa retórica patriotesca, relativizam-se garantias legais, ampliam-se zonas de opacidade decisória e, não raro, silencia-se o dissenso.

Mesmo sob um regime formalmente democrático, observa-se a repetição de velhos padrões: indignação seletiva, decisões controversas e um jornalismo que, em parte, abandona a vocação investigativa para assumir um papel de validação narrativa. Forma-se, assim, uma engrenagem de legitimação recíproca, na qual o poder político, as decisões judiciais e a construção midiática se reforçam mutuamente.

Enquanto isso, a realidade segue seu curso. Escândalos de grande magnitude emergem e, com frequência impressionante, dissipam-se sem consequências proporcionais. Casos complexos permanecem nebulosos até serem substituídos por novos episódios, em um ciclo contínuo de esquecimento. Enquanto isso, alguns atores envolvidos fazem “cara de paisagem” como se nada disso fosse com eles. E figuras antes condenadas retornam ao centro do poder, muitas vezes amparadas por interpretações jurídicas questionáveis. Talvez o efeito mais profundo desse cenário seja a apatia social. A indignação, quando constante e ineficaz, cansa. Daí que o cidadão, pressionado por problemas concretos — violência, custo de vida, insegurança econômica — acaba por se afastar do debate público. A descrença substitui a vigilância, a cidadania baixa a guarda, e o discurso oficial passa a operar quase sem resistência. Essa é a aposta que muitos detentores do poder costumam fazer. Aliás, vale conferir na campanha que se avizinha.

O Brasil, hoje, parece viver exatamente esse ponto de inflexão. Entre a retórica elevada e a prática seletiva, cresce a sensação de que a moralidade deixou de ser um compromisso coletivo para se tornar um instrumento de conveniência. Contudo, democracias não se sustentam apenas por ritos formais ou por declarações de princípios, mas pela confiança de que as regras valem para todos. Quando essa confiança se esvai, o sistema perde legitimidade — ainda que mantenha sua aparência institucional intacta. Vale lembrar que a história ensina que a ganância excessiva pode levar à perda de tudo o que já se conquistou. O Banco Master foi a galinha dos ovos de ouro para muita gente, inclusive para o seu dono, o bilionário Vorcaro. Todavia, como na lenda, ao buscarem com muita avidez os valores milionários produzidos por esse sistema fraudulento, acabaram por destrui-lo e, ao mesmo tempo, revelar um dos maiores episódios de corrupção da história brasileira. E você, leitor, que ainda não viu restaurada a moralidade e tampouco se refestelou nesse esquema, como se sente?!…

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