
O assunto parecia desconfortável e até desnecessário. Quando a aposentada Josefa Lauande Cunha Machado, aos 67 anos, reuniu as três filhas para falar sobre a elaboração de um testamento, a reação não foi das melhores. As filhas rejeitaram a ideia e não entenderam a necessidade de tratar do tema. Mas, sendo viúva e a principal responsável por administrar os bens herdados do marido, Josefa queria apenas garantir que tudo fosse organizado dentro da lei. Diante da resistência dos familiares, porém, preferiu não insistir.
Dez anos depois, com a morte da mãe, veio a surpresa. A família descobriu que Josefa havia, sim, feito o testamento e registrado suas vontades em um escritório de advocacia. No documento, todos os bens estavam devidamente organizados e divididos.
A atitude, que antes parecia desnecessária, acabou evitando conflitos e facilitando todo o processo de partilha. Para a família, ficou a lição sobre a importância do planejamento.
“Na época, a gente achou que não precisava, que era cedo pra falar disso. Mas quando minha mãe se foi e vimos tudo organizado, entendemos que ela só queria evitar problemas para a gente. No meio de tanta dor e sofrimento, foi um alívio enorme saber que tínhamos uma preocupação a menos”, relata a enfermeira Diana Cunha, uma das filhas de Josefa.
Histórias como essa são parte de um movimento crescente no estado. O número de testamentos registrados no Maranhão atingiu um patamar histórico: dados dos Cartórios de Notas mostram que o estado saiu de 2.143 registros em 2024 para 4.437 em 2025, um crescimento de aproximadamente 107% em apenas um ano. No Brasil, também houve recorde: 38.740 testamentos foram formalizados em 2025.
As estatísticas denotam uma transformação na maneira como as famílias estão encarando o futuro. A professora do curso de Direito da Estácio e especialista em Direito da Família, Ana Alice Torres, reforça que o fenômeno acompanha uma tendência nacional. “O aumento expressivo no número de testamentos no Maranhão acompanha uma tendência de crescimento na busca pelo planejamento sucessório”, afirma.
Entre a razão e o sentimento
Se por um lado o crescimento é impulsionado por questões práticas, por outro ele também reflete sentimentos profundos. A professora de Psicologia da Unifacimp Wyden, Priscila Correia, explica que fatores emocionais têm papel central nessa decisão.
“O aumento na procura por testamentos está intimamente relacionado a fatores emocionais e sociais, muitas vezes impulsionado por momentos de crise, incertezas ou mudanças nas configurações familiares”, destaca. Segundo ela, sentimentos como ansiedade e necessidade de proteção ajudam a explicar o movimento. “A gente pode associar esse cenário à consciência da morte, à busca por tranquilidade e à afetividade”, completa.
Na prática, o testamento tem se consolidado como uma ferramenta de organização e prevenção de conflitos. “O testamento permite que a vontade do titular do patrimônio seja expressa de forma clara, formal e juridicamente válida”, explica Ana Alice Torres. Sem esse documento, a partilha segue regras previstas no Código Civil, o que nem sempre corresponde às expectativas familiares.
“Na ausência de testamento, a divisão pode gerar conflitos. Já com um documento válido, há mais segurança, inclusive na definição de responsabilidades”, O planejamento sucessório diminui a ansiedade e as incertezas, porque deixa as regras claras e evita evita ressentimentos em um momento tão delicado”, acrescenta Priscila. Assim, mais do que um instrumento legal, o testamento também tem sido interpretado como um gesto de cuidado com quem fica. “Ele é, na verdade, um ato de amor, proteção e responsabilidade com os familiares”, afirma.
Acesso
Outro fator decisivo para esse crescimento é a facilidade de acesso. Hoje, além do modelo tradicional em cartório, o testamento também pode ser feito de forma eletrônica, por meio da plataforma e-Notariado. “A modernização dos serviços extrajudiciais facilitou o acesso e contribuiu para esse aumento”, explica Ana Alice. “Isso mostra que as famílias estão adotando uma postura mais preventiva, deixando de tratar a sucessão como um problema pós-morte”, completa.
Essa democratização também mudou o perfil de quem busca o documento. “O testamento deixou de ser restrito a pessoas com grande patrimônio. Hoje, ele envolve aspectos familiares, afetivos e até existenciais”, diz Ana Alice.
Apesar do crescimento, o tema ainda enfrenta resistência. Falar sobre a própria morte continua sendo um tabu para muitas pessoas. No entanto, especialistas defendem que essa reflexão pode ser positiva. “Pensar sobre a morte pode ser saudável e construtivo, pois ajuda a valorizar o presente e a focar no que realmente importa. Ao contrário do que pode parecer, isso melhora a qualidade de vida, porque reduz o medo e aumenta a sensação de gratidão com o momento presente”, conclui Priscila.