Uso prolongado de melatonina é associado a risco de insuficiência cardíaca

A Anvisa autorizou a melatonina como suplemento em 2021, com limite de 0,21 mg diários para adultos e proibição para crianças, gestantes e lactantes

Fonte: Da redação

A melatonina se tornou um dos suplementos mais consumidos no Brasil nos últimos anos, impulsionada pela percepção popular de que, por ser uma substância natural, seria segura para uso livre e sem restrições. Essa visão é equivocada, e as consequências desse equívoco preocupam profissionais de saúde, especialmente após um estudo apresentado em 2025 pela American Heart Association, nos Estados Unidos, associar o uso prolongado do suplemento a riscos cardiovasculares significativos.

A pesquisa acompanhou por cinco anos mais de 130 mil adultos com insônia que utilizaram melatonina por pelo menos um ano. Os dados preliminares indicam que esse grupo apresentou cerca de 90% mais chances de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo do período analisado, risco 3,5 vezes maior de hospitalização por insuficiência cardíaca e quase o dobro de risco de morte por qualquer causa em comparação a quem não usou o suplemento. Os próprios autores do estudo ressalvam, no entanto, que os resultados ainda não estabelecem relação direta de causa e efeito e que mais pesquisas são necessárias para confirmar os achados.

Diante do avanço da automedicação, o Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo publicou informe técnico com alertas sobre contraindicações, interações medicamentosas e os riscos do consumo sem orientação profissional. O documento contesta a ideia de que a origem natural de uma substância a torna automaticamente inofensiva. Segundo o conselho, a melatonina pode interagir com medicamentos, ter metabolismo variável entre diferentes pessoas e causar efeitos indesejados quando usada sem critério, incluindo sonolência diurna, tontura, dor de cabeça, náuseas, fadiga, dificuldade de concentração e pesadelos.

A melatonina é um hormônio produzido naturalmente pela glândula pineal durante a noite, cuja função é sinalizar ao organismo a hora de dormir e regular o ciclo sono-vigília. Sua produção é diretamente influenciada pela luminosidade: ambientes escuros estimulam sua liberação, enquanto a luz azul emitida por telas de celulares, tablets e computadores inibe o processo. Além do sono, o hormônio participa de funções metabólicas, cardiovasculares, respiratórias, digestivas e imunológicas que ocorrem durante o repouso.

No Brasil, a Anvisa autorizou a melatonina como suplemento alimentar em 2021, estabelecendo limite diário de 0,21 mg para adultos e proibindo qualquer indicação terapêutica do produto. O uso é expressamente contraindicado para crianças, gestantes, lactantes e profissionais que necessitem de atenção contínua durante o trabalho.

Especialistas reconhecem que o suplemento pode ser útil em situações específicas, como distúrbios do ritmo circadiano, jet lag, deficiência visual e, em alguns casos, transtorno do espectro autista. Para a insônia, porém, pode ajudar no início do sono sem ser considerado tratamento definitivo para o problema. O CRF-SP reforça que o uso deve ser individualizado e acompanhado por profissional de saúde, e que farmacêuticos estão habilitados a identificar interações medicamentosas e contraindicações antes do início do uso. O conselho também lembra que a melatonina não substitui hábitos fundamentais para a qualidade do sono, como atividade física regular, alimentação equilibrada e boas práticas de higiene do sono.

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