Os períodos sensíveis do desenvolvimento infantil e sua relação com a geração ansiosa

Períodos sensíveis são janelas de tempo em que o cérebro da criança está especialmente predisposto a desenvolver determinadas capacidades

Fonte: Gislaine Guida Mãe, Pediatra e Intensivista pediátrica
Gislaine Guida

O livro “A GERAÇÃO ANSIOSA” do psicólogo Jonathan Haidt, faz um trabalho poderoso ao documentar o que aconteceu com adolescentes com a chegada dos smartphones. Os dados expostos são alarmantes, a tese defendida pelo autor é muito sólida e a discussão desse tema é urgente. Para compreender porque smartphones provocaram tanto impacto na saúde mental de adolescentes é necessário entender a infância e os eventos neurológicos de desenvolvimento social, emocional e cognitivo que acontecem nessa fase da vida regulados pelos períodos sensíveis do desenvolvimento.

Períodos sensíveis são janelas de tempo em que o cérebro da criança está especialmente predisposto a desenvolver determinadas capacidades. Não são períodos aleatórios, ao contrário, são fases biologicamente determinadas que abrem e fecham em períodos específicos da vida e após fecharem se torna muito mais difícil ou até impossível recuperar o que foi perdido.

De zero aos nove anos de idade temos três grandes períodos sensíveis. O primeiro deles acontece do nascimento até três anos e se caracteriza pela formação de vínculo afetivo e segurança emocional. É a fase em que a criança desenvolve apego pelos cuidadores e se sente segura e acolhida no ambiente familiar. A formação desse vínculo vai direcionar o modo como a criança regula suas emoções e estabelece relacionamentos saudáveis ao longo de toda a vida. Essa capacidade se desenvolve através do contato físico e da atenção ativa dos cuidadores.

O toque, o aconchego do colo, a fala compassiva e o olhar atento são as ferramentas de construção desse vínculo. A maior ameaça para esse período é a ausência, e ausência não significa necessariamente abandono. A presença física sem disponibilidade emocional também é ausência, como o que acontece quando o cuidador está fisicamente presente mas com os olhos divididos entre a criança e o celular.

O segundo período ocorre dos dois aos sete anos de idade e se caracteriza pela evolução da linguagem e do pensamento. É a fase em que a criança aprende a se expressar, amplia sua capacidade de nomear as coisas, aprende a contar e criar histórias, a imaginar e a resolver problemas no seu entorno imediato. Esse processo exige participação ativa da criança e estímulos do ambiente real a seu redor. A estimulação passiva das telas é incapaz de substituir os elementos do mundo real e atender essa necessidade.

Dos seis aos nove anos, ocorre o terceiro grande período sensível que consolida a socialização e a identidade. Nessa fase a criança entra num mundo social mais amplo e precisa aprender a negociar, gerenciar conflitos interpessoais, fazer amizades reais e desenvolver empatia. A construção dessas habilidades é intermediada pelo brincar livre, exige autonomia da criança para se estabelecer e é regulada pelas vivências que a criança tem na sala de aula, no recreio, na rua, nas quadras esportivas, enfim no mundo real. Quando essas experiências são substituídas por longos períodos de uso de telas, a criança pode chegar a adolescência socialmente inexperiente e mais fragilizada.

Vínculo, segurança emocional, linguagem, pensamento, socialização e construção de identidade são capacidades fundamentais para um comportamento humano saudável e seu desenvolvimento depende da exploração do ambiente real e da exploração de experiências vividas em seus períodos sensíveis de formação. O que acontece com essas capacidades quando os períodos sensíveis são atravessados por imersão digital precoce?

Responder essa pergunta exige entender como a tecnologia digital funciona no cérebro. Aplicativos, vídeos e jogos digitais funcionam através de ciclos de recompensa imediata. Cada fase de jogo vencida, cada curtida ou comentário libera DOPAMINA – neurotransmissor que regula prazer e motivação. Cada “gota” de dopamina liberada no cérebro gera sensação de satisfação e motivação para buscar a próxima; ou seja, dopamina reforça hábitos e caminhos neurais potencialmente viciantes – esse mecanismo de recompensa é poderoso em cérebros adultos, imagine o seu efeito em cérebros infantis em desenvolvimento.

O uso excessivo de tecnologia digital é viciante porque captura o cérebro nesse ciclo recorrente de busca por satisfação imediata. Essa exposição sustentada durante a infância pode desorganizar a arquitetura cerebral e alterar seu funcionamento abrindo caminho para desregulação comportamental e transtornos psíquicos como a ANSIEDADE. Como pediatra, eu sinto isso na pele. Rotineiramente, eu identifico sinais de ansiedade, uso compulsivo de telas e sinais de abstinência com a retirada das telas das mãos de crianças pequenas e vejo as graves consequências disso ecoarem nos adolescentes.

Jonathan Haidt, autor do livro, não é especialista em infância. Ele é um psicólogo social, escritor, professor e pesquisador acadêmico de renome que identificou A GERAÇÃO ANSIOSA observando seus alunos adolescentes e percebeu que as causas das mudanças comportamentais intermediadas pelo uso de smartphones começava muito antes da adolescência, com crianças que tiveram seus períodos sensíveis de desenvolvimento comprometidos pelo uso excessivo de telas e pela escassez de vínculo e presença humana.

É urgente cuidar da saúde mental dos adolescentes mas ainda mais urgente é entender que a solução começa muito antes; começa no colo, no brincar livre, nas conversas a mesa familiar sem a presença do celular. Começa na decisão consciente de que a infância de nossos filhos precisa ser vivida e não assistida numa tela. Os períodos sensíveis não esperam, eles têm data para começar e para terminar e o que construímos ou deixamos de construir nesses anos vai ecoar a vida inteira. Cada um de nós precisa refletir sobre o que quer que ecoe na vida de nossos filhos.

Gislaine Guida
@gislaineguidapediatra
98 9 9190 3838

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