
O mercado de medicamentos para emagrecimento deve passar por uma expansão acelerada no Brasil nos próximos anos e provocar mudanças profundas em diversos setores da economia. Um estudo da consultoria PwC projeta que as vendas das chamadas canetas emagrecedoras passarão de US$ 2 bilhões em 2025 para US$ 9 bilhões em 2030, o equivalente a uma taxa média de crescimento anual de 35%, superior à expansão estimada para o mercado global.
A avaliação da consultoria é de que o Brasil reúne características que favorecem uma disseminação mais rápida desses medicamentos. Entre os fatores apontados estão a elevada incidência de sobrepeso e obesidade na população, a forte influência das redes sociais sobre hábitos de consumo e a expectativa de redução dos preços dos tratamentos com o avanço da quebra de patentes e o desenvolvimento de versões orais dos medicamentos.
Segundo Gerson Charchat, sócio e líder do setor de Consumo da Strategy& Brasil, unidade de consultoria estratégica da PwC, a próxima etapa de crescimento deverá ser impulsionada principalmente pelas classes C, D e E. Ele destaca que aproximadamente 68% dos brasileiros com sobrepeso ou obesidade estão concentrados nessas faixas de renda, o que amplia significativamente o potencial de expansão do mercado à medida que os tratamentos se tornam mais acessíveis.
Para o executivo, o fenômeno deixou de ser apenas uma questão médica e passou a integrar aspectos culturais e comportamentais. Charchat observa que o Brasil ocupa posição de destaque entre os países mais influenciados por tendências disseminadas pelas redes sociais, fator que contribui para acelerar a adoção dos medicamentos em diferentes grupos da população.
A transformação já observada em mercados mais maduros oferece pistas sobre os impactos que podem surgir no Brasil. Nos Estados Unidos, onde o uso desses medicamentos está mais disseminado, estudos apontam mudanças significativas nos hábitos de consumo. Uma pesquisa publicada no Journal of Marketing Research, baseada em um painel de 150 mil domicílios, identificou redução de 5,3% nos gastos com supermercados após seis meses de tratamento. Entre consumidores de maior renda, a queda chegou a 8,2%.
O levantamento mostrou ainda retração de 10,1% nas compras de petiscos salgados e redução de 8% nos gastos com fast-food. Outra pesquisa analisada pela PwC, envolvendo mais de 30 mil consumidores americanos, constatou que os usuários das canetas reduziram em média 10% seus gastos em mais de cem categorias de produtos ao longo de um ano. Além disso, 37% afirmaram ter diminuído o consumo de bebidas alcoólicas após iniciar o tratamento.
Os dados também revelam mudanças importantes no padrão alimentar. Segundo o estudo, 56% dos usuários passaram a consumir menos açúcar, alimentos ultraprocessados e álcool, ao mesmo tempo em que aumentaram a ingestão de proteínas. Já 47% reduziram o tamanho das porções consumidas, enquanto 29% passaram a direcionar parte dos recursos economizados com alimentação para serviços relacionados à beleza, bem-estar e qualidade de vida.
Na avaliação de Luciana Medeiros, sócia-líder de varejo da PwC, essas mudanças representam uma transformação estrutural do perfil do consumidor. Segundo ela, as empresas já começam a perceber que estão diante de um público mais consciente, que busca escolhas alimentares mais planejadas e passa a ter maior preocupação com saúde e qualidade de vida.
A executiva avalia que o varejo alimentar brasileiro está entre os segmentos mais avançados no processo de adaptação a essa nova realidade. Redes de supermercados, hipermercados e atacarejos já começaram a revisar portfólios e estratégias comerciais para responder às mudanças nos hábitos de consumo.
Entre as principais adaptações apontadas pela consultoria estão a ampliação da oferta de porções menores, a diversificação do mix de produtos e o aumento da presença de itens considerados mais saudáveis. A tendência também afeta diretamente estratégias promocionais tradicionais. Promoções baseadas em grandes volumes de compra tendem a perder relevância, enquanto programas de fidelidade e modelos de assinatura ganham espaço como ferramentas para manter o relacionamento com consumidores que passam a comprar menos quantidade de produtos.
A publicidade também deve passar por ajustes. Segundo a PwC, campanhas que exploram excessos alimentares ou consumo indulgente tendem a perder eficácia junto a um público que passa a valorizar mais equilíbrio nutricional e bem-estar.
Enquanto o varejo alimentar avança rapidamente nas adaptações, a indústria de alimentos e bebidas apresenta uma resposta mais gradual. De acordo com Luciana Medeiros, grandes multinacionais ainda enxergam o fenômeno como mais consolidado nos Estados Unidos do que no Brasil, o que tem retardado algumas decisões estratégicas.
Gerson Charchat acrescenta que fatores econômicos também influenciam esse ritmo mais lento. Juros elevados, endividamento das famílias, incertezas macroeconômicas e o cenário eleitoral acabam reduzindo a disposição das empresas para realizar investimentos mais robustos em reformulação de produtos, embalagens e linhas de produção.
O setor de moda também já começou a sentir os efeitos da mudança. Segundo a PwC, grandes varejistas de vestuário acompanham atentamente o comportamento dos consumidores e avaliam ajustes nos estoques para ampliar a oferta de tamanhos menores. Nos Estados Unidos, a tendência já se refletiu em aumento das vendas de peças menores e perda de participação dos tamanhos maiores.
Ao mesmo tempo, alguns segmentos devem ser diretamente beneficiados pela expansão das canetas emagrecedoras. O estudo aponta que empresas ligadas à estética, academias, spas, bem-estar, suplementação esportiva e produtos de beleza encontram um ambiente favorável para crescimento.
A consultoria observa que usuários desses medicamentos costumam aumentar os gastos com procedimentos estéticos, atividades físicas e produtos voltados ao autocuidado. Dessa forma, a popularização das canetas não apenas reduz determinados padrões de consumo, mas também cria novas oportunidades de negócios em setores associados à saúde, aparência física e qualidade de vida.
Para a PwC, o avanço desse mercado deve provocar uma das maiores transformações recentes no comportamento do consumidor brasileiro. A expectativa é que os efeitos deixem de se limitar ao setor farmacêutico e passem a influenciar decisões estratégicas em segmentos tão diversos quanto alimentação, moda, varejo, serviços e indústria de bens de consumo.