O avanço dos preços do petróleo após a escalada das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã já começa a afetar as projeções para o setor aéreo brasileiro. A avaliação é do presidente da Azul, John Rodgerson, que estima uma redução de aproximadamente 10 milhões de passageiros no mercado doméstico neste ano em razão do encarecimento do combustível de aviação.
Durante participação no Seminário Lide Turismo, nesta quarta-feira (10), o executivo afirmou que as companhias aéreas estão sendo obrigadas a revisar suas estratégias operacionais para enfrentar o aumento dos custos provocado pela crise internacional no mercado de energia.
Segundo Rodgerson, o impacto financeiro para a Azul pode alcançar até US$ 3 bilhões ao longo de 2026. Diante desse cenário, a companhia já trabalha com medidas para preservar margens e proteger o caixa, incluindo reajustes tarifários e cortes seletivos de oferta.
“O que estamos tentando fazer é aumentar tarifas e reduzir algumas operações para compensar parte desse aumento de custos”, afirmou o executivo.
Na avaliação do presidente da companhia, o cenário é especialmente frustrante para o setor porque o Brasil reúne características que poderiam favorecer um ciclo de expansão da aviação e do turismo. Apesar disso, a alta internacional do petróleo acaba sendo repassada ao combustível utilizado pelas empresas aéreas, pressionando a estrutura de custos.
Rodgerson afirmou que 2026 tinha potencial para ser um ano de crescimento mais forte para a indústria, mas a instabilidade geopolítica alterou significativamente as perspectivas do mercado.
Além dos ajustes operacionais, o setor vê no Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac) uma ferramenta importante para amenizar os impactos da crise. Segundo o executivo, o acesso às linhas de financiamento pode ajudar as empresas a reforçar o capital de giro em um momento de forte pressão sobre os custos.
“O grande problema da aviação é a falta de capital de giro em momentos de turbulência. Esse apoio ajuda a manter investimentos e dá mais confiança para atravessar períodos de volatilidade”, disse.
O tema ganhou relevância após Azul, Latam, Gol e Abaeté formalizarem junto ao Ministério de Portos e Aeroportos os pedidos de acesso às linhas de crédito vinculadas ao Fnac. O processo administrativo para operacionalização dos financiamentos foi concluído nesta semana, com a aprovação das regras e contrapartidas exigidas pelo Comitê Gestor do fundo.
A nova linha de crédito será operada pelo BNDES e contará com R$ 5,5 bilhões disponíveis para o setor em 2026. Pelo modelo aprovado, companhias com participação superior a 5% no mercado doméstico poderão acessar financiamentos de até R$ 1,8 bilhão cada.
Já as empresas de menor porte terão limite de contratação de até R$ 166 milhões.
O movimento ocorre em um momento de crescente preocupação da indústria aérea global com os impactos da guerra no Oriente Médio sobre os preços do petróleo. Como o combustível representa uma das principais despesas das companhias aéreas, qualquer alta prolongada na commodity tende a pressionar tarifas, reduzir a oferta de voos e limitar investimentos em expansão de rotas.
Para o mercado brasileiro, a combinação entre combustível caro, custos operacionais elevados e necessidade de preservação de caixa pode resultar em um crescimento mais lento do setor ao longo dos próximos meses.