Mais de 200 mil brasileiros convivem com doenças inflamatórias intestinais

No Maranhão, estimativa é de 7 mil pessoas afetadas; alimentação pode ser aliada no combate às crises

Fonte: Jherry Dell'Marh
(Foto: Divulgação)

Dor abdominal frequente, diarreia persistente, perda de peso e desconforto intestinal podem ser sinais das chamadas Doenças Inflamatórias Intestinais (DIIs), condições crônicas que afetam milhares de brasileiros e podem provocar inflamações ao longo de todo o trato digestivo. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), cerca de 210 mil brasileiros convivem com as DII, número que cresceu 15% entre os anos de 2015 e 2020.

Em nível mundial, mais de 5 milhões de pessoas são afetadas por essa condição. As DII mais comuns são a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa (RCU). Apesar de apresentarem sintomas semelhantes, elas possuem diferenças importantes na localização e profundidade da inflamação, fatores que influenciam diretamente no diagnóstico, acompanhamento e tratamento.

No Maranhão, embora não exista um número oficial divulgado exclusivamente para o estado, a estimativa é de cerca de 7 mil pessoas vivendo com Doença de Crohn ou Retocolite Ulcerativa, considerando a proporção nacional aplicada à população maranhense. Especialistas apontam, no entanto, que estados do Norte e Nordeste ainda enfrentam dificuldade de diagnóstico e subnotificação, o que pode esconder um número ainda maior de pacientes.

SINTOMAS

O servidor público Carlos Henrique Silva, de 35 anos, conhece de perto os desafios das Doenças Inflamatórias Intestinais. Morador de São José de Ribamar, município da região metropolitana de São Luís (MA), ele descobriu a Retocolite Ulcerativa após anos convivendo com dores abdominais frequentes, diarreia e perda de peso sem entender a origem dos sintomas. “Eu achava que era apenas gastrite ou algo ligado ao estresse do trabalho. Tinha dias em que sentia muita dor e precisava sair correndo para o banheiro várias vezes”, relata.

Carlos conta que o diagnóstico trouxe medo no início, principalmente pelas mudanças na rotina e na alimentação, mas afirma que o acompanhamento médico e nutricional fez diferença no controle da doença. “Aprendi que alguns alimentos pioravam muito minhas crises. Hoje tenho mais cuidado com fritura, comida industrializada e excesso de café. A alimentação passou a ser parte importante do meu tratamento”, afirma.

Segundo ele, a maior dificuldade foi entender que a doença exige controle contínuo. “Não é só tomar remédio. Precisa mudar hábitos, cuidar da alimentação e respeitar os sinais do corpo”, completa.

DIFERENÇAS

A nutricionista da Hapvida, Jessica Lustosa, explica que as DII acontecem quando o próprio sistema imunológico ataca o trato digestivo. “Isso causa inflamação, feridas e sintomas como dor e diarreia”, enumera a especialista.

Ela destaca as características de cada doença. “A Retocolite Ulcerativa afeta apenas o intestino grosso, enquanto a Doença de Crohn pode atingir qualquer parte do tubo digestivo”, ressalta.

Apesar de a alimentação não ser a causa das doenças, ela possui papel essencial no controle dos sintomas e na qualidade de vida dos pacientes. “A comida certa ajuda a cicatrizar o intestino, acalmar a inflamação e nutrir o corpo, enquanto escolhas erradas podem irritar a mucosa e piorar muito os sintomas”, afirma Jessica Lustosa.

Durante períodos sem crise, conhecidos como fase de remissão, a orientação é apostar em alimentos com potencial anti-inflamatório. Entre os principais aliados estão azeite de oliva, peixes ricos em ômega-3, frutas, vegetais cozidos e fibras bem toleradas pelo organismo.

“Alimentos como sardinha, atum, aveia, frutas e legumes cozidos ajudam na recuperação da barreira intestinal e podem contribuir para o controle da inflamação”, explica. Por outro lado, alguns alimentos devem ser evitados ou consumidos com moderação, principalmente ultraprocessados, frituras, excesso de açúcar, carnes gordurosas, bebidas alcoólicas, cafeína e alimentos muito condimentados.

Alimentação é aliada no combate às crises

Nos períodos de crise, quando o intestino está mais inflamado e sensível, os cuidados precisam ser ainda maiores. “Nesse momento, o foco é dar repouso ao intestino e facilitar a recuperação”, explica a nutricionista. Ela orienta que alimentos crus, cascas, sementes e fibras mais duras sejam evitados temporariamente, dando preferência para preparações cozidas, purês e refeições leves.

Outro ponto importante é o fracionamento das refeições. “O ideal é comer pequenas quantidades várias vezes ao dia para não sobrecarregar o sistema digestivo”, destaca. A hidratação também ganha atenção especial, principalmente por causa das perdas provocadas pela diarreia. Água, água de coco e soro caseiro ajudam na reposição de líquidos e sais minerais.

Além disso, proteínas leves, como frango desfiado, peixe e ovos, ajudam na cicatrização e manutenção da massa muscular sem dificultar a digestão. Ela também ressalta a importância do acompanhamento nutricional para pessoas com Doenças Inflamatórias Intestinais. “O acompanhamento ajuda o paciente a identificar gatilhos alimentares sem precisar recorrer a restrições severas e desnecessárias”, conclui.

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