Alta taxa de detecção de HIV coloca São Luís em alerta

Capital maranhense registrou 42,3 casos por 100 mil habitantes em 2024.

Fonte: Com informações da Ascom Blanver
São Luís registrou uma das maiores taxas de detecção de HIV do país (Foto: Reprodução)

São Luís registrou uma das taxas mais elevadas de detecção de HIV entre as capitais brasileiras em 2024. Foram contabilizados 42,3 casos por 100 mil habitantes, segundo o Boletim Epidemiológico de HIV e Aids, elaborado pelo Ministério da Saúde.

No recorte das capitais nordestinas citadas pelo levantamento, São Luís ocupa a segunda posição. A capital maranhense aparece atrás de Natal, que registrou 46,9 casos por 100 mil moradores, e à frente de Recife, com 41,1.

O indicador acompanha o aumento das notificações observado em todo o Nordeste e reforça a importância da testagem, do diagnóstico precoce e da ampliação do acesso aos métodos de prevenção.

Notificações avançam no Nordeste

Entre 2020 e 2024, o Nordeste apresentou crescimento de 32,2% nas notificações de infecção pelo HIV. Foi a maior elevação registrada entre as cinco regiões do Brasil no período.

O Rio Grande do Norte liderou o aumento entre os estados, com avanço de 56,3%. Os números indicam que a transmissão continua representando um desafio para os serviços de saúde, especialmente nos grandes centros urbanos.

A ampliação da oferta de testes pode contribuir para o aumento dos diagnósticos. Ainda assim, os dados mostram a necessidade de fortalecer as políticas de prevenção e garantir atendimento acessível e sem discriminação.

Interrupção da PrEP preocupa

Uma das principais ferramentas disponíveis para prevenir a infecção é a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV, conhecida como PrEP. O método utiliza medicamentos antirretrovirais e, quando seguido corretamente, reduz em mais de 99% o risco de transmissão sexual do vírus.

Nos últimos 12 meses, 35.038 pessoas receberam ao menos uma dispensação da PrEP no Nordeste. Desse total, 23.180 continuavam utilizando o medicamento, o equivalente a 66%.

Outros 11.858 usuários interromperam a profilaxia. O grupo representa 34% do total, indicando que aproximadamente uma em cada três pessoas deixou de seguir a estratégia preventiva.

Acolhimento pode melhorar adesão

Para o infectologista Vinícius Borges, membro titular da Sociedade Brasileira de Infectologia, a oferta do medicamento precisa ser acompanhada por atendimento humanizado e ações de enfrentamento ao preconceito.

“Entregar o medicamento é só o começo do processo. Quando mais de 34% das pessoas interrompem a PrEP, fica claro que precisamos combater o estigma e humanizar o atendimento para que a prevenção vire, de fato, um hábito diário de autocuidado”, afirmou.

A desinformação, o medo do julgamento e a dificuldade para manter o acompanhamento regular podem afastar os usuários dos serviços. A continuidade da prevenção depende, portanto, de uma rede capaz de orientar, acolher e monitorar cada pessoa.

PrEP está disponível pelo SUS

A PrEP é destinada a pessoas que não vivem com HIV, mas podem estar expostas a situações de maior vulnerabilidade à infecção. Antes de iniciar o uso, o paciente passa por avaliação clínica e realiza testes para confirmar que não possui o vírus.

O acesso pelo Sistema Único de Saúde ocorre em unidades habilitadas, incluindo os Serviços de Assistência Especializada e os Centros de Testagem e Aconselhamento. Durante o acompanhamento, são realizados exames periódicos para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis.

O método integra a chamada prevenção combinada e pode ser utilizado junto com preservativos, testagem regular e tratamento das demais infecções sexualmente transmissíveis.

Pessoas com mais de 50 anos ainda são minoria

A maior parcela dos usuários de PrEP no Nordeste tem entre 30 e 39 anos, faixa que concentra 43,1% das dispensações. Pessoas de 40 a 49 anos representam 18,4%, enquanto aquelas com 50 anos ou mais correspondem a apenas 6,7%.

Em relação ao perfil populacional, gays e homens cisgêneros que fazem sexo com homens concentram 79,4% dos registros.

A participação reduzida de pessoas acima dos 50 anos contrasta com o aumento gradual dos diagnósticos de HIV nessa faixa etária. O cenário evidencia a necessidade de incluir adultos mais velhos nas campanhas sobre saúde sexual, testagem e acesso à profilaxia.

“Enfrentar os indicadores dependerá da ampliação dos serviços e de uma comunicação que alcance diferentes idades e grupos sociais, sem reforçar estigmas relacionados ao vírus”, concluiu Vinícius Borges.

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