A Polícia Federal deflagrou nesta segunda-feira uma nova fase da Operação Sem Desconto, aprofundando as investigações sobre o esquema de fraudes bilionárias envolvendo descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. A ofensiva tem como foco suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial e mira o entorno do senador Weverton Rocha (PDT-MA), embora o parlamentar não seja alvo direto desta etapa da operação.
Ao todo, foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão, autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no Distrito Federal e no Maranhão. Entre os alvos está o advogado Willer Tomaz, além de familiares de Weverton Rocha. Segundo a Polícia Federal, a investigação busca identificar movimentações financeiras e patrimoniais que teriam sido realizadas por meio da utilização de pessoas físicas e jurídicas, contas bancárias de terceiros, estruturas empresariais e operações em espécie para ocultar a origem e o destino de recursos supostamente desviados.
Em nota, a corporação informou que as investigações identificaram indícios de lavagem de dinheiro baseada na utilização de terceiros e empresas para dificultar o rastreamento dos valores. A operação representa um novo desdobramento da Sem Desconto, que desde o ano passado investiga um esquema de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões pagas pelo INSS.
O advogado Willer Tomaz afirmou que não é investigado por participação nas fraudes envolvendo o instituto. Segundo sua defesa, a busca decorre exclusivamente do fato de ele ser proprietário da aeronave utilizada pelo senador Weverton Rocha em uma viagem de caráter particular, já conhecida pelas autoridades. A nota acrescenta que a disponibilização da aeronave ocorreu de forma pessoal e amistosa, sem qualquer relação com os fatos investigados, e que o advogado está à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos.
Embora não tenha sido alvo direto da operação desta segunda-feira, Weverton Rocha já aparece há meses no radar das investigações. Em dezembro do ano passado, o senador foi alvo de busca e apreensão em outra fase da Operação Sem Desconto. Na ocasião, a Polícia Federal sustentou que havia indícios de que ele teria sido beneficiado por recursos provenientes do esquema e o descreveu como “liderança e sustentáculo das atividades empresariais e financeiras” de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado como um dos principais operadores da organização investigada.
Na época, Weverton afirmou ter recebido a operação com surpresa e declarou que colaboraria com as investigações após ter acesso integral aos autos. Meses depois, reportagens revelaram que Antônio Antunes participou de um churrasco realizado na residência do senador, em Brasília, além de ter visitado seu gabinete no Senado. O parlamentar confirmou os encontros, afirmando que conheceu o empresário em um evento social e que posteriormente o recebeu para discutir propostas legislativas relacionadas à regulamentação da importação de produtos à base de cannabis para fins medicinais.
As investigações da Polícia Federal também avançaram sobre um dos principais núcleos do esquema. Recentemente, a corporação concluiu um dos inquéritos envolvendo a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), entidade suspeita de realizar descontos irregulares diretamente na folha de pagamento de aposentados e pensionistas.
Foram indiciados o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, o próprio Antônio Carlos Camilo Antunes, o presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, o procurador do INSS Virgílio Antonio Ribeiro de Oliveira Filho, o ex-presidente do instituto e ex-ministro da Previdência José Carlos Oliveira e o ex-deputado Euclydes Pettersen. Segundo a Polícia Federal, a organização criminosa teria permitido o desvio de mais de R$ 708 milhões de aposentados e pensionistas, recursos que posteriormente seriam direcionados para empresas de fachada e utilizados em esquemas de lavagem de dinheiro e corrupção de agentes públicos.
A investigação aponta que entidades firmavam acordos de cooperação com o INSS para realizar descontos mensais diretamente na folha de pagamento dos beneficiários, muitas vezes sem autorização válida. Os recursos arrecadados alimentariam um esquema de distribuição de vantagens indevidas e ocultação patrimonial, cuja apuração continua em diferentes frentes investigativas.