O programa Desenrola Adimplentes começa a operar nesta segunda-feira, 10 de agosto de 2026, com novas regras para tentar ampliar a participação das instituições financeiras e reduzir o custo das dívidas de trabalhadores informais. A iniciativa permite renegociar até R$ 15 mil em crédito pessoal sem garantia, com juros limitados a 1,99% ao mês.
O público-alvo são trabalhadores sem vínculo formal de emprego que ainda mantêm seus compromissos relativamente em dia. Para ter acesso à renegociação, o cliente precisa ter pago pelo menos quatro parcelas e apresentar atraso inferior a 90 dias.
A diferença em relação às condições atualmente praticadas no mercado é relevante. Segundo dados considerados pelo governo na formulação do programa, operações desse tipo podem cobrar taxas próximas de 7% ao mês, enquanto a nova linha estabelece um teto de 1,99%.
A iniciativa foi criada para atender um grupo que, na avaliação do governo, permanecia com menos alternativas de crédito barato. Trabalhadores com carteira assinada, servidores públicos e aposentados possuem acesso a modalidades consignadas, enquanto pessoas com inadimplência superior a 90 dias foram incluídas em outras versões do Desenrola.
O início efetivo das operações, porém, ocorreu mais de um mês depois do lançamento. Um dos entraves esteve relacionado à regulamentação do Fundo de Garantia de Operações (FGO), utilizado para reduzir parte do risco assumido pelas instituições financeiras.
Além disso, Caixa e Banco do Brasil apresentaram ressalvas ao desenho original do programa. Pelas regras iniciais, apenas os dois bancos públicos poderiam utilizar capital próprio combinado aos recursos disponibilizados pela União, o que poderia obrigá-los, na prática, a comprometer recursos em operações originadas por outras instituições.
O modelo foi alterado por medida provisória. Agora, qualquer instituição participante poderá combinar recursos próprios com o funding de até R$ 3 bilhões disponibilizado pelo governo federal para financiar as renegociações.
Com a mudança, Caixa e Banco do Brasil deixam de assumir uma função financeira diferenciada em relação aos demais participantes. Os bancos públicos poderão conceder suas próprias operações e também atuar como repassadores dos recursos da União para outras instituições.
A alteração busca reduzir riscos de governança e distribuir de maneira mais clara as responsabilidades financeiras dentro do programa. No caso do Banco do Brasil, companhia de capital aberto, o desenho anterior havia gerado preocupação sobre eventual uso de recursos próprios para financiar operações originadas fora da instituição.
O governo espera que a nova estrutura também aumente a disposição dos bancos privados em aderir ao programa. Inicialmente, parte dessas instituições avaliou que a linha teria atratividade limitada, tanto pelo perfil restrito do público-alvo quanto pelo fato de envolver clientes que ainda não estavam em situação de inadimplência prolongada.
A Federação Brasileira de Bancos também revisou sua avaliação sobre a iniciativa. A entidade havia considerado, no lançamento, que o potencial de adesão seria mais limitado do que em programas voltados a inadimplentes.
Com as mudanças, a Febraban passou a avaliar que o desenho final melhorou a previsibilidade operacional e a viabilidade de implementação. A entidade destacou avanços no detalhamento dos critérios de elegibilidade, custos, garantias e condições de funcionamento.
A adesão continua sendo individual e dependerá da decisão de cada instituição financeira. O Banco do Brasil informou que segue em diálogo com o Ministério da Fazenda para operacionalizar a linha.
Na prática, o programa tenta reduzir o custo financeiro de trabalhadores informais sem exigir que eles entrem em inadimplência prolongada para obter condições mais favoráveis. Ao limitar os juros e utilizar recursos públicos e garantias para dividir o risco com os bancos, o governo busca diminuir o comprometimento da renda dessas famílias e evitar que dívidas ainda administráveis evoluam para atrasos maiores.
O impacto do Desenrola Adimplentes dependerá, porém, da adesão efetiva das instituições e do volume de contratos renegociados. Embora o programa tenha até R$ 3 bilhões em funding federal, sua capacidade de alcançar um número relevante de trabalhadores dependerá também do interesse dos bancos em utilizar capital próprio e conceder novas condições aos clientes elegíveis.