Por que o AVC e o infarto estão atingindo cada vez mais adultos jovens?

Brasil registrou mais de 200 mil mortes cardiovasculares no primeiro semestre de 2026, enquanto casos de infarto avançam entre pessoas mais jovens

Fonte: Da redação com Sírio-Libanês

O infarto e outras doenças cardiovasculares deixaram de ser uma preocupação associada apenas ao envelhecimento. Dados do Ministério da Saúde mostram que as internações por infarto entre brasileiros com menos de 40 anos aumentaram 180% entre 2000 e 2024, um avanço que chama atenção para a exposição cada vez mais precoce a fatores capazes de comprometer a saúde do coração.

O crescimento ocorre em um país no qual as doenças cardiovasculares continuam provocando um elevado número de mortes. Somente entre janeiro e junho de 2026, mais de 200 mil pessoas morreram em decorrência dessas enfermidades no Brasil, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) também permanece entre os problemas de maior impacto. Em 2025, foram registradas 64.471 mortes pela doença no país, o equivalente, em média, a aproximadamente um óbito a cada seis minutos, conforme levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF) baseado em informações do Registro Civil.

A presença crescente das doenças cardiovasculares entre adultos jovens, entretanto, acrescenta um novo componente ao problema. Para o coordenador de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês em Brasília, Carlos Rassi, não existe uma única explicação para esse fenômeno. Uma combinação de mudanças no estilo de vida tem aumentado a exposição aos fatores de risco em idades cada vez menores.

Obesidade, sedentarismo, consumo frequente de alimentos ultraprocessados, sono de baixa qualidade, estresse crônico e tabagismo estão entre os principais fatores mencionados pelo cardiologista. O uso de cigarros eletrônicos e o aparecimento mais precoce do diabetes tipo 2 também entram nessa lista.

“O aumento dos infartos em adultos jovens é multifatorial. Obesidade, sedentarismo, alimentação baseada em ultraprocessados, má qualidade do sono, estresse crônico, tabagismo, uso de cigarros eletrônicos e casos cada vez mais precoces do diabetes tipo 2 estão entre os principais fatores de risco para problemas cardiovasculares”, explica Rassi.

Há ainda comportamentos que podem elevar de maneira importante o risco entre pessoas mais jovens. Segundo o especialista, casos precoces atendidos nos hospitais aparecem frequentemente associados ao consumo de drogas, anabolizantes, estimulantes e doses elevadas de nicotina.

A genética também precisa ser considerada. Pessoas com histórico familiar de infarto em idade precoce podem apresentar maior predisposição e, por isso, precisam dar atenção especial à prevenção e ao acompanhamento dos fatores de risco.

O crescimento da preocupação com a longevidade também criou um mercado de suplementos e de estratégias conhecidas como biohacking, termo utilizado para diferentes práticas que buscam modificar ou melhorar o funcionamento do organismo por meio de intervenções relacionadas à ciência, tecnologia e estilo de vida.

Apesar da popularização dessas estratégias, Rassi afirma que as evidências disponíveis não mostram superioridade desses métodos em relação às medidas tradicionais de prevenção cardiovascular.

“Não existem evidências robustas de que suplementos ou protocolos de biohacking sejam superiores às estratégias clássicas de prevenção cardiovascular. As diretrizes das principais sociedades médicas mostram, de forma consistente, que os maiores ganhos em longevidade e redução do risco cardiovascular vêm da combinação de hábitos saudáveis”, afirma.

Na prática, a proteção do coração continua dependendo de medidas conhecidas: alimentação equilibrada, exercícios regulares e acompanhamento de fatores como pressão arterial, colesterol e diabetes.

Outros componentes do cotidiano, porém, não devem ser tratados como secundários. O estresse prolongado é um deles.

De acordo com o cardiologista, a exposição persistente ao estresse favorece a liberação contínua de cortisol e adrenalina, pode elevar a pressão arterial, aumentar processos inflamatórios e prejudicar tanto o sono quanto a alimentação.

“Estudos mostram que pessoas submetidas a níveis elevados de estresse podem apresentar aumento de 20% a 30% no risco de eventos cardiovasculares”, explica Rassi.

Dormir muitas horas também não significa necessariamente ter um sono capaz de proteger a saúde cardiovascular. Roncos intensos, interrupções frequentes durante a noite e apneia obstrutiva do sono merecem investigação. Segundo o especialista, esses problemas podem aumentar o risco mesmo entre pessoas que permanecem oito ou nove horas por noite na cama.

Outro obstáculo para a prevenção é o caráter silencioso de algumas doenças. Hipertensão e aterosclerose, por exemplo, podem avançar durante anos sem manifestações evidentes.

Quando alguns sinais aparecem, principalmente em pessoas mais jovens, existe ainda o risco de serem ignorados justamente pela percepção de que doenças cardiovasculares seriam problemas típicos de pessoas mais velhas.

Falta de ar durante esforços, cansaço persistente, palpitações e tonturas estão entre os sinais que merecem atenção. Dor na mandíbula ou nas costas durante atividades físicas e até disfunção erétil também podem estar associadas a alterações cardiovasculares e anteceder eventos mais graves.

Por isso, a prevenção não deve começar somente quando surgirem sintomas ou depois dos 50 ou 60 anos.

“O ideal é que a avaliação cardiovascular comece antes dos 40 anos, especialmente para quem tem histórico familiar de doença cardiovascular precoce, hipertensão, diabetes, obesidade ou tabagismo”, recomenda Rassi.

Entre as estratégias preventivas, a atividade física ocupa posição importante por atuar simultaneamente sobre diferentes fatores de risco. O exercício contribui para o controle da pressão arterial, colesterol, glicemia e peso corporal, além de ajudar na redução de processos inflamatórios.

Os efeitos também alcançam o sono e a saúde mental, dois componentes que, por sua vez, estão relacionados ao risco cardiovascular.

A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é acumular pelo menos 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada ou 75 minutos de exercícios de intensidade vigorosa.

Não é obrigatório distribuir os exercícios igualmente durante todos os dias da semana para obter benefícios. As evidências citadas pelo especialista indicam que pessoas que concentram a atividade física nos fins de semana também podem colher resultados positivos, desde que consigam atingir o volume semanal recomendado.

Para quem está sedentário, tem mais de 40 anos ou apresenta fatores de risco cardiovascular, entretanto, a intensidade não deve ser aumentada de maneira abrupta. A orientação é iniciar gradualmente e, quando houver indicação, realizar avaliação médica antes de avançar para atividades mais exigentes.

Confira as cinco medidas que ajudam a proteger o coração:

1. Mantenha-se fisicamente ativo
Pratique pelo menos 150 minutos de atividade física moderada ou 75 minutos de atividade intensa por semana. O exercício ajuda a controlar a pressão arterial, colesterol, glicemia e peso, além de melhorar o sono e reduzir processos inflamatórios.

2. Controle os principais fatores de risco
Monitore regularmente a pressão arterial, colesterol e glicemia, especialmente se houver histórico familiar de doença cardiovascular, hipertensão, diabetes, obesidade ou tabagismo. Muitas dessas condições evoluem sem sintomas.

3. Não subestime o estresse e o sono
O estresse crônico favorece inflamações e eleva a pressão arterial, aumentando o risco de infarto e AVC. Da mesma forma, roncos intensos, sono fragmentado e apneia do sono merecem investigação, mesmo em quem dorme por muitas horas.

4. Fique atento aos sinais silenciosos
Falta de ar aos esforços, cansaço persistente, palpitações, tonturas, dor na mandíbula ou nas costas durante atividade física e até disfunção erétil podem ser manifestações precoces de doenças cardiovasculares e não devem ser ignoradas.

5. Desconfie de promessas milagrosas
Suplementos e biohacking não substituem hábitos comprovadamente eficazes. Alimentação equilibrada, atividade física, controle dos fatores de risco e acompanhamento médico continuam sendo as principais estratégias para prevenir doenças cardiovasculares.

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