O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação do relatório da Polícia Federal que detalhou mensagens e relações de Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes e trouxe também referências ao próprio chefe da PGR. Para Gonet, a ordem do ministro André Mendonça que deu origem ao documento ultrapassou os limites de atuação de um magistrado e, por isso, tanto a determinação quanto as provas produzidas a partir dela devem ser consideradas nulas.
O parecer foi encaminhado a Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) das investigações relacionadas ao Banco Master. O ministro havia solicitado manifestação da PGR depois que a PF identificou novos interlocutores e referências nos dados extraídos do celular de Vorcaro, apreendido durante a Operação Compliance Zero.
A divergência está na iniciativa adotada pelo relator. Na semana passada, Mendonça determinou que a PF identificasse pessoas que apareciam nas comunicações do banqueiro. Ao justificar a medida, afirmou haver indícios de que Vorcaro teria estruturado uma “rede de monitoramento e influência” com possível alcance sobre altas instâncias de instituições da República.
Gonet sustenta que essa diligência não poderia ter sido determinada de ofício pelo relator, sem pedido anterior da Polícia Federal ou do Ministério Público. Segundo o procurador-geral, ao identificar referências que eventualmente pudessem indicar uma irregularidade envolvendo outro integrante do STF, Mendonça deveria ter levado a questão ao presidente da Corte para avaliação pelo plenário, e não aprofundado diretamente a investigação.
No parecer, Gonet argumenta que não caberia ao relator determinar novas pesquisas sobre referências a um colega de tribunal. Na interpretação apresentada pela PGR, seria necessário primeiro submeter a questão ao próprio Supremo para que o colegiado decidisse se havia fundamento para prosseguir com a apuração.
A conclusão de Gonet é que a irregularidade na origem da diligência contamina também o relatório produzido pela PF. Por essa razão, o procurador-geral defende a nulidade do documento e a extinção dessa frente do caso.
Mendonça, por sua vez, já encaminhou as informações para análise do plenário. Em despacho na segunda-feira, pediu que os demais ministros deliberem sobre o material encontrado pela PF e afirmou que a avaliação colegiada deverá ocorrer independentemente da posição apresentada pela PGR. A inclusão do assunto na pauta depende do presidente do STF, Edson Fachin.
O relatório cuja validade agora é questionada reúne informações sobre as relações de Vorcaro com Moraes, mas também revelou referências ao próprio Gonet. Uma delas envolve uma viagem a Londres de Pedro Gonet, filho do procurador-geral.
Em março de 2025, o advogado Ciro Soares, que atuou na defesa do Master, perguntou a Vorcaro se Pedro poderia integrar um grupo que participaria de um evento em Londres. O banqueiro concordou. No mês seguinte, uma funcionária consultou Vorcaro sobre quais convidados poderiam viajar com despesas custeadas pela organização, e ele autorizou o pagamento para Ciro e Pedro.
Outro conjunto de registros envolve uma possível conversa entre Vorcaro e Gonet. Em 15 de março de 2025, Ciro enviou ao banqueiro uma fotografia em que aparecia ao lado do procurador-geral e escreveu que Gonet queria falar com ele. Cerca de dez minutos depois, o celular de Vorcaro registrou quatro chamadas para o telefone do advogado.
A PF ressalvou que os registros não permitem afirmar que Gonet tenha participado dessas ligações ou conversado diretamente com Vorcaro. O aparelho do banqueiro também não tinha um contato salvo com o nome do procurador-geral, e as referências a ele foram encontradas principalmente nas conversas com Ciro.
Duas semanas depois, o advogado encaminhou a Vorcaro mensagens que atribuiu a Gonet. Posteriormente, afirmou que o procurador-geral gostava do banqueiro e informou que ele iria a Londres com o grupo. O relatório não atribui conduta criminosa a Gonet e apenas reúne os registros localizados durante a diligência determinada por Mendonça.
A mesma apuração detalhou uma sequência de mensagens enviadas por Vorcaro a Alexandre de Moraes durante a fase mais aguda da crise do Banco Master. Em um período de 13 dias, o banqueiro buscou orientações e pediu ajuda diante do avanço das investigações e do risco de medidas contra a instituição.
Em 16 de novembro de 2025, um dia antes da primeira prisão de Vorcaro, o banqueiro pediu a Moraes que tentasse “sensibilizar” o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Na mensagem, afirmou que um eventual adiamento das medidas para a semana seguinte poderia evitar a quebra do banco e perguntou se haveria possibilidade de impedir uma ação na manhã seguinte.
Na mesma data, Vorcaro perguntou a Moraes se seria possível “segurar” a situação com Andrei. As mensagens sugerem que o banqueiro demonstrava preocupação com uma medida policial iminente enquanto tentava viabilizar a venda de ativos do Master a um consórcio envolvendo a Fictor Holding Financeira e investidores dos Emirados Árabes.
No dia 17 de novembro, poucas horas antes de ser preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando se preparava para viajar a Dubai, Vorcaro voltou a procurar Moraes e perguntou se havia alguma novidade e se ele havia conseguido “bloquear” algo. O conteúdo disponível não esclarece exatamente a que o banqueiro se referia.
Os registros mostram os pedidos feitos por Vorcaro, mas não permitem concluir, por si só, que Moraes tenha atendido às solicitações ou interferido na Polícia Federal. Essa distinção é relevante porque parte do material recuperado contém as mensagens enviadas pelo banqueiro, sem permitir reconstruir integralmente as respostas do ministro.
Com o parecer de Gonet, a discussão passa a anteceder o próprio mérito das informações encontradas. Antes de avaliar eventuais consequências das mensagens envolvendo Vorcaro, Moraes, Gonet e outras autoridades, o STF terá de enfrentar a controvérsia sobre a validade da ordem que permitiu à PF aprofundar essas relações. Mendonça quer levar o tema ao plenário, enquanto o chefe da PGR sustenta que a diligência foi irregular desde a origem e que o relatório deve ser anulado.