
Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro revelam que o dono do Banco Master recorreu repetidamente ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto aumentava a pressão de investigações da Polícia Federal e do Ministério Público sobre a instituição. Nas conversas, o banqueiro pediu que Moraes procurasse o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e chegou a questionar se seria possível adiar medidas que estavam prestes a ser executadas contra o banco.
O conteúdo foi obtido pelo Estadão e integra o material relacionado às investigações sobre o Banco Master. A reportagem procurou Moraes, Andrei Rodrigues, Paulo Gonet e a defesa de Vorcaro. Segundo a publicação, não havia manifestação dos citados até a divulgação das informações.
As mensagens conhecidas são especialmente relevantes por abrangerem as semanas anteriores à primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025. Os pedidos começaram ao menos em 30 de outubro e se intensificaram conforme o banqueiro demonstrava preocupação com possíveis ações da PF e do Ministério Público.
Naquele momento, Vorcaro já mantinha uma relação comercial com o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O contrato de serviços advocatícios previa 36 parcelas de R$ 3 milhões líquidos, que poderiam representar desembolso bruto total de aproximadamente R$ 131,27 milhões.
Documentos fiscais posteriormente encaminhados à CPI do Crime Organizado, no Senado, apontaram que o Banco Master realizou 22 pagamentos ao escritório entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, totalizando aproximadamente R$ 80,2 milhões. O escritório contestou anteriormente informações divulgadas a partir desses dados fiscais.
O primeiro pedido identificado nas mensagens ocorreu em 30 de outubro de 2025. Vorcaro relatou a Moraes que recebia informações de que integrantes do Banco Central estavam sob forte pressão da Polícia Federal e do Ministério Público para que alguma medida fosse adotada contra ele.
Na mensagem, o banqueiro afirmou considerar importante que houvesse uma atuação junto a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet para evitar que investigadores de níveis inferiores tomassem alguma iniciativa que pudesse prejudicar o Banco Master. Vorcaro dizia estar disponível para prestar esclarecimentos, mas demonstrava preocupação com uma ação que pudesse comprometer a instituição.
Ele também informou ao ministro que enviaria os nomes de pessoas que estariam procurando o Banco Central e dizendo que haveria uma medida contra ele em breve. Posteriormente, segundo a investigação, Vorcaro repassou uma relação com quatro delegados e três procuradores da República relacionados às apurações preliminares.
A preocupação não estava restrita a uma eventual investigação criminal. Vorcaro argumentava que uma medida contra ele poderia provocar reação imediata do Banco Central e do Fundo Garantidor de Créditos e produzir consequências para a situação financeira do Master.
Naquele período, o banco tentava viabilizar uma operação envolvendo a Fictor Holding Financeira e investidores dos Emirados Árabes Unidos. Nas mensagens, Vorcaro demonstrava receio de que uma ação das autoridades inviabilizasse uma solução para a instituição.
Ainda em 30 de outubro, depois de pedir que Moraes conversasse com os chefes da PF e da PGR, Vorcaro enviou mensagens em tom pessoal ao ministro. Afirmou que questões importantes acabavam sob responsabilidade de Moraes, elogiou sua atuação e disse acreditar que o magistrado consolidaria um legado no país.
Na mesma sequência, o banqueiro afirmou enxergar possibilidade de sair fortalecido da situação e escreveu que seria necessário impedir o que classificava como uma tentativa de prejudicar a operação. Ao final, disse a Moraes: “Juntos em tudo. Muito obrigado por tudo.”
As mensagens seguintes mostram que a preocupação aumentou nos primeiros dias de novembro.
Em 4 de novembro, Vorcaro disse ao ministro que não sabia exatamente qual investigação poderia estar avançando contra o Master e que, caso surgisse alguma medida, o Banco Central entraria imediatamente em ação. Também mencionou o Fundo Garantidor de Créditos e perguntou se seria possível identificar a origem da apuração para que pudesse conversar com Paulo Gonet.
No dia seguinte, o banqueiro voltou ao assunto. Disse que estava “um pouco perdido” porque não sabia sequer qual seria o inquérito. Vorcaro relatou que seus advogados Pierpaolo Cruz Bottini e Roberto Podval haviam procurado Gonet, mas teriam recebido a informação de que ainda não havia número de procedimento e que estava sendo definida a pessoa responsável pelo caso.
Vorcaro também afirmou que havia tentativas, em São Paulo, de associá-lo a outra operação, mas sustentou que não figurava como investigado. Sobre outros inquéritos, disse que eram antigos e deveriam estar “controlados”.
A interlocução com Moraes também envolveu decisões sobre a estratégia jurídica que poderia ser adotada pelo Banco Master.
Em uma das mensagens, Vorcaro relatou que Pierpaolo Bottini cogitava apresentar uma petição aos órgãos competentes colocando o banco à disposição das autoridades e tentando descobrir se existiam investigações em andamento. O banqueiro perguntou a Moraes se considerava a medida adequada.
Na mesma conversa, afirmou que não faria nenhum movimento sem considerar a avaliação do ministro. Vorcaro acrescentou que Gonet teria informado que acompanhava pessoalmente a situação e que não haveria uma ação indevida, mas disse que um episódio recente havia acionado um “alerta vermelho”.
O banqueiro justificava sua preocupação pelo possível impacto de uma medida sobre os clientes do Master. Segundo ele, uma iniciativa que considerasse desproporcional poderia colocar milhões de clientes em risco.
O conteúdo recuperado do aparelho apresenta, contudo, uma limitação importante para a interpretação das conversas. Segundo a investigação, Vorcaro e Moraes utilizavam mensagens em modo de visualização única, enviando capturas de tela de textos produzidos no aplicativo de notas do celular.
Por causa desse método, os investigadores conseguiram recuperar as imagens enviadas por Vorcaro, mas não as respostas de Moraes. Assim, o material divulgado permite conhecer os pedidos e afirmações feitos pelo banqueiro, mas não permite reconstruir integralmente o que o ministro respondeu a cada solicitação nem concluir, apenas a partir dessas mensagens, que tenha atendido aos pedidos.
A cronologia mostra que as investigações continuaram avançando apesar das tentativas de Vorcaro de obter informações e apoio.
Em 15 de novembro, dois dias antes de sua primeira prisão, o banqueiro voltou a perguntar a Moraes se seria possível “reverter” o movimento das autoridades. Na mensagem, mencionou novamente Paulo Gonet e Andrei Rodrigues e demonstrou irritação com o avanço da investigação.
A tensão aumentou no dia seguinte.
Às 16h57 de 16 de novembro, Vorcaro perguntou diretamente ao ministro se Andrei Rodrigues teria condições de atrasar o cumprimento das medidas cautelares que, segundo o banqueiro, estavam se aproximando.
Vorcaro argumentou que um adiamento para a semana seguinte, que teria um feriado, poderia evitar a quebra do banco. Pediu então que Moraes tentasse sensibilizar o diretor-geral da PF, caso considerasse possível.
Em outra mensagem enviada menos de 24 horas antes da prisão, o banqueiro questionou se Andrei estava informado sobre as soluções que estavam sendo negociadas para o Master e perguntou se seria possível “segurar” a atuação da Polícia Federal.
O conteúdo chamou a atenção dos investigadores porque indica que Vorcaro possivelmente tinha conhecimento prévio de que medidas da primeira fase da Operação Compliance Zero estavam próximas de ser executadas. A avaliação sobre a origem e o alcance desse conhecimento integra a análise do material apreendido.
A primeira prisão ocorreu na noite de 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Vorcaro estava prestes a embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, quando foi detido.
Ele permaneceu preso até 29 de novembro, quando foi colocado em liberdade por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Meses depois, em 4 de março de 2026, voltou a ser preso por determinação do ministro André Mendonça, relator no STF das investigações relacionadas ao Banco Master.
Vorcaro permanece detido no 18º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha. A Operação Compliance Zero já avançou por dez fases.
As investigações apuram suspeitas de emissão de títulos de crédito sem lastro, manipulação de ativos e outras operações supostamente fraudulentas envolvendo o Banco Master. O valor da fraude investigada é estimado em cerca de R$ 12 bilhões. As responsabilidades individuais ainda dependem da conclusão das apurações e dos processos correspondentes.
A sequência de mensagens também detalha a preocupação de Vorcaro com a movimentação de integrantes do Banco Central. Em uma delas, o banqueiro mencionou “G”, apontado na investigação como provável referência ao presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo.
Vorcaro relatou que pessoas do Banco Central teriam informado, de maneira confidencial, sobre forte pressão da PF e do Ministério Público para uma medida contra ele. Em seguida, sugeriu que, depois de conversas com Andrei Rodrigues e Paulo Gonet, seria importante transmitir segurança a “G” de que não ocorreria o que ele classificava como uma “sacanagem”.
O banqueiro também argumentava que o simples conhecimento de uma possível ação contra ele provocava insegurança dentro do Banco Central e levava participantes a buscar proteção contra os riscos. Em uma das mensagens, utilizou o termo “hedge” para descrever essa reação.
A investigação agora procura estabelecer o significado jurídico e factual dessa sequência de comunicações. As mensagens mostram de maneira direta o que Vorcaro solicitava ao ministro, mas o material divulgado não contém as respostas de Moraes e, portanto, não demonstra, isoladamente, que o magistrado tenha efetivamente procurado Andrei Rodrigues ou Paulo Gonet, interferido em investigações ou conseguido qualquer adiamento de medidas.
Há, inclusive, um dado objetivo na cronologia: as medidas policiais acabaram executadas, Vorcaro foi preso e a Operação Compliance Zero continuou avançando nos meses seguintes.
Por outro lado, a repetição dos pedidos e a proximidade temporal entre as últimas mensagens e a operação passaram a integrar a análise das autoridades, sobretudo diante da indicação de que Vorcaro parecia conhecer a proximidade das medidas cautelares.
O caso ganhou um novo desdobramento institucional com a decisão de André Mendonça de encaminhar o conteúdo à Procuradoria-Geral da República. O ministro pediu que a PGR se manifeste sobre as mensagens encontradas no celular de Vorcaro.
A análise ocorre também em um contexto mais amplo envolvendo a relação entre o banqueiro e pessoas próximas a Moraes. Quando as mensagens foram enviadas, o Banco Master mantinha o contrato milionário com o escritório de Viviane Barci de Moraes e já havia realizado parte substancial dos pagamentos previstos.
Essa relação comercial, por si só, não demonstra conexão entre os serviços advocatícios e os pedidos feitos posteriormente por Vorcaro ao ministro. A existência do contrato e os pagamentos, entretanto, integram o contexto documental que passou a ser examinado juntamente com as mensagens recuperadas pela investigação.
O ponto central que permanece sem resposta pública é o que ocorreu do outro lado dessas conversas. O material recuperado revela que Vorcaro buscou reiteradamente a interlocução de Moraes, citou nominalmente os chefes da PF e da PGR, pediu ajuda para evitar medidas que considerava prejudiciais ao banco, consultou o ministro sobre estratégia jurídica e, nas horas anteriores à operação, perguntou se seria possível adiar a atuação policial.
Até o momento, porém, o conteúdo divulgado não permite determinar quais foram as respostas de Alexandre de Moraes nem se alguma das solicitações do banqueiro foi levada por ele a Andrei Rodrigues ou Paulo Gonet.