Dor nas pernas, pés frios e feridas que não cicatrizam podem ser sinais de doenças vasculares

Aprenda a reconhecer alterações na circulação e evitar complicações como tromboses e até amputações.

Fonte: Jherry Dell'Marh
(Foto: Divulgação)

Problemas de circulação nem sempre começam com um episódio grave ou uma situação de emergência. Muitas doenças vasculares se desenvolvem ao longo do tempo e podem avançar sem que a pessoa perceba a dimensão do problema. Quando não identificadas e tratadas, algumas delas podem provocar feridas de difícil cicatrização, comprometimento dos membros e outras complicações graves que, em determinados casos, podem chegar à amputação.

As doenças vasculares atingem os vasos responsáveis pela circulação do sangue pelo organismo, principalmente artérias e veias. Entre os principais exemplos estão a doença arterial periférica, as tromboses, os aneurismas e as alterações das artérias carótidas.

O cirurgião vascular e endovascular Kelston Felice, do Hospital São Domingos, explica que, como os sintomas iniciais são discretos, a busca por ajuda costuma demorar mais do que deveria. “Uma dor ou um cansaço diferente nas pernas durante uma caminhada, por exemplo, pode ser um sinal de alteração na circulação. Também precisamos ficar atentos a mudanças na cor da pele, pés frios, dormência e feridas que demoram a cicatrizar”, explica.

SINAIS

Uma das doenças que pode provocar esse tipo de sintoma é a doença arterial periférica. Ela acontece quando as artérias que levam sangue aos membros, principalmente às pernas, ficam mais estreitas ou são obstruídas, o que diminui a chegada de sangue aos tecidos.

Um sinal característico é a dor ou sensação de cansaço nas pernas que aparece ao caminhar e melhora quando a pessoa descansa. Em situações mais avançadas, podem surgir dor mesmo em repouso, alterações na pele, redução da temperatura dos pés e feridas de difícil cicatrização. Por isso, uma dor recorrente não deve ser automaticamente encarada como consequência da idade ou da falta de condicionamento físico.

O médico também alerta que algumas doenças crônicas aumentam o risco de problemas vasculares. “Hipertensão, diabetes e colesterol elevado precisam ser acompanhados regularmente. São doenças que podem provocar alterações progressivas nos vasos sanguíneos mesmo quando o paciente não sente nada”, ressalta Kelston Felice. Cigarro, sedentarismo, obesidade e alimentação desequilibrada também aumentam o risco de comprometimento da circulação.

Enquanto a doença arterial periférica tem evolução lenta, outras podem aparecer de maneira mais repentina. É o caso da trombose. A trombose venosa profunda ocorre quando se forma um coágulo dentro de uma veia profunda, geralmente nas pernas, dificultando ou bloqueando a passagem do sangue. Dor, inchaço, calor e vermelhidão, principalmente quando aparecem em apenas uma das pernas, estão entre os principais sinais de alerta.

“Cirurgias recentes, longos períodos de imobilização, viagens prolongadas, gestação, câncer e uso de hormônios estão entre situações que podem aumentar o risco de formação de coágulos”, explica o cirurgião vascular.

O problema pode se tornar uma emergência quando parte desse coágulo se desprende e segue pela circulação até os pulmões, provocando uma embolia pulmonar, que pode ser fatal. Se aos sintomas na perna se somarem falta de ar, dor no peito ou outros sintomas respiratórios repentinos, a orientação é procurar imediatamente uma emergência. “Minutos contam para salvar a vida”, reforça Kelston Felice.

Diabetes exige atenção especial

Há um grupo que precisa prestar atenção especial à saúde vascular: as pessoas com diabetes. Isso porque a doença pode comprometer tanto os nervos, afetando a sensibilidade, quanto a circulação dos membros inferiores. Com a perda de sensibilidade, uma pessoa pode se machucar sem perceber. Ao mesmo tempo, a circulação comprometida dificulta a chegada de sangue e nutrientes aos tecidos, prejudicando a cicatrização.

Na prática, é uma combinação perigosa: um pequeno corte, uma bolha provocada pelo sapato ou uma rachadura na pele pode passar despercebida e evoluir para uma ferida de difícil cicatrização. “A perda de sensibilidade associada à má circulação pode fazer com que pequenos ferimentos evoluam para infecções e, em casos graves, até amputações”, alerta Kelston Felice.

O problema está longe de ser raro. Dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS mostram que, em 2022, foram registradas 18.811 amputações em pessoas com diabetes no Brasil. O próprio Ministério da Saúde destaca que grande parte das amputações relacionadas ao diabetes pode ser evitada com acompanhamento adequado, cuidados regulares com os pés e identificação precoce de alterações.

No Maranhão, o problema chama tanto a atenção que motivou uma legislação específica: a necessidade de ampliar o acesso da população a informações sobre prevenção levou o tema também à legislação maranhense. Em agosto de 2025, foi sancionada a Lei Estadual nº 12.615, que estabelece diretrizes para ampliar a divulgação de informações sobre prevenção de doenças crônicas, dando atenção especial ao pé diabético. Entre os objetivos expressamente previstos estão disseminar orientações sobre os cuidados necessários para prevenir o problema, estimular hábitos saudáveis e reduzir complicações graves.

A legislação permite, inclusive, que estabelecimentos comerciais e de serviços participem desse esforço de informação, divulgando orientações preventivas em embalagens, sacolas, notas fiscais, cartazes, sites, aplicativos e redes sociais.

PREVENÇÃO

A prevenção começa muito antes de uma emergência. Controlar a pressão arterial, o diabetes e o colesterol, manter atividade física regular, evitar o cigarro, cuidar do peso e ter uma alimentação equilibrada ajudam a reduzir fatores associados às doenças vasculares.

Para prevenir tromboses, permanecer em movimento também é importante. “Quem passa muitas horas sentado, inclusive durante viagens longas, deve movimentar as pernas e, sempre que possível, levantar-se periodicamente. Pessoas que apresentam fatores específicos de risco devem receber orientação individualizada do médico”, orienta Kelston.

No diabetes, o cuidado precisa chegar literalmente aos pés. Além do controle da glicemia, é importante examiná-los diariamente, observar mudanças na pele e evitar que pequenos machucados sejam ignorados.

O tratamento das doenças vasculares depende do problema identificado e de sua gravidade. Pode envolver controle dos fatores de risco, mudanças de hábitos, medicamentos e, em determinados casos, procedimentos endovasculares ou cirurgias. “Na trombose, por exemplo, medicamentos podem ser utilizados para impedir que o coágulo aumente e reduzir o risco de novas ocorrências, sempre de acordo com avaliação médica”, explica o médico.

O mais importante, segundo Kelston, é não esperar que a circulação provoque uma complicação grave para começar a cuidar dela. “Prestar atenção aos sinais pode significar descobrir uma doença vascular quando ela ainda pode ser tratada e evitar consequências que poderiam acompanhar o paciente pelo resto da vida”, conclui.

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