Jogos transformam referências locais em identidade no Brasil e no exterior

Jogos criados a partir de referências locais têm encontrado espaço fora de seus mercados de origem. No Nordeste, produções ligadas a São Luís e ao sertão mostram como lugares específicos podem entrar na construção de uma obra

Fonte: Da redação

Jogos criados a partir de referências locais têm encontrado espaço fora de seus mercados de origem. No Nordeste, produções ligadas a São Luís e ao sertão mostram como lugares específicos podem entrar na construção de uma obra. Curiosamente, o mesmo caminho aparece em títulos estrangeiros que chegam a públicos internacionais. 

São Luís e o sertão nordestino aparecem em jogos premiados  

A OPS Game Studio usou o Centro Histórico de São Luís como fonte para Lunar Axe. O jogo reúne ao menos 35 cenas baseadas em locações reais da capital maranhense e incorpora esses espaços ao percurso da aventura. A produção levou São Luís até a Gamescom de Colônia, onde conquistou o primeiro lugar no Brasil Tá Pra Game, iniciativa da Embratur com a Abragames voltada a jogos que trabalham referências brasileiras.

O Festival Guarnicê premiou outra produção nordestina em 2026. Árida 2: Rise of the Brave venceu a categoria Melhor Jogo Nordestino na VI Mostra Competitiva de Jogos Digitais. A história acompanha Cícera por um sertão marcado pela busca de viajantes e pelo caminho até Canudos, colocando referências históricas da região no percurso da personagem.

Os dois títulos chegaram às premiações carregando lugares reconhecíveis no próprio desenho da aventura. Mas, fora do Brasil, estúdios também partiram de repertórios locais para construir jogos lançados a públicos internacionais.

Referências locais também sustentam jogos de alcance internacional 

A indústria chinesa oferece um caso de alcance bem maior. Em Black Myth: Wukong, o ponto de partida está na adaptação literária: a Game Science levou para o jogo personagens, criaturas e episódios de Jornada para o Oeste, um dos grandes romances clássicos da literatura chinesa, reinterpretando esse material para construir o universo da obra. Em 2024, o The Game Awards escolheu o título como Melhor Jogo de Ação. 

Além da narrativa, a apresentação visual também pode carregar referências reconhecíveis de uma cultura. É o caso do Fortune Rabbit, inspirado em referências chinesas, que coloca o coelho no centro da composição e combina o personagem com elementos como envelopes vermelhos e fogos de artifício.

Enquanto Black Myth: Wukong parte diretamente de uma obra clássica da literatura chinesa, Fortune Rabbit concentra essa associação em símbolos visuais que remetem ao imaginário cultural do país. São abordagens diferentes para incorporar referências locais à identidade de um jogo.

Embora usem essas referências de maneiras diferentes, os dois títulos mostram como elementos ligados a um repertório cultural específico podem permanecer reconhecíveis mesmo quando o jogo circula fora de seu mercado de origem.

O alcance internacional não exige apagar referências locais

Esse alcance internacional em produções estrangeiras, como os jogos com inspiração chinesa vistos acima, ajuda a evidenciar que uma produção pode conquistar um público estrangeiro mesmo mantendo referências culturais reconhecíveis na obra. E ajuda principalmente a dimensionar o espaço em que os jogos brasileiros também circulam.

Em uma indústria na qual os lançamentos chegam a diferentes países, depender de jogadores estrangeiros faz parte do padrão comercial de muitos estúdios, mesmo quando a produção parte de referências muito específicas.

Para os estúdios brasileiros, isso é uma ótima notícia, pois produções construídas a partir de repertórios regionais, além de serem mais fáceis de fazer, já que o estúdio está em contato direto com o material de inspiração, podem disputar esse mercado sem precisar afastar da obra os elementos culturais que lhes deram origem.

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