
A história por trás do monumento
Em dezembro de 1927, em São Luís, o vice-almirante Raymundo Frazão Cantanhede, na capela mortuária de Nosso Senhor dos Passos, Igreja do Carmo, deparou-se com o túmulo deteriorado do professor, gramático, filólogo e historiador literário Francisco Sotero dos Reis (São Luís, 22/04/1800 – São Luís,16/01/1871). Daí, veio a Cantanhede, admirador de Sotero dos Reis, a idéia de um monumento à memória de Nicodemus, pseudônimo do homenageado. A cerimônia de entrega ao público foi na praça D.Pedro II, em frente à Catedral da Sé, em 22 de abril (dia natalício do professor Sotero) de 1928. Mas, quem passa em frente à Igreja de Nossa Senhora da Vitória (Catedral), hoje em dia, indaga: o que aconteceu à estela? Por quanto tempo ficou aqui? Por que foi retirada e por quem?

A natureza do monumento
O que é “estela”? Etimologicamente, o vocábulo vem do grego antigo στήλη (stḗlē)- coluna, pilar, ou pedra erguida, estrutura monolítica na qual povos da Antiguidade gravavam textos ou esculturas em relevo para diversos fins, fossem políticos, religiosos ou funerários. A estela de Sotero dos Reis era um túmulo estilizado. Segundo o vice-almirante Cantanhede, propositor da peça póstuma: “hoje, retirado da sombria capella ossuário onde repousou, ingratamente, esquecido por mais de meio século, vejo-o, com natural orgulho, transportado para esta praça, berço da cidade, a poucos metros da casa que o viu nascer…” . Veiculado pelo jornal “O Combate”, em 23/04/1928, o discurso atesta que os restos mortais de Sotero dos Reis foram depositados no local da pedra tumular, perto da casa onde nascera o intelectual- hoje o restaurante do SENAC, na rua de Nazaré.
Com cerca de 3 metros de altura e em mármore, esboçou a estrutura da peça o eminente artista plástico maranhense Newton Sá. O componente marmorial foi executado por Adizio M. Gondim. Encravado na rocha, um disco de bronze com a efígie de Sotero dos Reis, obra de Newton Sá (Colinas,03/08/1908-Rio de Janeiro, 27/11/1940)
A estela foi iniciativa puramente particular, sem interferência do poder público, com contribuições individuais como as do comerciante Salim Duailibe e a do próprio prefeito Jayme Tavares, em sua atribuição de cidadão comum. O vice-almirante Cantanhede se ressentia do fato de Sotero dos Reis ser um dos únicos vultos-senão o único- da “Atenas Brasileira” a não ter uma homenagem pública.
Mas, o bronze de Sotero dos Reis acabaria por virar uma autêntica antítese barroca, canalizando, de um lado, o desejo de se reviver uma era gloriosa, e do outro, a vontade de se deixar o passado rumo a uma incipiente e sonhada modernidade. E foi aquela antítese que, vinte e cinco anos depois de erguida a homenagem, levou-a a desaparecer. Segundo a professora Raimunda Fortes em “A obra escultórica de Newton Sá” (2001), a destruição da peça atentou tanto contra a memória do artista plástico Newton Sá quanto contra a imagem do intelectual do século XIX.

Nos anos 50, São Luís do Maranhão vivia uma efervescência cultural e político-administrativa. A Semana de Arte Moderna, ocorrida mais de trinta anos antes, suscitava, tardiamente, debates intensos entre os intelectuais maranhenses; alguns defendiam os valores de “vanguarda” propagados pelo Modernismo (liberdade estética, renovação da linguagem, nacionalismo crítico); outros se apegavam ao Maranhão do século XIX, a “Atenas Brasileira” (cultura cristalizada no neoclassicismo e romantismo francês dos séculos XVIII e XIX e traduzida, no Brasil, pela vindoura Escola Nacional de Belas Artes, cujo cânone o Maranhão seguiu até meados do século XX); entre os representantes da renovação, grupos como o Centro Cultural Gonçalves Dias e a Movelaria Guanabara; ente os defensores das Belas Artes, “descendentes” ou “herdeiros” de agremiações culturais da primeira metade do século XX, como a Távola do Bom Humor, a Escola de Belas Artes do Maranhão e a própria Academia Maranhense de Letras.
Politicamente, a capital vivia as ressonâncias da chamada “Greve de 1951”, polarizada entre as ditas forças oposicionistas coligadas, que tentaram levar Saturnino Bello ao governo do estado, e o núcleo vitorinista, grupo político de Vitorino Freire que conduziu Eugênio Barros ao executivo estadual, com os jornais da época refletindo essa polarização; já os mandatários municipais eram, desde 1922 escolha do governo federal ou estadual. Nos anos 50, o prefeito era nomeado pelo governador do momento e podia ser exonerado a qualquer instante, alijando a população de algo realmente democrático.
Quanto à organização socioespacial, São Luís vivia a transição entre “arranjos modernos” já iniciados no fim dos anos 1920 e década de 1930 (intervenções pontuais na Avenida Maranhense -ganhou o nome de Pedro II em 1925-, construção da avenida Beira Mar, demolição de prédios antigos) e a futura expansão das décadas seguintes (espraiamento da cidade para além do núcleo colonial, construção do Anel Viário, continuidade da abertura de vias e alargamento de outras do próprio centro histórico). São, da década de 1950, o prosseguimento da expansão terrestre rumo ao interior da Ilha pela avenida Getúlio Vargas; a descentralização urbana rumo à zona norte e à orla; e a elaboração de planos diretores. Dessa época, a reforma da Avenida D. Pedro II, com o primeiro viaduto do Maranhão, e o surgimento da praça de mesmo nome no entorno da via, ilustram como o Maranhão tentava “sair do passado” e “entrar na modernidade”, tanto que a avenida e a praça foram expostas nas primeiras páginas do Álbum do Maranhão de 1950, publicação que buscava mostrar uma “nova São Luís”, mais compatível com o urbanismo vigente.
Costa Rodrigues De agosto de 1948 a março de 1951, assumiu o executivo municipal o médico Antônio Euzébio da Costa Rodrigues (São Luís, 29/05/1915 – São Luís, 17/09/ 1989).Empossado pelo governador Sebastião Archer da Silva, Rodrigues herdou as reformas estruturais da época Jayme Tavares/ Magalhães de Almeida (1926-1930) e diretrizes do plano proposto em 1936 pelo urbanista José Otacílio Saboia Ribeiro. Ruas centrais começaram a ser adaptadas para o tráfego crescente de veículos automotores; obras públicas priorizavam o saneamento básico, o abastecimento de água e a abertura de vias mais largas para circulação de ar e controle de resíduos sólidos. Novos edifícios, institucionais e comerciais, na paisagem urbana do centro tradicional, e a crescente difusão da Arquitetura Moderna e da Art Déco levaram novas linguagens arquitetônicas ao núcleo colonial, com o desejo da elite ludovicense e dos poderes constituídos de se alinhar a fisionomia da capital ao ideal de progresso e às demandas urbanísticas daquela época do século XX; casarões coloniais em pedra e cal abriram espaço para prédios de concreto armado.
Nesse quadro, os monumentos no ordenamento urbano foram repensados, com alguns criados, deslocados, substituídos e /ou simplesmente demolidos. Em março de 1949, os jornais já noticiavam as obras da “nova avenida D, Pedro II”; assim, a “Mãe D’ Água Amazônica” foi instalada dentro de uma fonte luminosa, em meados de 1950, naquele logradouro; a “Águia que Pousa” foi levada, do canteiro central da escadaria que havia onde é hoje o viaduto da avenida D.Pedro II, para perto do prédio da Capitania dos Portos; a Pedra da Memória, que ficava no Campo de Ourique e estava desmontada num depósito havia anos, ganhou novo espaço na avenida Beira Mar, próximo ao Palácio dos Leões; e o segundo marco da fundação de São Luís, em frente à Prefeitura, foi demolido para a colocação do busto de La Ravardière, ao lado de duas representações, em bronze, de granadeiros (soldados de elite cujas estátuas sumiram por conta do vandalismo público).A demolição do segundo marco da fundação da cidade foi registrada pelo escritor maranhense Joaquim Vieira da Luz em seu livro “Dunshee de Abranches e outras figuras” (1954). “Pela prefeitura municipal de São Luís, passou aí, por voltas de 1949, um urbanista de mau gosto…fez demolir o marco comemorativo da fundação da cidade, erigido a 08 de setembro de 1922…façamos aqui um registro de louvor àquele administrador, inimigo do marco, de Sotero e dos granadeiros…”
Vieira da Luz coloca Costa Rodrigues como aquele que removeu a estela de Sotero dos Reis. Mas, vamos a duas imagens:
A primeira foto é do jornal O imparcial e mostra a praça D,Pedro II em obras, entre agosto e setembro de 1950, com sua vegetação totalmente arrasada, e a estrutura de mármore-indicada com seta preta-já deslocada da posição original (em frente à Igreja da Sé) e em sua segunda localização, em frente ao Palácio do Comércio; a segunda é do historiador paraense Ernesto Horácio da Cruz (“Igrejas e Sobrados do Maranhão”, 1953); Cruz exibe a peça marmorial (traços azuis nossos) em meio a uma vegetação ora crescida e junto às duas outras obras de Newton Sá na praça: em vermelho (nosso), o busto, inaugurado, em 1929, de D.Francisco de Paula e Silva; e a Mãe D’ Água Amazônica (traços verdes, nossos). Agrônomos que consultamos estimam, de um ano e meio a dois anos o tempo mínimo para que a vegetação local chegasse ao patamar da figura 2; logo, parece contraditório que Costa Rodrigues, cujo mandato terminou em março de 1951, tenha se desfeito de Sotero, pois a paisagem da foto 2, além de ser publicada em 1953, é mais compatível, conforme os agrônomos, com fins de 1951 e começos de 1952.

Assim, precisa-se verificar o período entre março de 1952 e abril de 1954. De outubro de 1953 a junho de 1954, escolhido pelo governador Eugênio Barros, foi prefeito o administrador de empresas Eduardo Viana Pereira (Codó,02/02/1909-Rio de Janeiro,15/01/1987).Entre os acenos de Viana Pereira ao círculo cultural ludovicense, a doação, ao Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão-IHGM-, do terreno que seria chamado de “Praça do Pantheon”, em março de 1954; a instalação dos bustos de Artur Azevedo e Raimundo Correia na “Praça do Pantheon” entre março e maio de 1954; ajardinamento da “Praça do Pantheon” para a colocação daqueles dois primeiros bustos; e a concessão de uma pensão de mil cruzeiros ao professor José do Nascimento Moraes. Verifiquemos, agora, o livro-caixa da prefeitura entre 1952 e 1954, disponível no site do Arquivo Público do Estado do Maranhão-APEM.O livro traz uma listagem de vários logradouros e as obras nele executadas.Vejamos a avenida D.Pedro II:
Os dados mostrados são do governo Viana Pereira.Somando-se esses números aos de outros do mesmo livro, como limpeza pública e serviços de arborização, na mesma administração, nada nos chamou a atenção que não fossem despesas com serviços aparentemente pontuais na praça Pedro II. Juntando-se isso aos acenos do prefeito à elite intelectual, parece, também, contraditório, ter sido esse mandatário quem tenha obliterado a homenagem pública. Em 01 de junho de 1954, menos de oito meses após assumir, Viana Pereira já tinha sido sumariamente exonerado pelo mesmo governador que o nomeou. Assim, caiu por terra o acerto, da prefeitura com o IHGM, de devolver a estela ao espaço urbano, e o mármore teve o depósito da municipalidade como seu quarto e último destino.
Por fim, 01/01/1952 – 01/10/1953:
Do livro-caixa vê-se, para junho de 1953 na Pedro II, despesas com mostradores de relógio, um sistema de relógio-mestre e pagamentos sobre a contratação de fretes e carretos. Agora, o corte de uma foto do acervo Dreyffus Azoubel, comparando-o com Ernesto Cruz, de 1953:
Foto n.25, foto n.15
Por contraposição à segunda fotografia (Ernesto Cruz, traços azuis), nota-se, em Azoubel a estela indicada por setas pretas; em amarelo, a Mãe D´água; em vermelho o busto do frei D.Francisco; e a seta azul indica um dos supostos mostradores de relógio. Comparando com a última gravura do livo-caixa e com a foto de Ernesto Cruz, a foto de Azoubel deve ser também de 1953, confirmando que, em meados daquele ano, o medalhão de Sotero permanecia no complexo Pedro II . O Jornal do Povo, de 21 de fevereiro de 1953, noticiou que parlamento municipal e a prefeitura concertaram, entre fevereiro e fins de 1953, obras pela cidade (serviços na Belira, Rua do Egito, etc.).E como extensão das obras “modernizadoras” da cidade, o acabamento da avenida Beira Mar após 23 anos, com a execução do trecho que, atualmente, vai da Ponte do São Francisco à praça Gomes de Sousa; na Pedro II, tivemos: a implantação- ou pelo menos a tentativa- de um sistema de relógio-mestre (relógios públicos controlados por um central) e a implantação do relógio de ponto na Prefeitura.Por fim, na Pedro II, em 1953:
O adro compreende a parte externa (o pátio elevado em relação à rua e delimitado pelo muro da catedral).Adro, muro, calçada e via próxima são, de acordo com as dimensões cultural, histórica e morfológica do traçado urbano, uma transição espacial contínua; logo, os reparos no adro devem ter incluído adequações no espaço próximo, justamente onde era o terceiro local da estela antes de confinada no depósito municipal. Assim, pelo livro-caixa e pela continuidade da urbanização/tecnologização do complexo Pedro II e adjacências (Beira Mar), o mais provável é que a estela teve sua proscrição na gestão do médico chapadinhense Otávio Vieira Passos (Chapadinha,03/05/1904-Rio de Janeiro, 12/011971).Passos, também convidado e exonerado por Eugênio Barros, governou de janeiro de 1952 a começos de outubro de 1953 e pode ser considerado um “herdeiro” menos conhecido da mentalidade desenvolvimentista da São Luís dos anos 50.
Com o crescimento cada vez maior da cidade e as constantes adequações no seu núcleo colonial, o monumento da estela, foi, provavelmente, ressignificado: de homenagem, passou a obstáculo. Também, de acordo com a imagem governamental proposta, da “moderna”, “nova São Luís”, para a opinião pública de então, não combinava o cartão postal da cidade com um memorial que, muito possivelmente, via-se, na nova configuração urbana da Pedro II, como algo mórbido, sombrio e sinônimo de poluição visual.
A conclusão sobre a provável autoria e possíveis motivações da proscrição do monumento do seu logradouro de origem não é taxativa, pela falta de documentos oficiais ou relatos de jornais da época. Sobre o silêncio dos jornais, temos a ponderar que São Luís, nos anos 50, já estava despida de sua aura de outrora. A “Atenas” era, então, vitimada por crises de abastecimento de água e de alimentos, com o povo passando fome ou consumindo alimento deteriorado; a saúde pública nos bairros populares não era das melhores; prefeitos e vereadores, quando não entravam em choque gerando crises políticas, uniam-se para tentar aumentar impostos que garantissem recursos para as obras necessárias (ou perdulárias). Os periódicos, não raro, trocavam verdadeiros diatribes, defendendo um ou outro grupo político. Questões de ordem histórico-cultural pareciam não estar entre as prioridades, como mostra a não reposição, na Praça da Alegria, da estela, que jamais voltou ao espaço público.
Dentre as homenagens atuais a Sotero dos Reis em nossa capital, a escola que leva o nome do gramático na rua de São Pantaleão, no centro; a efígie de Sotero em uma das faces da base do monumento a Gonçalves Dias, no Largo dos Amores; e a avenida 10 do terceiro conjunto da Cohab, que também tem o nome de avenida Sotero dos Reis, quase em frente ao terminal de ônibus do bairro.

