Mercado aguarda sinal fiscal de Lula após turbulência

Após circuit breaker na Bolsa, mercado espera compromissos fiscais de Lula. Analistas avaliam os possíveis reflexos na economia brasileira

Fonte: Da redação

A definição da política fiscal para o próximo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a concentrar as atenções do mercado financeiro após a turbulência registrada na segunda-feira (26). Economistas avaliam que a apresentação de compromissos relacionados ao controle das despesas e à trajetória da dívida pública poderá influenciar o comportamento do dólar, dos juros e da Bolsa nos próximos meses.

A expectativa é que o governo apresente sinalizações sobre a condução econômica antes mesmo do início do novo mandato, em janeiro de 2027. Entre os pontos acompanhados pelos investidores estão a composição da equipe econômica e as medidas previstas para manter as contas públicas em uma trajetória sustentável.

O economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Barros, atribui parte da reação negativa dos mercados à reversão de operações realizadas antes do segundo turno. Segundo ele, investidores haviam incorporado aos preços dos ativos a possibilidade de uma mudança de governo e precisaram reorganizar suas posições após a confirmação da reeleição de Lula.

Na manhã de segunda-feira, o Ibovespa registrou queda superior a 10%, levando a B3 a acionar o circuit breaker, mecanismo que suspende temporariamente as negociações em situações de forte desvalorização. O dólar também avançou mais de 10% durante a sessão, saindo de aproximadamente R$ 4,99, na sexta-feira (23), para a região de R$ 5,50.

Embora parte dessas oscilações possa diminuir com o ajuste das posições dos investidores, Barros considera que permanecem desafios estruturais relacionados ao equilíbrio fiscal. O economista também menciona preocupações institucionais associadas aos questionamentos sobre o processo eleitoral e às críticas dirigidas a decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Uma das possibilidades discutidas entre participantes do mercado é a divulgação de uma mensagem presidencial semelhante, em sua finalidade, à Carta ao Povo Brasileiro, apresentada por Lula durante a campanha de 2002. Na ocasião, o documento buscou esclarecer compromissos econômicos e reduzir incertezas entre investidores.

Miguel Pinheiro, especialista em câmbio da Blue3 Investimentos, avalia que a volatilidade poderá continuar nos últimos meses de 2026. Para ele, as decisões sobre a equipe econômica e a política fiscal terão influência sobre o fluxo de capitais estrangeiros e a cotação do real.

O especialista alerta que uma deterioração da confiança na gestão das contas públicas poderia provocar novas saídas de recursos do país e pressionar a moeda americana. Nesse cenário, considera possível que o dólar ultrapasse os níveis observados após a eleição, quando era negociado na região de R$ 5,56.

As consequências de uma instabilidade prolongada não ficariam restritas aos investidores. A valorização do dólar aumenta o custo de mercadorias importadas e de insumos utilizados pela indústria e pelo agronegócio, podendo pressionar os preços ao consumidor.

Uma eventual persistência dessas pressões inflacionárias também poderia dificultar a redução da taxa Selic. Com juros elevados por mais tempo, financiamentos e empréstimos tendem a permanecer caros, afetando o consumo das famílias e os investimentos das empresas.

Outro ponto de atenção é o custo de financiamento da dívida pública. Caso os investidores passem a exigir remunerações maiores para adquirir títulos do governo, as despesas com juros poderão aumentar, ampliando as dificuldades para estabilizar o endividamento.

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