
Uma reportagem exibida na noite deste domingo (4) pelo Fantástico revelou os bastidores de um amplo esquema de corrupção que desmontou a estrutura administrativa do município de Turilândia, no interior do Maranhão.
No primeiro dia útil do ano, a prefeitura estava de portas abertas, mas praticamente sem funcionários. Questionado pela equipe do Fantástico sobre a ausência de servidores, um vigia confirmou o esvaziamento do prédio. “Só tem eu mesmo”, relatou. Situação semelhante foi registrada na Câmara Municipal, onde funcionários evitaram contato com a reportagem e deixaram o local rapidamente.
O cenário é consequência direta de uma operação do Ministério Público do Maranhão, deflagrada na semana do Natal, que resultou na prisão de toda a cúpula do poder municipal. Foram detidos o prefeito Paulo Curió, a primeira-dama Eva Curió, a ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima e os 11 vereadores da cidade, além de outros envolvidos, totalizando 21 prisões.

Fraudes generalizadas e licitações viciadas
De acordo com o Ministério Público, o grupo é suspeito de desviar pelo menos R$ 56 milhões dos cofres públicos desde 2021, início do primeiro mandato de Paulo Curió. As investigações apontam um esquema estruturado, com empresas de fachada, notas fiscais frias, pagamento de propinas e manipulação sistemática de licitações.
O promotor Fernando Berniz, integrante do Gaeco, afirmou que a fraude era regra no município. Segundo ele, a própria pregoeira teria admitido que cerca de 95% das licitações realizadas em Turilândia eram fraudadas, conforme revelado na reportagem.
Interceptações telefônicas reforçam as suspeitas. Em um dos áudios divulgados, a pregoeira cobra do prefeito uma “recompensa” pela condução de uma licitação irregular, citando inclusive o pedido de uma caneta emagrecedora. Em outra gravação, ela afirma que uma licitação de estrada vicinal seria declarada “fracassada”, conforme acordo prévio.
Dinheiro, propina e patrimônio de luxo
Segundo o MP, empresários envolvidos no esquema recebiam até 18% do valor dos contratos sem que os serviços fossem efetivamente prestados. Parte do dinheiro retornava ao prefeito, enquanto cerca de 3% ficaria com o então controlador-geral do município, Wandson Barros, apontado como operador financeiro do grupo.
Durante a operação, a polícia apreendeu grandes quantias de dinheiro em espécie e chamou atenção para o patrimônio do casal Curió. Um dos imóveis investigados fica em São Luís, avaliado em aproximadamente R$ 3,7 milhões, e teve a entrada arrombada durante a ação policial. Conforme o Ministério Público, a casa teria sido adquirida com recursos emprestados por um agiota que também atua como médico neurocirurgião.
Áudios revelados pela investigação mostram ainda o prefeito utilizando cartão de crédito de empresas contratadas pela prefeitura e reclamando do limite disponível. Em outra gravação, ele menciona “sobras” mensais de recursos desviados, em valores próximos a R$ 2 milhões — cifra semelhante à que, segundo os investigadores, era repassada aos vereadores para garantir a omissão na fiscalização.
Posto de combustíveis no centro do esquema
As apurações indicam que o esquema teve início em um posto de combustíveis pertencente à ex-vice-prefeita e ao marido. No papel, a prefeitura registrava compras milionárias de combustível, incompatíveis com a frota e o consumo real do município. Desde 2021, o posto firmou 58 contratos com a prefeitura e recebeu mais de R$ 17 milhões.
Segundo o MP, o volume de combustível registrado permitiria que cada um dos dez veículos oficiais rodasse cerca de 790 quilômetros por dia, distância equivalente a uma viagem diária de ida e volta entre São Luís e Porto Alegre.
Pobreza, intimidação e solução judicial inédita
Enquanto os recursos públicos eram desviados, a população continuava enfrentando graves carências. Dados do IBGE citados na reportagem mostram que três em cada quatro moradores de Turilândia vivem sem acesso adequado a esgoto. Durante as gravações, a equipe do Fantástico relatou ter sido acompanhada por apoiadores do prefeito, com buzinaços e tentativas de intimidação.
Com prefeito, vice-prefeita e vereadores fora de circulação, a Justiça adotou uma medida inédita para evitar a paralisação administrativa: os vereadores passaram a despachar em prisão domiciliar, com restrições severas de contato entre si. Segundo o procurador-geral de Justiça do Maranhão, Danilo de Castro, reuniões só podem ocorrer em situações emergenciais.
O que dizem as defesas
A defesa do prefeito Paulo Curió e da primeira-dama informou que ambos estão à disposição das autoridades e confiam no respeito às garantias constitucionais. A defesa de Wandson Barros declarou acreditar que a apuração dos fatos demonstrará sua inocência. Os demais citados não se manifestaram.
Para o Ministério Público, o caso simboliza um dos episódios mais graves de corrupção no interior do estado. “O dinheiro que deveria ser destinado à saúde, educação e saneamento foi desviado para fins pessoais”, afirmou o promotor Fernando Berniz. Uma moradora, ouvida pela reportagem, resumiu o sentimento da cidade de forma direta: “É muita coisa errada para uma cidade tão pequena. O que faltou foi vergonha”.