Menopausa no Brasil: 82% das mulheres têm sintomas, mas apenas 12% fazem tratamento hormonal

Desinformação, medo e falta de acesso a especialistas explicam por que a maioria das brasileiras atravessa o climatério sem acompanhamento adequado

Fonte: Assessoria

Uma pesquisa realizada entre julho e agosto de 2025 com 837 mulheres de 40 a 65 anos revelou um dado que chama atenção: 82% delas relatam sintomas da menopausa e convivem, em média, com pelo menos sete manifestações ao mesmo tempo.

Ondas de calor, ansiedade, fadiga, dores articulares, insônia e ganho de peso aparecem de forma simultânea na rotina dessas mulheres. Mesmo assim, apenas 12% fazem terapia de reposição hormonal no Brasil, um percentual inferior ao observado em países da Europa, onde esse índice chega a 20%.

O estudo, conduzido pela Reds Research e vinculado ao grupo HSR Specialist Researchers, expôs o que especialistas já apontam há anos: a menopausa segue marcada por desinformação, estigma e lacunas no cuidado à saúde feminina.

Para milhões de brasileiras, o período que pode durar mais de uma década é atravessado sem diagnóstico preciso, sem tratamento adequado e, muitas vezes, sem sequer saber que o que sentem tem nome e tem solução.

Dados do IBGE indicam que, no Brasil, cerca de 17 milhões de mulheres estão no climatério, fase que abrange dos 40 aos 65 anos e que inclui a menopausa. Segundo a FEBRASGO, a menopausa ocorre, em média, aos 48 anos entre as brasileiras.

A OMS estima que, até 2030, um bilhão de pessoas no mundo conviversão com sintomas dessa fase. São números que colocam o tema entre as prioridades de saúde pública feminina, ainda que o debate público não acompanhe essa realidade.

Os sintomas que a maioria não associa à menopausa

Quando se fala em menopausa, o fogacho, popularmente chamado de onda de calor, é o sintoma mais lembrado. Mas o quadro clínico vai além. Conforme levantamento publicado na revista científica Climacteric com 1.500 mulheres brasileiras, 73% relataram ondas de calor.

Ansiedade foi citada por 59%, cansaço por 58,7%, dores articulares por 56,6% e insônia por 47,9%. Esses números mostram que o climatério afeta o corpo de forma sistêmica e não apenas reprodutiva.

A queda de estrogênio, hormônio central nessa transição, provoca alterações que vão do sono à saúde cardiovascular, passando pelo metabolismo ósseo, pelo peso corporal e pela cognição.

Pesquisas registram o que as mulheres frequentemente descrevem como névoa mental: lapsos de memória, dificuldade de concentração, sensação de confusão. Em paralelo, o risco de osteoporose cresce de forma significativa após a menopausa, já que o estrogênio tem papel protetor sobre a massa óssea.

Outro dado pouco discutido: a síndrome metabólica tem prevalência de 37% entre mulheres na pós-menopausa, segundo meta-análise de 119 estudos publicada no PMC.

O risco de hipertensão arterial também se intensifica após os 65 anos nas mulheres, superando o registrado em homens da mesma faixa etária, conforme a Diretriz Brasileira sobre Saúde Cardiovascular no Climatério, publicada em 2024.

Por que tantas mulheres chegam sem tratamento

A pesquisa da Reds Research identificou três fatores principais que explicam a baixa adesão: falta de informação, medo de desenvolver câncer de mama e dificuldade de acesso a serviços de saúde especializados.

No Brasil, três quartos da população não têm acesso à saúde suplementar, o que restringe o contato com especialistas que orientariam o tratamento de forma individualizada.

O medo em relação à terapia hormonal tem raízes históricas. Em 2002, um estudo norte-americano amplamente divulgado, o Women’s Health Initiative, sugeriu que a reposição elevava o risco de câncer de mama e doenças cardiovasculares.

O impacto foi imediato: as prescrições caíram em todo o mundo. Nos anos seguintes, revisões metodológicas apontaram limitações importantes na pesquisa, especialmente quanto ao perfil das participantes e às doses utilizadas.

A Sociedade Norte-Americana de Menopausa, em atualização de 2022, reafirmou que a terapia hormonal é o tratamento mais efetivo para os sintomas vasomotores, com riscos raros e manejáveis quando bem indicada.

O problema é que o receio criado há duas décadas permanece enraizado tanto entre pacientes quanto entre parte dos profissionais. Mulheres que poderiam se beneficiar continuam sem tratamento, ou interrompem o uso poucos meses depois. O estudo publicado no Climacteric identificou que a maioria das brasileiras que inicia a terapia hormonal abandona o tratamento em cerca de oito meses.

O peso da desinformação na qualidade de vida

Quando os sintomas do climatério não são tratados de forma adequada, as consequências se acumulam. A insônia crônica afeta a produtividade e a saúde mental. A atrofia vaginal, presente em 20% a 45% das mulheres na pós-menopausa, compromete a vida sexual e, quando não tratada, se intensifica com o tempo. A perda de massa óssea silenciosa aumenta o risco de fraturas que podem comprometer a mobilidade anos depois.

A pesquisa da Reds Research observou que a menopausa afeta diretamente uma das maiores forças produtivas e de consumo do país. Mulheres em plena vida ativa, com idades entre 45 e 55 anos, acumulam funções no trabalho, na família e na sociedade. Quando os sintomas não são reconhecidos nem tratados, o desempenho cai, o afastamento cresce e o custo individual e coletivo se expande de forma silenciosa.

Qual especialista procurar e o que avaliar na consulta

A menopausa pode ser acompanhada por ginecologistas ou endocrinologistas, e a escolha depende do perfil de sintomas. Quando o quadro envolve principalmente sintomas reprodutivos e vasomotores, o ginecologista costuma ser o primeiro passo.

Mas quando há alterações metabólicas associadas, como resistência à insulina, ganho de peso, disfunções da tireoide ou oscilações no colesterol, o endocrinologista tem formação específica para avaliar o impacto hormonal em todo o organismo.

Para mulheres que enfrentam sintomas combinados ou que querem uma avaliação mais abrangente do sistema hormonal, buscar um endocrinologista especialista em menopausa pode ser decisivo para um plano de tratamento mais completo.

Esse profissional avalia não apenas os hormônios reprodutivos, mas o conjunto do sistema endócrino, incluindo tireoide, adrenais, metabolismo ósseo e risco cardiovascular, o que permite uma abordagem individualizada para cada paciente.

Na consulta, é importante relatar todos os sintomas, mesmo os que parecem não ter relação direta com a menopausa, como dificuldade de concentração, queda de cabelo, ganho de gordura abdominal ou alterações no humor.

Exames laboratoriais com dosagem hormonal e avaliação metabólica fazem parte da investigação inicial. A partir daí, o tratamento pode incluir terapia hormonal, quando indicada, ou alternativas não hormonais com eficácia comprovada.

A janela terapêutica que poucos conhecem

Um dos pontos mais relevantes na condução do tratamento é o momento de início. Estudos indicam que iniciar a terapia hormonal nos primeiros dez anos após a menopausa, ou antes dos 60 anos, está associado a benefícios cardiovasculares significativos. Fora dessa janela, a avaliação de riscos e benefícios muda e exige análise mais cuidadosa.

Essa chamada janela de oportunidade é pouco conhecida entre as pacientes e, por vezes, entre os próprios médicos. Mulheres que esperam anos para buscar tratamento, muitas vezes por desconhecimento ou por receio, podem perder o período em que os benefícios da reposição seriam mais amplos. Informação correta e acesso a profissionais atualizados fazem diferença concreta nesse cenário.

Vale destacar que nem toda mulher na menopausa precisa de terapia hormonal. Quando os sintomas são leves ou ausentes, o acompanhamento pode se restringir a monitoramento e orientações de estilo de vida. Mas quando os sintomas afetam o sono, a cognição, o humor ou a vida sexual, postergar a avaliação especializada não é uma decisão sem custo.

O que muda com o acompanhamento adequado

Mulheres que recebem tratamento individualizado relatam melhora consistente em múltiplas frentes: qualidade do sono, redução dos fogachos, estabilidade emocional, preservação da densidade óssea e manutenção do peso.

A terapia hormonal, quando bem indicada e monitorada, pode ser mantida com segurança por períodos prolongados, contrariando a ideia de que se trata de um recurso temporário.

As vias de administração também evoluíram. Além das formas orais, estão disponíveis adesivos, géis, cremes e implantes, cada um com características farmacológicas distintas. A escolha deve ser personalizada conforme o perfil clínico da paciente, o que reforça a necessidade de acompanhamento regular ao longo de todo o processo e não apenas no início.

Tratamentos não hormonais com evidência científica também existem para casos de contraindicação ou preferência. Antidepressivos em doses específicas, gabapentina e a molécula fezolinetante, aprovada recentemente nos Estados Unidos para sintomas vasomotores, integram o arsenal terapêutico disponível. A escolha entre essas opções deve ser feita com base em dados clínicos, não em preferências sem respaldo científico.

O que fazer diante dos primeiros sintomas

O climatério começa antes da menopausa. Irregularidades menstruais, alterações no sono, irritabilidade e sensação de calor podem surgir já a partir dos 40 anos, marcando o início da perimenopausa.

Esperar o diagnóstico formal de menopausa, definido como 12 meses consecutivos sem menstruação, para procurar ajuda significa perder parte do período em que o acompanhamento é mais eficaz.

A endocrinologista Dra. Camila Farias, que atende pacientes na região metropolitana de Goiânia, salienta que o primeiro passo é reconhecer os sintomas como parte de um processo hormonal com tratamento disponível. O segundo é buscar avaliação com um profissional atualizado, seja ginecologista ou endocrinologista, que possa interpretar exames, avaliar o histórico clínico e discutir as opções com base em evidências. O terceiro é manter o acompanhamento ao longo do tempo, já que o climatério é uma fase que se estende por anos.

O Brasil tem 17 milhões de mulheres no climatério. Tratar esse número como uma estatística distante significa ignorar uma demanda de saúde que afeta a produtividade, a qualidade de vida e o bem-estar de uma geração inteira. A desinformação tem custo, e ele é cobrado, silenciosamente, todos os dias.

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